A mensagem de amor de Avatar
Falar de filme numa crônica é difícil. Nem sempre é possível. Quando menos se espera, surge a resenha. Toma o lugar da crônica. De repente o cronista vira crítico e o crítico insuportável reclama por todos os lados que um incompetente deu de falar sobre filmes. Correrei o risco, contudo. Só não prometo concisão e objetividade. Nem grande apuro analítico. É fato que não sou crítico e tenho lido pouco sobre cinema para me aventurar em algum comentário.
Mas vamos lá, ora bolas! Fui ver Avatar, o melhor filme da última safra e também a melhor mensagem ecológica a que as massas de todos os continentes poderão ter acesso. O longa de dimensões fenomenais que tem arrecado bilhões ao redor do mundo veio como um alerta. Ele, mais do que outros que elegeram o tema, chama a atenção para o cuidado humano com a vida e a natureza. Faço votos que depois dele mais gente se interesse pela questão do clima, por exemplo. E possa compreender os complicados resultados da putrefação do ar e das águas, das matas e da vida como um todo.
Tudo poderá morrer, diz o filme de James Cameron. E, se a vida não acabar logo, poderemos sofrer o bastante, a modo de contragotas. É isso o que queremos? Se por um lado os interesses da ganância e do egoísmo têm a força de dar fim ao planeta, por ignorar o destino da vida, outros, poderemos fazer alguma coisa. É defender com unhas e dentes tudo o que nos cerca. Pelo menos o povo Na’vi da história de Avatar dá o exemplo. Sábio assim como o complexo de vida que o cerca, compreende (e, cá entre nós, já sabemos) que as coisas estão interligadas. Todos os seres. Tudo o que é vivo e dá sentido à existência.
Entre nós, a realidade não diz diferente: nada está fora de relação e nunca esteve. Até as mínimas coisas vêm conectadas, desde sempre. Acaba que quando a gente diz nada a ver, não está a dizer coisa alguma. De verdade, não existe nada a ver. É simples: tudo está ligado como fios de conexões em rede, um grudado ao outro, dadas as mãos, num imenso e complicado corpo; e num só espírito. Aqui e alhures. Tome nota: mesmo quando as coisas parecem não fazer sentido, é porque passa batido o tolo; foi com a cara ao chão porque não deu em concatenar a teia de mistério e magnitude da vida.
É comovente ver como os habitantes do planeta Pandora se relacionam com a natureza. Eles a respeitam, a amam. Vivem nela e por ela. Se algo está errado, eles sentem. A menor agressão, e um fio é desconectado. A harmonia, quebrada. Tudo passa a sofrer. Em Pandora até a menor parte daquele universo sofre quando a deusa Eywa (nossa correspondente Gaia mal amada) é violentada. Ela é o pneuma. A árvore da vida. Ela é a união entre o sentimento e o respeito do povo Na’vi, dela nasce a seiva por onde os seres existem e aonde são levados no destino maravilhoso de sua aventura: a comunicação com tudo o que é vivo e flutua no ar (lembrem a cena das sementes da Árvore das Almas)...
Ora, ao menor sinal de que algo não vai bem, os Na’vi compreendem: é ligar os fios outra vez, e o mais rápido. Religar. Conectar. Afinal, desde sempre tudo estava ali: entrelaçado, mútuo, único. Como as peças de um incomparável quebra-cabeças.
Em tempos de questionáveis debates comerciais travestidos de interesses ecológicos, Avatar traz uma mensagem simples para a humanidade, que já a entende, mas que não quer vivê-la: é preciso amar a vida acima de qualquer coisa, afinal é dela que tudo surge. Mas amar com o coração e não com o cérebro. Os Na’vi não pensam Eywa, eles a sentem. A elegante cauda que o povo azul exibe como a aproximá-lo de bichos servem para ligá-los a tudo: árvores, plantas, animais. Quando isso acontece, um único fotograma é suficiente para que compreendamos: conectados, os Na’vi têm a mais rica das experiências; eles se harmonizam com Eywa, porque também são Eywa. E não precisam morrer para entender isso, embora tenham que dar a própria vida para salvar Pandora da ignorância e da estupidez dos que o querem destruir...
Parece que o romance entre os protagonistas de Avatar também nos diz algo. Mas você só sabe quando o filme acaba. É quando, triste, se está de volta à realidade. De repente você se dá conta de que aqui não é Pandora e que o homem, não somos Na’vi. E que devíamos ser...
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