O Sonho de Cassandra
Filme novo de Woody Allen chegando ao circuito é sempre boa novidade. Os últimos trabalhos do cineasta, rodados na Europa, impressionam pela maturidade e domínio tanto na parte cinematográfica quanto dramatúrgica. O modo como ele induz o espectador a concluir o que ele quer – apenas para depois empurrá-lo numa direção oposta – é algo que me assombrou em Match Point e pode ser sentido novamente em O Sonho de Cassandra. E isso é um tapa na cara de seus detratores, que o acusam de: a) fazer sempre os mesmos filmes; b) impor ao espectador sua presença; c) fazer sempre o papel dele mesmo. Nenhuma das opções anteriores é válida para este longa.
O Sonho de Cassandra retoma alguns temas já discutidos no brilhante Match Point, tais como ambição, amoralidade, sorte e impunidade. Colin Farrell e Ewan McGregor são dois irmãos aparentemente opostos: enquanto o educado e elegante Ian ajuda – mesmo a contragosto – o pai a gerenciar o restaurante da família, o grosseiro Terry trabalha numa oficina mecânica e vive endividado devido à sua compulsão por todo e qualquer tipo de jogo. Então isso significa que Ian é o mocinho e Terry, o vilão? Não necessariamente. A verdadeira natureza de cada um vem à tona quando os dois são confrontados com a possibilidade de realizar seus sonhos. Como diz o velho ditado, é preciso tomar cuidado com o que se deseja.
Talvez o maior ponto de tangência entre O Sonho de Cassandra e Match Point esteja na falta de escrúpulos do personagem do Ewan McGregor. Ian tem objetivos, deseja alcançá-los e, para isso, fará o que for preciso. Tal mentalidade o aproxima do tio rico e o afasta do irmão com quem até então tinha o mais íntimo dos relacionamentos. É muito interessante reparar como o roteiro trabalha bem esses dois momentos: num primeiro segmento, os dois irmãos se protegem e parecem indissoluvelmente unidos contra o resto do mundo. Nem mesmo os pais ou as namoradas conseguem penetrar nesse universo fraterno. Mais adiante, vemos o abismo que vai progressivamente se interpondo entre eles. Também vale destacar o modo sempre inesperado com que a máscara de cada personagem cai. Terry, o mau elemento; Ian, o certinho; Angela; a libertina; Howard, o self-made man. Isso é o que eles aparentam, mas só à primeira vista.
Sobre o elenco, é evidente a superioridade de Ewan McGregor em relação a Colin Farrell. Farrell até está bem dirigido (afinal de contas, Woody Allen deu jeito até no Jason Biggs), mas é inegável seu desnível em relação ao companheiro de cena. Muitas vezes, Farrell falando é menos expressivo do que McGregor de boca fechada. Mas Woody Allen foi esperto o suficiente para lhe dar o personagem menos complexo, já que a sofisticada dissimulação de Ian não seria páreo para ele. Tom Wilkinson, sempre eficiente, completa o triângulo familiar como o tio pródigo.
Outro aspecto que chama a atenção é o fato do longa ser inqualificável em termos de gênero. Podemos considerá-lo um thriller ou um drama, embora o filme não seja um exemplar perfeito de nenhum dos dois. Eu, particularmente, o acho mais próximo dos filmes de gângster. Estão lá alguns alicerces constantes do gênero: obrigatoriedade de lealdade à família (neste caso, família nos dois sentidos), relutância de um membro a fazer parte dos "negócios", elasticidade moral da parte dos envolvidos, etc. Mas não espere ver sangue esguichando nem membros decepados na tela. Allen reinventa a seu modo os códigos, misturando, por exemplo, com diversas referências às tragédias gregas.
Resumindo em uma única frase, O Sonho de Cassandra é imperdível. |