O CASAMENTO DE RACHEL
Foto: Divulgação
Cinéfilos de todo o mundo há anos falam de um hiato na carreira de Jonathan Demme, o consagrado diretor do neo-clássico ‘O Silêncio dos Inocentes’, considerado por muitos o melhor filme de suspense da década passada e vencedor de todos os Oscars nobres em 91. Mas na verdade não houve quebra de continuidade na filmografia desse que já foi um promissor diretor na década de 80, quando apresentou longas como ‘Melvin & Howard’, ‘Totalmente Selvagem’ e ‘De Caso com a Máfia’, com sua predileção por comédias anárquicas e de roteiro esperto. É óbvio que ninguém esperava que dele pudesse sair algo tão maduro e surpreendente quanto a jornada da agente Clarice Starling e do ‘canibal’ mais famoso da história do cinema, mas após isso quem poderia apostar contra ele? Pois os poucos que apostaram devem estar ricos. Demme, que nunca abandonou sua paixão pelo universo do documentário, talvez tivesse se mantido são se permanecesse nele. Ao posterior e equivocado ‘Filadélfia’, viriam dois filmes capazes de envergonhar qualquer cinematografia: ‘Bem Amada’ e ‘O Segredo de Charlie’, dignos de postar em qualquer menção de piores dos seus respectivos anos, se não de fato ‘os piores’. Após isso, viria um filme ao menos digno, a refilmagem de ‘Sob o Domínio do Mal’, com espetaculares desempenhos de Denzel Washington e Meryl Streep. Mas em meio a seus acertos como documentarista, seu nome como ‘diretor de ficção’ parecia queimado. E eis que surge ‘O Casamento de Rachel’.
Alguém falou ressurreição, a síndrome do ano que alcançou até Mickey Rourke? Esqueçam, com mais uma desastrada (porém cheia de boas intenções) produção, Demme reafirma que ‘O Silêncio dos Inocentes’ nada mais foi que um belo acidente de percurso. Aqui, ele até tem uma idéia interessante, ao decidir usar os preparativos de um casamento basicamente como o pano de fundo do reajuste de uma família, sabendo que usaria a situação toda como um grande vídeo pré-festa, ganhando em intimidade e cumplicidade do público com seu tom de ‘pseudo-documentário’. O que tinha tudo pra dar certo se transforma em pesadelo quando percebemos que a roteirista Jenny Lumet só soube construir excelentes personagens, mas não tem nenhum traquejo com situações. Obviamente em seu primeiro trabalho, a moça conta com a ajuda do montador Tim Squyres (que recebeu o dinheiro mais fácil da sua vida, já que não fez absolutamente NADA!) para não ajustar nenhuma cena, deixando momentos curiosos se tornarem esticados, e daí pra chatos, e daí pra extremamente cansativos, até chegarem no insuportável. Uma cena que deveria ser excelente durante discursos de convidados do casamento chega exatamente nesse ponto, e quando o microfone chega na protagonista já queremos que todos vão para o inferno.
Mas como eu disse acima, personagens bons Jenny tratou de criar. E com a ajuda de um ótimo elenco, temos a mágica quase perfeita, quando em tantos momentos o filme consegue fugir de quem o maltrata, alça vôo sozinho e chega perto da perfeição. Rosemary DeWitt, Bill Irwin, Mather Zickel, a sumida Debra Winger, todos em igualmente poderosas performances, em momento de fato sublimes. Todos, e principalmente Anne Hathaway.
Quem diria que a jovem de ‘O Diário da Princesa’ ultrapassaria o que já tínhamos visto em ‘Brokeback Mountain’, ‘O Diabo veste Prada’ e ‘Agente 86’ e nos presentearia com umas das mais sublimes interpretações do ano. Sua personagem, Kym, chega para desestabilizar os preparativos do desenlace da irmã, já que esse é o único fim de semana que ela obteve de licença da clínica de reabilitação para drogados e alcoólatras onde se encontra internada. Sua família passará o tempo todo na ‘saia justa’ com suas tiradas irônicas, mordazes e ferinas, que na verdade escondem uma jovem mulher dolorida e carente, que necessita desse constante mimo para suprir sua tristeza intensa. Pai e mãe omissos se dividindo entre o espanto e a tentativa de qualquer coisa; irmã aflita e irritada com a proximidade de um desastre no que deveria ser um ‘momento só seu’, além do ciúme... é a grande interpretação de Hathaway que permite isso tudo.
Como eu disse, em diversos momentos estamos diante de um dos grandes filmes do ano; se pegamos uma cena perdida no meio é bem capaz disso parecer de fato. Cenas enormes e confusas como o clímax do filme nos fazem lembrar que Demme realmente escorregou na história de Hannibal Lecter; aqui, ele mostra a sua verdadeira face. E Anne Hathaway, a dela.
Cotação para este filme:
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