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Crítica: A ONDA
A Onda
» Rio de Janeiro, 21.08.09 |

A Onda

Volta e meia uma pergunta volta à baila: seria possível que uma atrocidade como o Terceiro Reich fosse tão longe nos dias de hoje? Os alunos do seminário sobre autocracia do professor Rainer Wenger afirmam enfaticamente que não. Nazismo é coisa do passado e algo assim nunca mais vai ocorrer na Alemanha. A classe acredita tão piamente nisso que Rainer, professor moderno e chegado numa provocação, decide fazer uma experiência: para demonstrar sua hipótese de que sempre é possível criar uma legião de admiradores ávidos por seguir um líder e suas ordens sem questionar, o professor progressivamente insere características nazistas em suas aulas.

O primeiro passo é se fortalecer como líder através da disciplina: Rainer passa a exigir que seus alunos o chamem de Sr. Wenger, sentem-se com a coluna ereta e fiquem de pé sempre que queiram falar. Longe de causar estranheza, as novas diretrizes deixam todos empolgados. Os poucos descontentes abandonam o grupo e logo diferenças antigas são superadas e toda a classe passa a se mostrar unida de uma forma que nunca fora até então. Alguém sugere que o grupo deve ter um nome e, por votação, é escolhido Die Welle (a onda). Logo, a euforia de pertencer a algo tão singular faz com que se crie uma logomarca, um site e até mesmo um cumprimento específico. A irmandade fica sacramentada quando todos decidem adotar um uniforme, calça jeans e camisa branca.

A Onda

A princípio parece uma bela utopia: alunos medíocres melhoram o desempenho, valentões passam a confraternizar com nerds e todos se ajudam, esquecendo diferenças. Mas é preciso lembrar que uma ditadura nunca nasce como tal (a não ser em casos de golpe militar) e os movimentos mais perigosos são justamente os que florescem de modo positivo, seduzindo e encantando seus seguidores até que estes não possam mais pensar com isenção e seus valores pessoais desapareçam em prol do que é estabelecido para o grupo. É o que começa a ocorrer com a classe e com o próprio professor Wenger, cujo comportamento também passa por alterações a partir do momento em que se vê na posição de ídolo da garotada. E fica cada vez menos claro o limite entre os objetivos pedagógicos de Wenger e sua própria vaidade, principalmente quando percebe-se seu complexo de inferioridade em relação à esposa e aos demais colegas.

Os mais empolgados com A Onda são aqueles que mais necessitam do apoio comunitário. São garotos e garotas que não tem um bom ambiente em casa, que nunca tiveram muitos amigos ou que sofriam de timidez excessiva. Todos, sem exceção, levam a experiência para fora da escola e começam a dar uma importância desproporcional ao fato de alguém pertencer ou não ao grupo. Aqueles que ostentam o uniforme e fazem o cumprimento são ajudados e os “de fora” são excluídos. A Onda promove festas, separa casais, arrebanha torcidas esportivas e não demora para que comece a promover atos de desordem urbana.

O mais legal no filme é a gradação com que as coisas acontecem. Nenhum dos alunos passa por uma mudança radical, e a proporção com que são afetados é sempre de acordo com certos traços de suas personalidades. O comportamento de Wenger é o mais complexo e causa no espectador dúvidas do princípio ao final. A toda hora nos perguntamos “afinal, esse cara sabe o que está fazendo?” ou “até onde ele vai”?

O filme é uma adaptação do livro The Wave, de Todd Strasser, que, por sua vez, é inspirado no ensaio The Third Wave, que relata a experiência do professor americano Ron Jones em uma escola da Califórnia em 1967. Como ressalva a mais este ótimo exemplar do admirável cinema alemão novo, apenas o desfecho excessivamente melodramático destoa do tom que o filme apresentara até então. Mas tem que tem lá seu impacto, isso tem. E serve, sobretudo, como um pungente lembrete de que é preciso estar sempre alerta para que o passado não se repita.

A Onda

  • ................................................................................................................................ Cotação para este Filme:
Nota 9
A OndaFilme:
A Onda
País/Ano:
ALE/2009
Duração:
101 min
Direção:
Dennis Gansel
Roteiro: Dennis Gansel
Elenco: Jürgen Vogel, Christiane Paul, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Tim Oliver Schultz

Data de Estreia: 21/08/2009
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