RIO CONGELADO
Foto: Divulgação
Ray (Leo) é mãe de dois filhos, trabalha num mercadinho e o marido foi embora; tem contas a pagar, muitos sonhos e pouco dinheiro. Se não morasse no norte do Estado de Nova York, na fronteira com o Canadá, ao lado de uma reserva indígena com leis próprias e pessoas suspeitas no trânsito entre países, talvez não descolasse a chance para sair do buraco.
Essa não é mais uma história sofrimento financeiro honesto, como um “À Procura de Felicidade”, com Will Smith. Ray não vê outra saída a não ser transportar imigrantes ilegais, no porta-malas, de um país ao outro, pegando um caminho alternativo, sobre um rio congelado, longe da polícia.
A operação é realizada junto com Lila (Upham), uma indígena que lhe apresenta o procedimento. Na verdade, elas se conheceram por acaso, e tentam sair de buracos parecidos. A nova personagem mora num trailer, tem problemas de visão, indisposição para trabalho e é separada do filho. Sim, ambas são mães. Apesar de a protagonista tentar passar a perna nela, inicialmente, a identificação surge, como se fosse realmente necessária.
A abordagem socioeconômica é estragada quando o filme vira um suspense, no qual, mais cedo ou mais tarde, algo terá que dar errado. Inicialmente, a dupla feminina não enfrenta perigo, mas depois encara indisposição dos negociantes, maior desconfiança da polícia e assim por diante; tudo de forma tão sistemática que fica previsível.
O roteiro de Courtney Hunt, que também dirige a película, tem um grande problema de auto-estima, já que foge da imparcialidade para formar uma torcida a favor das protagonistas, apesar de seus atos nada perdoáveis. A cena com o bebê paquistanês prova muito bem isso.
Vários objetos desempenham funções importantes, sendo lembrados em momentos posteriores, relevando usos e memórias em situações até então desconhecidas. Nesse mar de subtramas que são retomadas depois, apenas uma, a do filho mais velho passando trote para uma senhora, acaba tendo uma resolução insatisfatória por não se relacionar muito com outros fios da história.
Melissa Leo tem uma atuação sem muitas exaltações, sendo que suas rugas soam mais naturais que o choro produzido na primeira cena. Misty Upham também não decepciona, embora a trama particular de sua personagem careça de mais atenção.
“Rio Congelado” fala sobre pessoas que fazem o impensável na hora do desespero, sendo que não raciocinam na hora de contrair dívidas injustificáveis (como que compram uma televisão gigante, se a mãe nem tem um emprego de verdade?). Assim, falta comida à mesa e filhos são obrigados a amadurecer, enquanto a dona da casa tem que consertar os erros cometendo outros. Hunt pede compaixão a seus personagens, mas é mais fácil passar sem emoções por esse drama pouco edificante.
Cotação para este filme:
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