Primeira vez
O tempo torna-se denso e frágil quando se traja uma Pentax K1000 pela primeira vez. A incerteza quanto ao foco correto, o enquadramento adequado, o tipo de lente a se usar, a iluminação, o ISO, o obturador, a objetiva, célula de CdS, imagem, tempo, distância...
Nada seria mais do que simples teoria, não houvesse, por detrás da insegurança ímpar de estar à altura de um símbolo da fotografia, o medo de nada dar certo ao acionar o disparador.
Em milésimas partes de milésimos de segundo tudo o que foi lido e decorado nas aulas embaralha-se e perde-se no vazio que só o branco pode trazer às mentes confusas. A expectativa do objeto assusta e nada se escuta além das batidas do coração.
Parece a eternidade. Tremem os dedos inertes sobre o esnobe corpo de couro preto e prata cedendo aos instintos da audácia que me tomou por completo. O visor impele-me para o controle da focagem ideal, o pentaprisma seduz-me e...
TACK!
Misto de não compreensão, alegria, euforia, curiosidade, “hein?!”, meio sorriso, sorriso inteiro, irradiante! Os modelos comemoram e peço que pousem uma outra vez, por precaução. “Atenção... Lá vai!”
(silêncio)
“er... De novo”
(silêncio)
Vergonha. “Não pode ser, o que fiz de errado?” Mexo no foco, amplio o obturador, nada. “Tenta levantar este botão”, “Não, acho que não”, “Esperem, gente, paciência, tudo é novidade...”. Apreensão. Ocular do visor, ajuste de sensibilidade do filme, disparador, contador de exposições, alavanca de avanço do filme... Alavanca de avanço... Alavan... “É isso! Preparem-se! Lá vai! Dois, um...”
TACK!
O tempo torna-se denso e frágil quando se traja uma Pentax K1000 pela primeira vez. Mas quando a intimidade vai chegando, não há jeito. O tempo passa a ser visto sob a forma de lentas partículas desarrumadas, que apenas necessitam de um arranjo e a mira certeira de uma máquina como a minha.
TACK
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