O brasileiro que revoluciona os games
O curitibano Alex Kipman, um dos cérebros a serviço de Bill Gates, cria jogos comandados pelos movimentos do corpo
Fotos: Internet 
Alex Kipman diante da tela que mostra o seu corpo escaneado e pronto para entrar no jogo
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Alex Kipman começa a trabalhar por volta das sete da manhã em sua sala na sede da Microsoft, em Seattle (EUA). Normalmente, não volta para sua casa e sua mulher antes da meia-noite. Ele narra essa rotina, aparentemente estressante, com a mesma serenidade de alguém que descreve um programa prazeroso de final de semana. “Eu venho para a Disneylândia todos os dias. Não me considero um workaholic porque meu trabalho é uma diversão”, afirma, por telefone, à ISTOÉ.
O curitibano de 31 anos vive há mais de uma década nos EUA e é, desde 2005, diretor de incubação para o Xbox, o videogame da empresa de Bill Gates – ele mesmo, o bilionário criador do sistema operacional Windows. Kipman é o responsável pelo desenvolvimento de uma tecnologia que promete transformar a maneira como interagimos não só com os games, mas com todo o entretenimento eletrônico, da tevê ao cinema. Trata-se do Kinect para Xbox, ferramenta que permite que qualquer pessoa acione comandos na tela apenas a partir de seus movimentos, sem usar controles ou joy sticks.
“É uma tecnologia supercomplexa do ponto de vista técnico. Para quem a consome, no entanto, é muito simples e divertida”, diz Kipman. O Kinect é produto do Projeto Natal – uma homenagem à capital do Rio Grande do Norte, onde o curitibano passou férias memoráveis com a família na infância. O equipamento escaneia o corpo da pessoa e registra sua voz. Depois, todos os movimentos e palavras são usados para interagir com o que se passa na tela (leia quadro).

Funcionário desde 2001 de Bill Gates, a quem define como seu herói, Alex é filho do embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman. A paixão pelos games começou aos cinco anos, quando ganhou um Atari 2600 – “um clássico”, lembra. Aos 10 anos, começou a programar. Passou seu último ano de escola em Miami, depois de ter alternado os anteriores entre Roma e Curitiba. Seus pais foram então para a República Dominicana, mas ele ficou nos EUA para cursar engenharia de software no Instituto de Tecnologia de Rochester. “Sou a ovelha negra”, diz. “Enquanto meus pais e meus irmãos (um mais velho e uma caçula) rumaram para o serviço público, eu sempre fui alucinado por matemática, ciência e programação.”
Quando o Xbox foi lançado, em 2005, Kipman já havia trabalhado em áreas da Microsoft que nada têm a ver com games. E foi aí que ele lembrou da razão de estar ali. Candidatou-se de pronto para trabalhar no projeto. Mais do que criar uma tecnologia, no entanto, o brasileiro pretende fazer uma verdadeira revolução. “Estamos na transição de um mundo velho para outro totalmente novo”, diz. “No primeiro, você tem de aprender a língua da máquina: apertar um botão, inserir um disco. No segundo, é a máquina que aprende a língua do humano.”
“Hoje, você precisa aprender a língua da máquina para interagir com ela.
Em breve, ela aprenderá a nossa”
Alex Kipman, engenheiro
Suas palavras não são mera futurologia. Basta procurar por vídeos com as palavras “Kinect Xbox” no Google para se ter uma boa ideia do que é a nova tecnologia. Uma família está na sala de casa. A filha dirige um carro de corrida virtual apenas mexendo os braços e o tronco. Ela estaciona para a troca de um pneu. O pai se levanta do sofá, leva uma ferramenta virtual até a roda, retira a usada, põe uma nova e a fixa com firmeza. Tudo isso apenas mimetizando os movimentos que faria caso estivesse realmente naquela situação.
Kipman explica que o Kinect reconhece até 16 pessoas num mesmo jogo. Mas, para tornar a jogabilidade melhor – e levando em conta o tamanho médio de uma sala de estar –, só duas jogam simultaneamente. Os sensores também reconhecem objetos, como um skate, por exemplo, que pode ser usado “dentro” do game. A experiência, porém, vai além. “Em pouco tempo, você poderá virar o protagonista de um filme”, diz.
Tudo isso se aplica também à televisão. Por isso a Microsoft firmou um acordo com a emissora americana ESPN, especializada em esportes, para que os telespectadores interajam com a programação. “Você vai entrar na sala com a sua camisa da seleção e a máquina vai reconhecer que chegou um torcedor brasileiro. Aí você poderá interagir com outros sujeitos de camisa amarela ao redor do mundo”, exemplifica.
Fotos: Internet

ATRAÇÃO: Kipman na tela do game “Kinect Adventures”, um dos primeiros a chegar às lojas
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Os primeiros resultados dessa “fusão de artes”, como Kipman define a convergência de games, vídeo, áudio e interatividade, poderão ser vivenciadas a partir do dia 4 de novembro, data de lançamento do Kinect para Xbox nos EUA. O brasileiro não sabe dizer quando a tecnologia chegará às lojas no resto do mundo, mas garante que até o Natal poderemos ter acesso a ela por aqui. Só aí, então, suas mais de 15 horas diárias de trabalho terão valido a pena. “Sempre digo para o meu time de desenvolvedores que para mudar o mundo é preciso dedicação. É por isso que são poucos que conseguem.” Que seja um brasileiro, então, a entrar nesse seleto grupo.
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