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Rio de Janeiro, RJ, 04.07.10 |

Preconceito e análise num sábado pós Barra da Tijuca

Perder um preconceito é algo um tanto quanto difícil. Ainda mais quando você estuda sobre a coisa e acaba ficando com uma imagem distorcida – e consequentemente negativa – com base na mentalidade dos seus professores.

Arquitetura é algo extremamente subjetivo. Cada um pensa de um jeito, não tem jeito, é assim que a coisa funciona. E punto.

Há diversas correntes de pensamento na atualidade. Talvez seja a época mais eclética em termos psicológicos. Nunca antes a arte passou por um momento tão longo de estagnação. Não que ela esteja estacionada no tempo. Mas, digamos, num vocabulário mais voltado aos profissionais da aviação, é como se ela estivesse taxiando, sem decolar.

Não temos traços de uma vanguarda que rompa com os pensamentos já embutidos na sociedade de hoje. Temos muitas correntes de pensamento que não formam pensamento algum, a cultura da internet, do fast food, da coca-cola – sem, no entanto, sermos a sua geração – de ‘zumbis estressados’, dos sem tempo, dos boa-vidas, do carioca que só vislumbra a praia e ouve MPB, por acaso, quando o som do carro dá problema - ou esqueceu o pen drive e liga o rádio numa estação qualquer. Uma geração que estuda cada vez mais, às vezes sem captar o entendimento real do que está sendo ensinado. A geografia cresce em ritmo acelerado, a história rabisca declarações no livro da vida sem ter tempo de passá-las a limpo. A matemática tenta manter a calma, a física enlouquece com a nova tecnologia, a química se apavora com pré-sal e petróleo, a língua portuguesa aventurar-se em ser contemporânea. Muitos querem fazer muitas coisas em tempo diminuto. E, comprovadamente, por algum cientista que eu nunca soube o nome, o tempo está passando mais rápido. Já estamos em julho, mais da metade do ano se foi. As aulas foram suspensas algumas vezes – por Copa do Mundo (que não nos deu o Hexa), feriados, as desgraças naturais no Rio - e daqui a pouco já é natal na Leader Magazine, 2011, 2012... e o fim do mundo?

Quando parei para pensar sobre meu preconceito em relação a Barra da Tijuca – em ser um bairro de nariz empinado, como anteriormente havia dito, em ter se prostituído em termos do traçado urbano, em abranger uma realidade e um ar bem diferente do resto do Rio – deparei-me com um jantar esplendido na casa de pessoas simpaticíssimas e companhias adoráveis, um papo interessantíssimo e uma realidade distinta da que eu, malgrado o discurso de suposta intelectual protetora das diferenças culturais, rotulara como ruim. Ruim, não; péssimo.

Interessante constatar que conheço partes da Barra como fossem linhas das palmas das minhas mãos; quando criança, passei boa parte das férias e feriados nesse mundo à parte, adorando cada pedaço de asfalto da Av Sernambetiba, a Av. Lucio Costa, o Barra Shopping, o New York e sua Saraiva, o Downtown, vários restaurantes, as ondas violentas do mar. O Rio me foi apresentado pela Barra e nela permaneci durante meu trabalho como voluntária no PAN. Dela me afastei ao conhecer a Zona Sul. Nela joguei todas as minhas frustrações em relação a tantas coisas que não me desciam pela garganta que não percebi que ali também florescem coisas boas, pessoas boas. Como todo lugar. Como toda arquitetura e todo modo de pensar.

A Barra da Tijuca é diferente sim do resto do Rio de Janeiro. Mas a Zona Norte não é diferente da Zona Sul, que não é como a Zona Oeste que não é igual ao Centro? Eu não sou igual a você, que não é a cópia da sua mãe e tampouco do seu tataravô.

Mas mesmo confessando e descobrindo vários argumentos a favor, ainda assim é difícil perder um preconceito. Mas aqui vai um vislumbre dessa conquista. E mais uma crônica para um novo domingo.

***
SOBRE A AUTORA: *BIA MIES é atriz o blogueira.
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