Do olhar dos Deuses
Um dos poemas mais bonitos do Fernando Pessoa é aquele em que ele fala do olhar penetrante dos deuses sobre os homens, de que não foge o mísero mortal. Acho lindo, e como tudo nesse genial poeta, é direto. Ainda que ode de Reis, o Ricardo de suas pessoas, é uma maravilha de poema, porque não precisa muito para dizer uma verdade simples: todas as vezes nada escondemos. Como um crime que se quer ocultar, um segredo guardado, uma mentira posta à distância das estrelas e à presença dos olhos. Nada passa sem o crivo crítico dos deuses. Nem o dia que ainda não veio.
Porque os deuses veem tanto!, penetram melhor em tudo o que existe, do menor ao maior. Não vale muito tentar fugir à realidade se escondidos ficamos de nós mesmos e os deuses nos matam de vergonha. Deuses são deuses, camarada, e tudo podem.
Outro dia li esse poema para uma amiga e ela quase. Pouco racional, dada ao talento da emoção à flor ligeira, em muito riu de minhas palavras, digo, das palavras do Pessoa. Como um tutor das femininas em tempos de aulas de piano, tentei explicar o quase e imperfeito e inútil poema, como ela disse. Mulheres cobrem-se todas de argumentos sem lógica quando do poema não saltam suspiros de amor. Mulher como esta, vai conversar com ela! Nada adiantou.
Mas juro, só queria dizer sem irracionalismos que lá no fundo a mensagem era algo parecido com essa interpretação a que ela não deu a mínima nota. Que por causa do olhar dos deuses tudo passa a ser engraçado. E que se não fosse assim, a vida seria tão séria, não é mesmo, uma chatice? Que por isso mesmo mais vale sorrir, olhar distante como se perto fosse, amar sem esperar retorno, acreditar que agora é para sempre, que nunca terão fim as coisas. E ir levando a esmo. Combinar o descombinado, imitar o vento com a boca na inveja sadia de que aquela linda música só é linda porque para nada serve, é um algo que desde a vida tem a razão de tudo o que não precisa ser para existir. Resposta para os absurdos que não sabemos é questão de somenos. Digo-te que um mundo de maravilhas se vive apenas quem pouco pergunta. Não somos deuses. Nunca seremos.
Ora, pois, para os deuses as coisas são mais coisas. Não mais longe eles veem, mas mais claro na certa Natureza e a contornada vida... Não no vago que mal veem orla misteriosamente os seres, mas nos detalhes claros estão seus olhos. A Natureza é só uma superfície. Na sua superfície ela é profunda e tudo contém muito se os olhos bem olharem. Aprende, pois, tu, das cristãs angústias, ó traidor à multíplice presença dos deuses, a não teres véus nos olhos nem na alma.
Aprende como quem em conchas de mão pega água de um rio e põe na boca matutando o tanto que é bonito... |