LUZ SILENCIOSA
Foto: Divulgação
Se existe algo que já podemos afirmar sobre 2008 é que exatamente na metade dele nós já tivemos um ano infinitamente superior ao anterior em matéria de qualidade de lançamentos de cinema. Falo assim porque sei que grande parte dos magníficos filmes lançados esse ano entre nós é da temporada passada. Nada disso, no entanto, tira o brilho dos nossos primeiros 6 meses do ano, com explosões de arte no nível de Sangue Negro, Natureza Selvagem, Não Estou Lá, Wall-E, Desejo e Reparação, 4 Meses, 3 Semanas & 2 Dias. E agora mais esse Luz Silenciosa, simplesmente um acontecimento. Ao assisti-lo logo no início do último Festival do Rio, lembro de ter ficado incomodado com o total desprezo que eu sentia vindo do longa metragem, como se ansiasse por um público muito restrito, já que o filme não faz concessão alguma a seu ritmo. Hoje entendo tudo no filme, que aliás foi um dos filmes que eu revi a nota após o Festival.
Na verdade, independente da opinião que se tenha sobre o filme, há de se respeitar o trabalho e as escolhas de Carlos Reygadas. Depois de tudo lembrei da opinião que sempre mantive a respeito do trabalho alheio, principalmente no cinema, onde pra mim não se cabe julgar escolhas e idéias dos outros, e sim o resultado. Sempre achei muito ‘nada a ver’ achar que um filme deveria ter uma cena ‘assim’ pra ficar melhor, ou ter o final ‘assado’ pra combinar com a proposta. Não nos cabe julgar as escolhas, na verdade não nos cabe julgar nada; nos cabe gostar ou não do filme do jeito que ele foi concebido. E a verdade é que Luz Silenciosa é um Grande Filme, assim mesmo com maiúsculas; e sim, o filme está no mesmo nível que todos os filmaços que citei acima.
Antes de mais nada pra situar o leitor, é bom saber que trata-se de um longa mexicano todo ambientado numa comunidade ‘menonita’ (espécie de religião que renega as leis dos homens ou de Deus e segue uma cartilha própria) entranhada no próprio México, e o filme centra foco numa família alemã apenas. A partir do momento que Johan se aproxima de uma outra mulher que não a sua, o destino dos seus é traçado. Sua esposa Esther vive um calvário mudo, sem arroubos ou afetações. A amante Marianne é apaixonada, mas também sucumbe diante do sofrimento que causa a tanta gente. E Johan caminha a um desfecho desolador, diante de uma paisagem que embriaga e consome ao mesmo tempo. Tudo isso é narrado da forma mais contemplativa possível, sem montagem frenética, sem câmeras intrusivas, sem trilha sonora arrebatadora; ou seja, o mínimo pelo máximo. E Reygadas consegue seu intento, injetando vida e a tal ‘luz silenciosa’ em cada fotograma de sua obra. A parte técnica do filme é de igual primor, principalmente a fotografia de Aléxis Zabe. E os protagonistas nem parecem inexperientes pois conseguem injetar vida a um dos trios mais complexos de personagens do ano.
Infelizmente esse é apenas o primeiro filme do diretor lançado no Brasil, enquanto os 2 anteriores foram vistos apenas em festivais (Japão e Batalha no Céu, são eles). Nos 3 as características se mantém, e sua lente se mostra capaz de mostrar o máximo permitido com o mínimo de intromissão, porém com 100% de humanidade. Decididamente não é cinema para todos os públicos e é quase certo que teremos muitos reclamantes ao final de cada sessão, mas uma das funções de uma crítica (creio eu) é informar a seu público o que irá encontrar. Quem conseguir chegar ao final do filme e tentar entrar na proposta e clima desse prodígio mexicano pode ter a certeza da delicada tapeçaria que terá acabado de testemunhar e do nascimento de um ‘auteur’ vindo diretamente das Américas.
Cotação para este filme:
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