DÚVIDA
Foto: Divulgação
Vejamos bem: Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman. Dois atores? Sim. Dois dos maiores atores de suas gerações? Sim. Juntos num texto premiadíssimo e completamente atual? Tortura chinesa. Pois é assim que me sinto desde que o projeto da adaptação desse texto premiado com o Pulitzer e o Tony (Oscar do teatro americano) foi anunciado. Com o autor da peça escolhido como roteirista e também diretor, poderia ser fácil deduzir que tudo estava em casa, no caminho certo. Mas aí parando pra pensar a gente lembra do passado de John Patrick Shanley, como roteirista e como diretor de cinema. O senhor tem um Oscar prévio como roteirista, por “Feitiço da Lua” (mesmo que essa decisão tenha sido equivocada, mas algo decidido há mais de 20 anos nem vale mais a pena debater); já como diretor, 3 anos após sua vitória na Academia ele ‘cometeu’ “Joe contra o Vulcão”, que o tirou de circulação e mostro que, como diretor, ele era um bom roteirista. Aí veio a peça e tudo mais a reboque, todos os muitos prêmios e reconhecimento que ele recebeu e na hora de adapta-la, ele achou por bem fazer por si mesmo. Medo? Alívio? Resultado: ambos.
Explico: o texto está inteiro na tela, com toda sua imensa qualidade, com seus diálogos irretocáveis e sua capacidade de discussão que dura bem mais que o tempo de projeção. Sua capacidade de provocar, suas características fortes permaneceram, de repente podem ter até se ampliado (não vi a montagem brasileira da peça, com Regina Braga e Dan Stulbach). O que não é visto durante o filme é um diretor de fato, ou melhor, ele só se faz presente nos momentos errados, querendo se sobrepor a força inquestionável de seu próprio texto. Não se sabe se foi auto sabotagem, mas o que seria então? Megalomania, talvez... Não importa; com o resultado final, ‘Dúvida’ é um grande filme, mas poderia ser um dos melhores do ano, caso tivesse um Mike Nichols na direção (exemplo óbvio, eu sei).
A essa altura, a trama já é de conhecimento de todos, mas vamos repeti-la: irmã Aloysius (Streep) dirige com mão de aço um colégio católico no Bronx dos anos 60, e a chegada de um padre novo e progressista (Hoffman) vai encher sua metódica cabeça dos mais terríveis pensamentos, e talvez abalada pela popularidade do clérigo ela instaure uma cruzada contra ele e sua proteção exacerbada pelo única aluno negro do colégio, inclusive sugerindo uma pedofilia que pode destruir a paróquia. Auxiliada por uma jovem irmã (Amy Adams), Aloysius travará uma guerra de nervos e acusações onde apenas um terá a razão no final. Isso se a razão fosse algo tão concreto assim, e como se a dúvida não fosse algo difícil de se livrar.
Desde o início a gente vê cenas aparentemente ‘soltas’, e conforme o filme vai passando tudo vai fazendo um incrível sentido. Ao término, o ‘todo’ se mostra tão cheio de nuances e camadas que é impossível atacar o filme somente pela tal frase final que todos acusam o filme. Ok, de fato a tal frase soa gratuita e boba, mas pra mim seu significado é menos específico e mais abrangente no que tange a obra por completo. Me incomoda mais ver Shanley tentar transformar seu texto em ‘material cinematográfico às raias da afetação’, quando seu primoroso texto não pede nada, só contenção.
O brilhante elenco permite espaço a todos, das crianças aos figurantes, todos excepcionais. O quarteto indicado ao Oscar merece todos os louros: a rigidez autoritária de Streep, a certeza revoltada de Hoffman, a ingenuidade comovente de Adams e a amargura resignada de Davis, todos em estado de graça. E do que é feito um grande filme, se não de grandes atores e um grande roteiro? Estamos diante de um, que para a perfeição só precisava de um diretor. Um de verdade.
Cotação para este filme:
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