MILK
Foto: Divulgação
Difícil e olhar pra trás e encontrar um escorregão significativo na carreira de Gus Van Sant, um dos diretores mais em voga da atualidade. Desde que ganhou a Palma de Ouro em Cannes há 5 anos atrás pela obra-prima ‘Elefante’, Van Sant se tornou uma espécie de figura central do universo ‘indie’ de Hollywood, fazendo os filmes mais instigantes das novas safras e retomando uma assinatura que ele aparentava fazer questão de esquecer há uns 10 anos atrás, com o surgimento de ‘Gênio Indomável’. Mas na verdade a carreira dele começou há 2 décadas atrás.
Explodindo pro mundo no mesmo ano do surgimento de seu companheiro de estética independente que definiria o gênero nos EUA, Van Sant lançaria ‘Drugstore Cowboy’ no mesmo ano que Steven Soderbergh lançaria ‘sexo, mentiras e videotape’, ambos alçados a salvação da cinematografia americana. Da parte de Van Sant, ainda viriam ‘Garotos de Programa’, ‘Um Sonho sem Limites’ (com uma inspiradíssima Nicole Kidman, no primeiro de sua coleção de prêmios) e um único filme ruim (até hoje), ‘Até as Vaqueiras ficam Tristes’. Aí então viria o fenômeno estrelado e roteirizado por Matt Damon e Bem Affleck, um campeão de bilheteria no mundo todo que jogou todos nas graças de Hollywood... e Van Sant foi fazer ‘Encontrando Forrester’; se não ruim, ao menos um erro. A partir da Palma, sua carreira tomou novo gás, mesmo com algo tão incompreensível como ‘Últimos Dias’. Depois de voltar a encantar todos com a sensibilidade necessária a ‘Paranoid Park’, eis que ele deseja então deixar mais que claro o que sempre foi claro pra todos: sua homossexualidade.
Realizar ‘Milk’, ainda mais da forma que foi, é um tratado da intolerância, da intransigência e mais que isso, é um libelo ao amor entre iguais. E cá entre nós, mas sendo bem preconceituoso mesmo, mas apreciar, se envolver e vibrar tanto com ‘Milk’ só sendo gay mesmo. Sim, heterossexuais até podem e vão gostar do filme, mas apreciar todos os lados da questão só estando na posição que os personagens retratados estão. O filme mostra um universo talvez hoje distante, com nossa liberdade praticamente conseguida, com nossas vitórias batalhadas, com nossos acertos dia a dia... mas o quanto seria possível disso sem a existência de Harvey Milk?
Felizmente pra uns, infelizmente pra outros, o filme decide centrar seu foco no ‘Milk político’, em como sua veia surgiu, em como ele se fortaleceu. Como sua vida provada em muitas vezes esbarrou na pública, obviamente sua trajetória também mostra o amadurecimento de sua sexualidade, de alguns relacionamentos, e de como ele lidava com os amigos (e correligionários) que foram se juntando a ele. Há muita paixão na forma com que Milk guiou seus passos na política e na vida, e essa paixão grita na tela de maneira idêntica, com o melhor elenco que Hollywood mostrou em 2008. É incrível como há unidade e extrema competência nos trabalhos de Sean Penn, Josh Brolin, James Franco, Emile Hirsch, Diego Luna e todos os outros.
Tecnicamente, Gus Van Sant consegue acertos ainda mais evidentes, com a fotografia de seu parceiro Harris Savides e a montagem de Elliott Graham conseguindo feitos extraordinários; também a trilha de Danny Elfman e o figurino precioso de Danny Glicker compõem um painel perfeito de época, todos indicados ao Oscar. O prêmio veio pelo roteiro de Dustin Lance Black, que passou anos de sua vida pesquisando sobre a vida desse homem extraordinário, e conseguiu transpor tanta beleza para o papel. O outro Oscar foi para o reluzente Penn, que representa todo um elenco formidável, como já citei.
Finalmente encontrando um meio termo entre suas experiências mais radicais de cinema (os ‘michês de Idaho’ e os ‘skatistas de Los Angeles’) ao mais clássico que já produziu (seus jovens rebeldes e geniais mostrados da forma mais acadêmica possível), Van Sant traduz toda uma geração que lutou e que hoje vê o resultado de uma liberação mais que necessária de corpo, mente e alma. Harvey Milk falou por todas as minorias, e calou-se aos tiros da insensatez. Sua voz no entanto se faz presente em minhas atitudes e de tantos outros gays que conheço, que tentamos fazer justiça à bela herança que Milk nos deixou.
Cotação para este filme:
.....................................................................................................................................................

| Cinema | Ir para todas as Críticas | Capa
|