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» RIO DE JANEIRO, 17 DE MARÇO DE 2007

O primeiro amor de um anjo

Ninguém nunca disse isso, mas acho que dezembro é o meu mês. Reparem como estou em todos os lugares. Sou praticamente onipresente. Eu estou nos comerciais de tevê, nos outdoores nas ruas, nos presépios das igrejas. Estou também nas decorações perto das árvores de natal, pendurado nas janelas, pregado nas geladeiras em forma de ímã. Sem falar da minha importante presença nas lojas de brinquedo, nos sacos dos papais noéis e nos desenhos animados. Toda esta propagação da minha figura – em imagem e semelhança – me leva a crer que, indiscutivelmente, o último mês do ano é mesmo o meu, e não o do querido Menino Jesus, como muitos pensam.
           
Não pensem que quero roubar o lugar do Menino, não é isso. Afinal, fui eu o incumbido de levar à Maria a idéia de gerar o filho de Deus em seu ventre. Mas é que hoje eu recebi uma proposta tentadora. Eu sei que qualquer tipo de tentação tem que ser imediatamente banida da vida de um anjo, mas essa é de se pensar duas vezes. Imaginem vocês que estava eu brincando no meio dos carneirinhos aqui no céu quando fui chamado pelo meu supervisor, o anjo que comanda quem entra e quem sai aqui do paraíso. Ele me levou a um lugar que chamamos de espelho da Terra e me mostrou todas estas imagens de um anjinho como eu espalhadas pelos mais diferentes lugares. Disse que, por ser dezembro o mês das caridades, quando todos os sentimentos mais sublimes afloram, iria me oferecer um presente. Curioso, perguntei qual seria e ele respondeu: a mortalidade. Sabe ele que eu daria tudo por um passeio lá embaixo, por isso, foi logo falando que eu teria que deixar as asas aqui em cima e que estaria sujeito a todas as vicissitudes da humanidade.
           
Como imaginei, o presente não era produto da incontestável bondade do anjo superior. Ele disse que eu desceria na figura de um menino – de cachinhos ruivos e sardinhas como as minhas – no primeiro dia de dezembro e teria até o dia 25 para cumprir a minha missão. Quando perguntei qual seria a minha missão, ele disse que eu saberia mais tarde, mas teria que aceitar a oportunidade de me tornar mortal antes. Pensei comigo que perderia a imortalidade, mas ganharia o amor. Ah, o amor! Sempre quis conhecer este sentimento dos humanos. Foi por isso que acabei aceitando.
           
O dia que descobri a minha missão foi um tanto quanto inusitado. Vi um movimento intenso nas ruas, eram pessoas vindas de todos os lugares, engarrafamento na cidade, tudo para ver uma árvore que flutuava sobre as águas. Fui ver também que raio de árvore era aquela. E valeu a pena. Um espetáculo de luzes e cores no céu iluminou a noite. Uma dança de fontes luminosas sobre as águas movimentou o cenário estático da Lagoa. Aquele momento ganhou vida pela beleza do show. E o show foi animado pela coreografia das luzes. Estava eu a olhar para o céu quando vi Karine, com um olhar tão concentrado quanto disperso em meio ao espetáculo. Aproximei-me. Apresentei-me. E assim que a olhei, olhos nos olhos, descobri a minha missão na Terra. Dar a ela o meu amor, que ela há tempo procurava. Saibam que escolher pela mortalidade valeu a pena. Afinal, existe graça viver sem amor? O que me atormenta é que terei que voltar para o céu em breve, deixando Karine aqui embaixo. Mas hoje ainda a posso ver e aproveitar o sentimento que faz valer ser humano, nem que fosse por um dia, nem que fosse por uma hora, nem que fosse por um minuto, nem que fosse por um segundo. Mesmo assim, eu aceitaria de novo a condição. Só para sentir o meu coração batendo forte deste jeito.

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    *Ariane Bomgosto é escritora.


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