AUSTRÁLIA
Foto: Divulgação
Pra alguma coisa a crítica de ‘Austrália’ vai servir, então que seja pra provar que, mesmo fã, eu tenho discernimento. E mesmo adorando, perdoando e gostando de filmes que muita gente joga pedra (‘Reencarnação’ é um deles), preciso afirmar que Nicole Kidman dessa vez pegou um filme na qual poderá afirmar categoricamente no futuro: “é o pior filme da minha carreira”. O pior é saber que nada disso veio da cabeça da estrela, mas sim do visionário Baz Lurhmann, que tinha nos encantado com Moulin Rouge!, e aqui constrói um espetáculo do despropósito e do mau gosto. É incrível como tantos talentos resolveram apoiar a megalomania de Baz, que tinha em mente o épico definitivo sobre a história de seu continente e acabou parindo um histerismo que ousa emular ‘...E o Vento Levou’ e ‘O Mágico de Oz’ o tempo inteiro, e acaba envergonhando a ambos.
Sabe-se lá quem Baz conseguiu convencer a bancar essa bilhardária produção, que vê seus quase 150 milhões de dólares gastos escoarem merecidamente pelo ralo da incompetência. O pior é que cada tostão é visto na tela, com imagens pretensamente estonteantes de uma Austrália praticamente virgem, com seus campos ainda intocados e sua atmosfera ainda carregada de exotismo. A trama (como pode o vencedor do Oscar pelo roteiro do ‘O Pianista’ – e indicado por tantos outros – ter chegado perto disso?) é a mais vagabunda e rocambolesca possível, que junta no mesmo balaio de gatos aborígenes, uma ‘lady’ inglesa, um vaqueiro machão, vilões malvadíssimos e a formação de um estado em meio a guerras e a um romance maior que tudo (zzzzzzzzzzz...).
Na tela vemos Sarah Ashley chegar da Inglaterra natal para cuidar da propriedade do marido que acabou de ser assassinado pelos chefões do gado local. Ashley obviamente herdou tudo, inclusive os problemas em tentar ser ela também uma exportadora de gado e carne. Ao tentar fechar um negócio que tinha sido acertado com o falecido, a dondoca precisará da ajuda do Capataz (Hugh Jackman, que durante todo o filme é chamado assim), um vaqueiro rude capaz de levar o gado para os compradores no distante porto de Sidney. Durante o trajeto, ambos se odiarão mutuamente, se apaixonarão na mesma proporção e precisarão enfrentar as armadilhas dos vilões malvados que querem o fracasso deles. Aí depois vem a política, aí depois vem o romance, aí depois vem a guerra (sim, vem a guerra...), num ‘sem número’ de seqüências com inspiração zero e pretensão a todo vapor. E da-lhe chuva, cabelos ao vento, beijos com câmeras em ‘travellings’, olhares pérfidos dos malvados, lágrimas de quinta e emoção inexistente.
A parte técnica (como já descrevi) é nunca menos que óbvia, tanto que chega a irritar. Dos atores, só sofrimento: quando não estão no piloto automático, Nicole e Hugh se prestam aos diálogos mais pobres do mundo, numa colcha de retalhos mal urdida e bem rasteira. Ao restante (pobre Bryan Brown...), resta a falta de talento. O menino Brandon Walters, que interpreta um pequeno aborígene que Ashley toma como protegido, é o único sinal de vida de um longa que anseia por isso a cada fotograma, mas da qual as comparações com o igualmente sofrível ‘Pearl Harbour’ se fazem cada seqüência mais pertinentes. Dono de uma absurda indicação ao Oscar de figurino, cabe a nós observarmos essa crônica do fracasso anunciado, e urrar forte pra ver se Nicole ouve: “mulher, troca de agente!!!”
Cotação para este filme:
.....................................................................................................................................................

| Cinema | Ir para todas as Críticas | Capa
|