O SOL
Foto: Divulgação
O diretor russo Aleksander Sokurov não é de dar muito as caras pelo nosso circuito, mesmo sendo um dos artistas mais interessantes da atualidade e tendo seus filmes encaixe praticamente certo em festivais mundo afora e premiações semi-garantidas. Tendo quase 50 filmes no currículo e dirigindo há 30 anos (ou seja, em vários anos ele dirigiu mais de um filme), Sokurov é uma lenda viva da introspecção e do tempo contido, do ritmo pausado e da cadência lenta de se contar uma história. Algumas histórias têm seu próprio tempo, e ele parece perceber isso como ninguém. Seu nome apareceu de forma maior por aqui com Moloch, quando iniciou essa sua fase de mostrar a intimidade de grandes figuras históricas, no caso Hitler; depois veio Taurus, onde esmiuçava a vida de Lênin; e chega ao seu ápice com esse O Sol, onde o General Hirohito é mostrado sem nenhum glamour, ou melhor dizendo, de maneira bem fragilizada. No meio disso ainda assistimos Arca Russa, além de Pai e Filho, filmes que só firmaram seu nome além da Rússia natal (aqui no Brasil inclusive).
Mesmo no meio desses filmes, de 95 pra cá, muita coisa dele não chegou e ficou pelo caminho. Uma pena, pois como já havia dito, a carreira desse cineasta é extremamente curiosa e relevante, principalmente agora quando ele se volta para Grandes Nomes da Humanidade, humanizando-os e expondo suas óbvias fraquezas. Seria maravilhoso imaginar um dia uma mostra completa do trabalho desse grande artista por aqui, jogando luz sobre uma trajetória que nos é pouco divulgada e apreciada.
Assistindo Arca Russa percebemos a delicadeza com a arte de contar uma história pelas suas mãos. Atravessando o mais importante museu de história da Rússia, conhecemos mais de 200 anos da história do país, criando praticamente um tratado sobre tudo de importante que aconteceu a eles, sem nenhum diálogo como no clássico de Ettore Scola, O Baile. Essa vibrante alegoria não serve, no entanto, pra traçar um paralelo com seus últimos trabalhos, mas esse O Sol sim.
Todo ambientado no dia em que o Japão admitiria sua derrota na Segunda Guerra Mundial, acompanhamos um perfil do General e Imperador Hirohito, seus gostos e manias, seu relacionamento com a esposa e o momento em que os EUA (na figura do lendário General MacArthur) oferece-lhe um acordo diplomático pra que ele possa sobreviver. Com um grande roteiro e uma interpretação inesquecível de Issei Ogata, Sokurov ainda arrumou tempo pra conceber uma fotografia deslumbrante, transformando O Sol num dos grandes momentos do nosso cinema esse ano. Toda a grande encenação proposta por ele casa perfeitamente a história de um personagem maior que si próprio, tão rico e abrangente que somente vislumbrando sua vida por apenas um dia podemos ter a certeza do quão impressionante foi sua trajetória. Tudo isso graças a um russo de 57 anos, que encontrou na plácida transcrição de cada detalhe em seu trabalho uma forma de exaltar a vida e torna-la ainda maior, dentro da finitude de cada pequeno gesto.
Cotação para este filme:
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