"DUAS CRONICAS SOBRE AMOR E AMIZADE"
A CARTA FONADA
Uma auditiva e confidentemente quase delirante idéia
A carta fonada é o mais novo serviço da telefonia pós-burguesa, inventada por inventores ociosos que não fazem nada nas horas vagas. Está em fase de teste, e, a este do vento e da sorte, jura não saber por que a inventaram. Os responsáveis dizem que é para aumentar a resistência às formas escritas perdidas em meio aos meios tecnológicos mais corriqueiros. Segundo dossiê da revista World World Let It Word, o invento foi desenvolvido para conter o desaceleramento da emissão de words na atmosfera das folhas de papel ofício, A4 e afins, geralmente de responsabilidade dos Correios e Telégrafos.
Diante da atual e desembestada preguiça do citado serviço de trocas postais, os inventores propuseram um modo novo e moralmente normal de fazer com que as tradicionais “correspondências” sejam correspondidas antes que o papel no dentro e no fora dos envelopes perca a exclusiva validade e gere mofo. Os fungos agradecem, óbvio, mas a paciência do enviante e do recebor de textos via correios corre louca com a possibilidade de, ao mais triste outono, as palavras que eram para serem lidas, não sejam ao menos ditas, e que desapareçam na boca do lobo mal, em estradas percorridas por homenzinhos de azul e amarelo, empoeirados e infelizes com os salários. Eis, talvez, a principal contribuição da carta fonada.
Ela é superior à já conhecida e mal usada mensagem eletrônica, de texto, ou coisa que o valha, porque mais útil, pois diz o bastantemente e não não não precisa ter apenas entre X e alguns outros caracteres. Pode ganhar vida entre quatro, cinco ou seis parágrafos com mais de 448 palavras, e ser escrita em modo sonoramente ditável. É também agradabilíssima e comportadíssima, pois é fruto de um ideal burguês clássico, o dilatar em versos, prosas e cheiros de rosas emoções e sentimentos.
Na verdade, a carta fonada é própria para os apaixonados, e talvez tenha sido inventada exatamente para eles. Por enquanto, nenhuma conclusão pode ser tirada a respeito. Mas, pelo que mostra as últimas pesquisas, esse seleto grupo da sociedade por certo a adotará sem reservas para os instantes mais dóceis, amargos e agridoces de suas incríveis experiências.
Resta dizer qual a expectativa dos inventores e da própria invenção. Bem, pelo que se sabe, eles não sabem ainda. O brilhante produto, contudo, também está confuso.
Para os curiosos, uma pitada de história. Há informações que informam mesmo sobre uma carta fonada que foi enviada durante a segunda guerra mundial por um aviador negro brasileiro maluco, como há modernos inventores. Voando em riba do arquipélago de Ferdinand de Quartas, como não tinha o que fazer, antes de cair atingido por um caça deixou gravada na caixa preta do avião uma mensagem de amor ao ursinho de pelúcia que o acompanhava desde criança nas aventuras solitárias das noites. A mensagem havia sido escrita antes da queda da aeronave e continha expressamente a indicação do destinatário e o amor declarado do aviador gay. Não foi entregue, segundo relatos, devido à seriedade do rígido sistema militar brasileiro, mas graças ao evento, é possível saber hoje os primórdios da invenção.
Inicialmente associada a uma tragédia disneylândica, como se viu (se leu!), a carta fonada atravessou o atlântico e chegou por ali pelas beiradas da Lagoa de Meçejana, Ceajá. Depois, transformou-se em moda, modelo, forma e frisson das noites faceiras de altas horas. Hoje ela há de ser escrita em conformidade com certa situação de produção e recepção. Não mais para ursinhos gays, mas para jovens, senhoras e senhores que matam muriçocas à beira-mar e que sabem que as horas escorrem como macarrão no escorredor de macarrão.
São suas principais características: 1) Toda carta fonada é fruto do conteúdo de uma mensagem eletrônica recebida no celular, de uma reclamação ou assunto advindo de uma conversa noturna ao celular (entre dois pelo menos), de uma entrelinha de e-mail, mensagem off line em programa de conversação instantânea, ou simples toque, contínuo e repetitivo, de celular para celular. Também pode surgir do nada, ou seja, de qualquer vontade não diretamente motivada para carta-fonar. 2) O ideal, de acordo com as instruções iniciais divulgadas pelos gênios inventores, é que a carta fonada seja escrita antes de ser lida de um suspiro, e não gravada, após o envio, pois, se o for, perde o sabor das coisas que são escritas para virar som virado. 3) O destinatário há de ser comunicado de seu envio, através de mensagem de texto para o seu celular, informando o dia e o horário e o telefone para o qual ligará, de forma a ter acesso ao conteúdo da carta. 4) Ao receber a mensagem, o destinatário terá uma só e única e exclusiva e especialmente chance de pôr o ouvido à atenção do conteúdo. Caso não consiga acessar, não saiba, não tenha condições, nem crédito, nem saco!, poderá solicitar através de mensagem ou comunicado simples (em meio a uma ligação normal) que gostaria de receber uma versão impressa da carta fonada não ouvida, em seu endereço postal. 5) A carta fonada é de excepcional uso obrigatório em situações especiais de comunicação falada-escrita. Por isso, não poderá ser utilizada a todo momento, pois ela mesma é uma invenção especial que requer situações especiais para que possam valer enquanto produto produzido nos corredores das fortalezas digitais. 6) Carta fonada responde-se com carta fonada.
Por fim, o novo invento é uma coisa muito boa, como disse o Rei Kelézinho Gaúcho, que já a utiliza. “Maior do que a invenção do telegrama fonado, e antes dele, do telégrafo; e antes dele, dos correios: pois, pois, da própria linguagem”. A World World Let It Word (esquecemos de informar) também declarou que este há de ser um revelador momento para a humanidade. Também disse algumas bobagens a respeito o presidente dos Estados do Mundo e o líder macunaímico Tinta-na-Folha.
Quer dizer - valendo-se da própria noção tele-ontológica do conjunto verbal de palavras humanas -, trata-se de não só nova, mas auditiva e confidentemente quase delirante idéia. Tão boa, mas tão boa, que até este singelo informe poderia ser (por que sim?) uma cartinha fonadinha dirigida a todos os Nasa-robozinhos perdidos no espaço. No fim se diria: voem por lá, camaradas, para sempre e sem fim, amém. E como arremedo de um antigo slogan da só mais famosa Coca-Cola, a chave: O Universo é isso aí! Tu................... tu.................. tu....................tu...................................................
..........................................................................................................................................................................
*Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista
Voltar | Capa
|