A CAÇADA

Todos querem ter o seu quinhão de lucro em cima da guerra que envolve a Bosnia e todos os países que a rodeiam. Quando eu digo lucro, fique claro que eu também quero dizer ‘prestígio’, e Hollywood há muito tempo já entendeu que não pode ficar de fora de qualquer assunto que estampe capas de jornais. Com a polêmica também na ordem do dia, os ‘indies’ americanos já trataram de esmiuçar o assunto de tantas formas, mas sempre aparece algo novo a ser dito, mostrado ou contado. Ainda esse mês, será lançado direto em DVD um filme sobre deserção de um soldado durante a atual guerra de nome Stop-Loss (esse sim um título realmente bom, pra ser procurado nas locadoras). Nesse ‘A Caçada’, o diretor Richard Shepard (do interessante O Matador) desenvolve o relacionamento entre 2 jornalistas em meio ao fogo cruzado do Oriente Médio. Acaba ganhando pontos por dar gás a um assunto tão ‘moderno’ e ao mesmo tempo antigo, tantos são os filmes que estão abordando o assunto. Tudo isso graças a um viés cômico insuspeito que nasce de um bom roteiro escrito pelo mesmo Shepard.
Para dar vida a dupla de correspondentes americanos, foram convidados o excelente Terrence Howard e um cada vez mais surpreendente Richard Gere, que há pelo menos 6 anos deu um giro de 180 graus na própria carreira e renasce a cada novo filme como um ótimo ator, mais uma vez confirmando isso por aqui. A verdade é que cabe muito pouco de improviso ou afetação a eles, porque o roteiro do filme é muito enxuto e preciso, indo direto ao ponto (prova disso é a relativa curta duração do filme, que vai direto ao ponto sem rodeios). O filme mostra rapidamente como era a vida do correspondente Simon Hunt (Gere) e seu cinegrafista Duck (Howard), até o dia em que o primeiro surtou ‘no ar’ e desandou a falar o que achava da guerra, da emissora, do seu trabalho e de como estava de saco cheio de tudo aquilo. Cinco anos depois, Duck volta a Bósnia como grande figura da rede de TV onde trabalha para matérias junto do âncora do jornal e de um jovem estagiário que na verdade nada mais é que filho do dono da emissora. Quando Simon reaparece como free-lancer de emissoras de países subdesenvolvidos para cobrir o atual estado do país, eles se reencontram e decidem chutar o pau da barraca, saindo no rastro da Raposa, um terrorista temido cuja captura renderia até uma gorda recompensa. Enquanto Duck vê nesse encontro uma chance de provar seus méritos definitivamente, Hunt só pensa no dinheiro que vai ganhar entregando o bandido. Junto ao garoto que sonha ser jornalista, eles irão se embrenhar pelo meio de um país destroçado pela guerra, correndo um perigo que pode vir de qualquer um e qualquer lado.
Diálogos afiados e cheios de humor negro são disparados aqui e ali, numa narrativa ágil e cheia de momentos tensos. Se o filme não inova praticamente nada no lado técnico, ao mesmo tempo sua estrutura relativamente clássica é implodida pelo espero roteiro. Gere e Howard, experientes como são, aproveitam cada cena pra destilar um peculiar olhar sobre um universo tão caótico quanto o de uma guerra, e ainda tratam de tentar corromper o jovem Jesse Eisenberg a subverter a ordem das coisas, como eles.
No universo que o filme mostra (e que sabemos estar muito cheio de verdade), todos tem seu valor. Todos estão prestes a ser comprados ou vendidos, mesmo no coração da guerra. E quando o filme se diz ‘baseado em uma história real’, ficamos ainda mais estupefatos pelo nível em que a realidade parece ter chegado.
Cotação para este filme:
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