Adeus
Lule e Sherazai
Escutei a campainha. Duas
vezes. Está bem. A curiosidade é maior
do que a preguiça. Lule e Sherazai já
foram correndo ver quem é. Eu vou devagar, no
meu ritmo mesmo. Até porque já sei que
é mais um comprador que vai chegar, olhar para
o nosso “focinho”, dizer um “ele é
lindinho, mas não vou ficar com ele não...”
e ir embora. No máximo, vai se interessar por
Lule ou por Sherazai, que ficam se exibindo de todas
as formas: rolam pelo chão, pulam em cima das
crianças, colocam laçinhos coloridos nas
orelhas etc. Eu não faço nada disso. Nunca
fiz. Acho que, para ser minha mãe e meu pai,
eles têm que gostar de mim assim, do jeitinho
que eu sou.
Já dá para ver daqui. É um casal
do tipo “arrumadinho”. Desses que parecem
certinhos e que estão à procura de um
bichinho de estimação para alegrar a vida
das filhas. Digo filhas porque já vi as duas
figuras. Tem uma maior e uma menorzinha, mas ninguém
nega que são irmãs. Daqui de onde estou
vendo, elas são meio tímidas. A maior
está bem afastada de Lule e Sherazai. Não
está com nenhuma cara de quem vai ficar com uma
delas. Vou chegar mais perto para ouvir o que estão
falando:
- Sabe como é Dona Mirtes, minhas filhas estão
numa fase em que acho importante conviverem com um animal
de estimação, falou o pai. A mais velha
tem muito medo desde pequena, já tentamos de
tudo... Terapia, psicóloga, comprar outros cachorros
etc., nada funcionou!
Não sou muito sentimental não, mas, de
alguma forma, a cara de desespero daquele pai me tocou.
Enchi o peito de ar, coloquei o melhor sorriso que pude
no rosto e resolvi aparecer por lá também.
Quando ia me aproximando, a mãe me deu “um
balde de água fria”:
- Gostei muito desta pretinha, a Lule. Bom mesmo porque
eu queria uma fêmea. Se as meninas quiserem, podemos
ficar com ela!
- Olha esta outra. Não tinha visto. Qual o nome
dela?, perguntou a filha mais nova quando cheguei na
varanda onde estavam.
- Não é esta. É este. O nome dele
é Joca. Tem apenas um mês, por isso ainda
é meio desengonçadinho. Mas sua mãe
já disse que prefere fêmeas. E de cores
mais escuras porque sujam menos. Por que não
escolhe entre Lule e Sherazai?, disse Dona Mirtes à
menina.
Esta velha rabugenta está louca para se ver livre
das meninas porque elas aprontam todas. Mas parece que,
finalmente, a sorte resolveu sorrir para mim. A mais
velha, que até agora estava escondida atrás
da mãe, veio em minha direção e
fez um cafuné meio desconfiado na minha cabeça.
Depois olhou para mim e, como se já me conhecesse,
abriu um sorriso:
- Que bonitinho! Parece uma bolinha de algodão...
- Nada de machos, disse a mãe. Eles dão
muito trabalho quando estão no cio. Além
disso, fazem xixi pela casa toda. Se não querem
uma das fêmeas, vamos embora.
Aquela cena foi um tanto quanto ridícula, mas
confesso que fiquei feliz: as duas irmãs, que
usavam “marias-chiquinhas” com uns laços
enormes, abriram a boca a chorar ao mesmo tempo, dizendo
que queriam ficar comigo.
Minutos depois, estava eu, dentro do carro daquela família.
Me colocaram sentado no banco de trás entre as
duas irmãs e estavam discutindo o meu novo nome.
Escolheram Binho porque foi o nome de um cachorro que
o pai tinha tido quando criança. Não gostei
nem desgostei. Achei estranho mudar de nome. Mas tudo
bem. Vida nova, nome novo.
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