» FICHA TÉCNICA |

Filme: Feliz Natal
Original: Feliz Natal
País: Brasil, 2008
Produtora: Bananeira Filmes
Distribuidora: Europa Filmes
Duração: 104 min
Direção: Selton Mello
Roteiro:
Selton Mello e Marcelo Vindicatto
Elenco: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Lucio Mauro, Paulo Guarnieri, Graziella Moretto, Thelmo Fernandes, Fabrício Reis.
Data de Estréia: 21/11/2008


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francisco carbone »

rosquinhamabel@hotmail.com

» RIO DE JANEIRO, 18 DE NOVEMBRO de 2008

FELIZ NATAL

Foto: Divulgação

Difícil é conseguir respirar com facilidade ao fim da sessão de Feliz Natal. Botar a cabeça em ordem, perceber que estamos bem, e que nenhum problema é grande o suficiente que não podemos resolver, ou ao menos encarar. Isso tudo é sinal de que Selton Mello alcança como realizador os mesmos acertos que como intérprete. Ele provoca e hipnotiza, ele nos leva a uma realidade tão próxima quanto distante de tudo que já vivemos. O Selton diretor tem as mesmas infinitas qualidades e recursos que o Selton ator, e passado o alívio de perceber que um grande ator pode estar no caminho de se tornar um grande diretor, não pausa para refresco. Feliz Natal é porrada em cima de porrada; o filme exige de nós e não subestima nossa inteligência. Selton nos dá ouro, e só nos resta devolver com inquietação.

Caio saiu da vida da família há muitos anos, em busca da paz de espírito que algo lhe roubou. Tomando conta de um ferro velho em algum lugar muito distante, Caio recolhe os cacos do que um dia foi, até receber o chamado do passado. Da mesma forma como foi embora, Caio precisa voltar... assim mesmo, sem qualquer explicação. E logo seu sobrinho Bruno está abrindo a porta da casa dos pais e vendo a figura do recluso tio Caio cruzar por ele. Na sua doçura infantil, ele não imagina o quão doloroso e desgastante para todos será aquela noite de Natal. Seu pai Téo amarga uma profunda angústia, uma genuína tristeza na alma, uma dor calada; sua mãe Fabi prefere esconder seu descontentamento sob a fachada de dona de casa exemplar, que fará de tudo para não estragar sua festa meticulosamente preparada. Caio assiste a isso tudo com um desolado distanciamento, seu irmão tão distante dele.

Mas é ao encontrar os pais que enxergamos grande parte de seu deslocamento. Sua mãe é uma mulher que mistura alcoolismo e esquizofrenia em estados graves, avançados. A cena de seu encontro com o ‘filho pródigo’ é ao mesmo tempo triste e deprimente, cheia de atitudes disparatadas e desconexas, cheia também de um amor doentio e irreconhecível, tudo digno de alguém muito depressivo e muito alterado com toda a bombástica realidade onde chafurda. Com seu pai a história é outra: há ódio nos olhos e palavras dele. Ele não tolera esse filho que já não é mais... prefere viver uma vida amoral, dividindo a cama com uma jovem com idade de ser sua neta. Ambos diferentes na forma, porém iguais em desamor.

O filme não faz questão de investigar os motivos dos personagens, de nenhum deles. Aos poucos um quebra-cabeça complexo vai se montando em algum lugar, mas nada é exatamente fácil ou definitivo. Tudo pode ou não ser da forma com que é mostrada; ou será sentida? Mesmo assim, tudo faz todo sentido do mundo. E mesmo a aparente anarquia reinante em cena faz sentido em dado momento, em alguma oportunidade. O filme é construído sem elipses temporais, mas com elipses emocionais. O que existe na verdade é uma ‘polaroide’ de uma ocasião, sem antes ou depois; apenas o retrato do tempo vigente, e quanto as lacunas que possam vir a existir, o próprio espectador ganha ferramentas para completa-las da forma que bem entender.

Em determinada ocasião, vimos tantas cenas excelentes, que fica difícil ao final decidir qual delas é a melhor. É o embate entre os pais, é o diálogo no bar entre Caio e seu amigo, é a visita de Téo a Caio (uma das melhores cenas do ano), é o discurso da mãe na manhã do dia 25, é uma discussão a respeito do peru de Natal, são olhares, são planos, são posicionamentos, são luzes. A ressaltar também a superlativa equipe técnica do filme. Do mais novo mago da câmera Lula Carvalho ao ‘trilheiro’ Plínio Profeta, da montadora Marilia Moraes à Renata Pinheiro, que brilha nos cenários, Feliz Natal também é um assombro técnico, assim como o grande roteiro que o próprio Selton concebeu com o auxílio de Marcelo Vindicato, onde ele exorciza os fantasmas de todos os Natais ruins que qualquer um possa ter vivido, inclusive ele com sua pecha autobiográfica. Tudo isso junto faz nascer um grande filme, em todos os sentidos.

Por último, mas nunca menos importante, o elenco. Leonardo Medeiros. Darlene Glória. Lucio Mauro. Paulo Guarnieri. Graziella Moretto. Telmo Fernandes. Fabrício Reis. Me limito a dizer o nome de cada um dos abençoados desse elenco esplendoroso, todos em limite máximo de talento e dedicação. A ressaltar apenas a saudade da força de Darlene, o sopro de vida que um personagem trágico deu a Lucio, e o belo ‘comeback’ de Paulo; o trio talvez seja o destaque de um elenco que é brilho do início ao fim.

Caminhando por águas já caminhadas por Scorsese e John Cassavetes nos fervilhantes anos 70 americanos, Selton ainda se dá ao luxo de beber numa das melhores autoras da atualidade: Lucrecia Martel. Olhando por todos os lados, vemos Selton caminhando a passos largos rumo a se tornar o principal nome do nosso cinema na atualidade. Do fantástico ator que sabemos que ele é há tempos, seu amadurecimento profissional nos brinda com o melhor filme nacional do ano. Simples assim.

Cotação para este filme:
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