SINÉDOQUE, NOVA York
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São Paulo, 23.04.09 | Caden Cotard (Hoffman) é um dramaturgo em uma crise que durará até o fim de sua vida. Inicialmente, ele sofre um acidente bizarro fazendo a barba, descambando para outros que só a Lei de Murphy explicaria. Mas o pior ainda estaria por vir: é abandonado pela esposa, Adele (Kenner), uma artista plástica que vai embora para Berlim, levando para sempre a filha dos dois. A seguir, o personagem descobre possuir uma doença degenerativa que, naquele tempo presente, não passaria de neurose, mas vai se tornando uma praga em seu caminho.
À princípio, “Sinédoque, Nova York” pode não passar de uma fabula pessimista sobre o cotidiano, com muito humor negro. Mas é maior que isso. Sozinho, Caden tem a sorte de receber uma milionária verba, que utilizará para comprar um gigantesco galpão, onde encenará sua vida, com direito a reconstrução de parte da cidade de Nova York. Contudo, a futura peça teatral demora demais para ser concluída; sempre surgem mais acréscimos. Percebe-se aí que o roteiro dessa representação é infinito, já que a trajetória do sujeito ainda não acabou. Ele ainda está vivo.
Sinédoque é a figura de linguagem que toma a parte pelo todo. Contudo, o primeiro vai ficando maior que o segundo graças ao nível de complexidade dado pelo autor da peça. Sua vida, até pouco tempo atrás, tinha voltado à escada zero, com a paranóia de morte, mas o dinheiro fez o favor de tirá-la da inércia e jogá-la à autocontemplação. De repente, Caden está saindo com uma atriz (Williams) ou uma vendedora de bilhetes (Morton) e vê a necessidade de incluí-las em sua peça, quando uma desempenha o papel de atriz e a outra, futuramente, de assistente. A partir do momento em que o personagem se vê envolvido também com os dublês, incluindo o seu, que sai com a atriz-companheira, a salada metalingüística se encontra num nível avançado.
Não é difícil entender aquilo que Charlie Kaufman quer passar. Quem acompanhou seus trabalhos anteriores, como “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, “Adaptação” ou “Quero Ser John Malkovich”, saberá onde pisar dentro das idéias do roteirista que agora dá o primeiro passo como diretor. O espectador se perde momentaneamente, sendo essa a graça da película. Tenta entender alguns trechos, acha que o fez e já parte para o próximo nó dado por Kaufman. “Sinédoque” tem vezes que parece estar próximo do fim, mas sempre apresenta novos elementos.
O protagonista perde o controle de sua obra, mas esse fato é uma extensão para ele perceber que não tem também controle sobre a vida. O que dizer de sua filha, que cresceu, está em outro continente, num cotidiano que ele totalmente reprova, mas não pode fazer nada? Na mesma medida, ele não pode definir o rumo de seus relacionamentos, que tem vontade própria e se desmantelam conforme sua obsessão por retratá-los no palco.
Assim, estranhamento não é a maior preocupação, num filme com mais um ótimo desempenho de Philip Seymour Hoffman. A importância está em entrar na complexa mente de Kaufman e sair o menos ileso possível, com um certo grau de admiração. O nova-iorquino, que dá rostos aos seus alter-egos, poderia atribuir um novo visual à “Sinédoque” se colocasse outra pessoa na direção; contudo, caso isso acontecesse, a obra não seria tão pessoal. A maior possuidora dessa característica em toda sua carreira. O acúmulo de funções, nesse caso, foi altamente benéfico.
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