O LEITOR
Foto: Divulgação
Há mais de uma semana eu penso sobre O Leitor, e ainda creio que meu texto não terá tarimba o suficiente pra falar de tal obra. Será que Stephen Daldry em seu terceiro longa-metragem, na terceira indicação ao Oscar, conseguiu algo tão complexo assim? A questão nem é essa, mas talvez de análise pessoal mesmo. Fico mal de ter que analisar aspectos tão difíceis mesmo, e tão rápido; se estiver tudo meio ‘nada a ver’, entendam. Precisaria também rever o filme para ter uma visão melhor, mas não consegui, então lá vai. Sendo fã ardoroso de As Horas (e não tanto de Billy Elliott), confesso que tinha uma expectativa de razoável a grande pelo projeto, onde apenas o tema aparente (Holocausto) me causava desconforto e/ou cansaço. Mas Daldry resolveu seguir os passos de Polanski e, nos moldes de ‘O Pianista’, constrói uma pequena jóia de contenção e discrição, virando seus olhos para os resultados da guerra para a Alemanha e os seus sobreviventes, inocentes ou culpados, e tudo de forma clássica e seca.
Daldry demonstra que a confiança e o talento que Academia acredita que ele tem é real ao não julgar moralmente nenhum de seus personagens, todos envolvidos em questões como culpa e perdão num tempo onde isso era a ‘pedida do dia’. O ótimo roteiro de David Hare (que também escreveu As Horas, além de Perdas e Danos) baseado no livro original alemão de Bernard Schlink, provoca a discussão e levanta questões que muita gente não vai querer debater, na incrível onda do ‘politicamente correto’ que invadiu o mundo. Afinal, até que ponto uma culpa pode ser diminuída? Como julgar um crime quando você mesmo se sente capaz de um?
Após a Segunda Grande Guerra, o adolescente Michael conhece Hanna, uma bilheteira de bonde que o ajuda durante uma crise enferma. Meses após e já recuperado, Michael a procura com flores de agradecimento, o que torna a rude mulher interessante a seus olhos, e logo eles estarão começando um caso amoroso de fundo extremamente sexual. É nesse momento que Michael começa a envolver a amada em suas sagas literárias, lendo sempre para ela após cada tarde juntos. Clássicos embalam o romance num verão inesquecível, mesmo que 8 anos mais tarde ele não saiba que fim levou a mulher que partiu seu coração e desapareceu. Já fazendo estágio como advogado, Michael reencontra Hanna da forma mais bizarra possível: ela está sendo julgada por crimes cometidos durante a guerra, onde ela poderia ou não ser culpada da morte de judeus em campos de concentração. A partir desse momento, o rapaz irá se jogar numa espiral de descobertas, sobre ela e sobre sua própria personalidade, já que em um lance crucial, ele também será julgado, só que por si próprio.
A simplicidade com que Daldry conduz trama tão impactante é um dos grandes trunfos do filme, feito para ser ‘macro’ e acaba sendo acertadamente tão ‘micro’. Um filme que joga com a inteligência da platéia, que acaba sendo conquistada pela avalanche de questionamentos, e se colocando no lugar de todos. A fotografia da dupla Roger Deakins e Chris Menges é inesquecível no sentido de criar ambigüidade ás cenas e personagens, com seus muitos tons de claro e escuro se sobrepondo a todos.
Quanto ao elenco, ele tem ao menos dois grandes nomes: Kate Winslet e Lena Olin. Enquanto a primeira é somente entrega ao seu personagem mais difícil e exigente, dando em troca carga dramática capaz de iluminar 5 filmes, a segunda é um dos poucos pontos de genuína emoção do filme, brilhando em duas rápidas cenas. A dobradinha feita entre David Kross e Ralph Fiennes como Michael em diferentes estágios da vida é também muito boa, e participações de luxo de gente como Bruno Ganz e Alexandra Maria Lara são sempre bem vindas.
Talvez a ausência de certos laços emocionais tenham me distanciado um pouco, no que é extremamente válido para o resultado final, mas como eu disse no início, preciso rever O Leitor com urgência. Quem sabe seu potencial como obra-prima não cresce a olhos vistos? Ao menos dá pra entender seu aparecimento de última hora na festa do Oscar, um filme adulto, maduro e distante num ano onde o grande favorito é uma explosão de alma, coração e cores. De difícil digestão, mas de completa e ampla apreciação.
Cotação para este filme:
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