FROST/NIXON
Foto: Divulgação
Há quatro anos atrás uma peça do britânico Peter Morgan foi encenada pela primeira vez em Londres, logo atraindo o interesse dos produtores da Broadway, que logo viram o quilate do projeto, que em pouco tempo teria amealhado os principais prêmios teatrais do ano, em Londres e nos EUA (o Tony). Todos sabiam que, apesar do sucesso, era um material pra nascer e morrer no teatro, onde a batalha campal promovida pelo apresentador inglês David Frost contra o derrotado ex-presidente Richard Nixon deveria permanecer, com sua força dramática e eloqüência espetacular, restrito aos palcos. O produtor Brian Grazer (de ‘O Gangster’ e ‘O Plano Perfeito’), no entanto, viu material cinematográfico na peça-evento daquele ano, e tratou de encomendar um tratamento de roteiro a Morgan. Logo, estavam tentando encontrar também um diretor para a empreitada, e qual não foi o susto de todos quando Ron Howard foi confirmado na cadeira. Afinal, o que o diretor de tantos erros quanto ‘O Código DaVinci’, ‘Desaparecidas’, ‘Apollo 13’ e ‘A Luta pela Esperança’ poderia fazer a um drama enxuto, inteligente e classudo como esse?
Depois do choque inicial, saber que ‘Frost/Nixon’ resultou num filme muito bom já é espantoso. Howard largou todas as suas muletas horrorosas e se concentrou no texto, no que deve ter sido a decisão mais acertada da sua carreira. Além disso, Grazer e Howard brigaram com o estúdio pela manutenção da dupla dos palcos nos papéis centrais, e assim Frank Langella e Michael Sheen estão de volta aos papéis que catapultaram suas carreiras. É um assombro que mesmo sendo um veterano somente agora Langella esteja finalmente sendo reconhecido; depois de um trabalho magistral no teatro, ele também entrega uma performance espetacular no cinema na pele de um homem com todos os defeitos do mundo, mas que está prestes a perder sua carranca na frente de milhões de espectadores graças ao carisma de um homem que só tinha isso ao seu favor (o carisma), na interpretação igualmente brilhante de Sheen. Enquanto a carreira desse segundo está em franca ascenção, depois de sua presença marcante em ‘A Rainha’ e ‘Diamante de Sangue’, Langella vivia o ocaso como ator até que a montagem da peça explodiu suas oportunidades. Seu nome já vinha cogitado para uma indicação ao Oscar ano passado, quando brilhou no ainda inédito ‘Starting out in the Evening’.
‘Frost/Nixon’ no entanto não foi uma supresa entre as indicações, já que era citado sempre como um dos melhores filmes do ano. O que não quer dizer que suas 5 indicações ao Oscar tenham sido merecidas; incontestáveis eram a de Langella como ator e a do roteiro, mas não posso dizer o mesmo sobre filme, direção e montagem. No fim das contas a culpa nem é de Howard, que fez o que pode e não atrapalha o projeto, tratando apenas de não interromper o resultado final (John Patrick Shanley, por exemplo, tenta “incrementar” ‘Dúvida’, coisa que não acontece aqui); pelo menos teve a inteligência de não querer se impor a um texto impecável. O que nem ele nem talvez nenhum outro conseguiria fazer é ‘tirar o gesso’ do projeto, que sofre porque necessita ardentemente do palco pra ser completo. Ou seja, ‘Frost/Nixon’ é um projeto de teatro que lá deveria ter ficado. Nem o elenco de primeira, nem a reconstituição de época impecável, conseguem manter clara a necessidade dessa versão cinematográfica, que carece de vigor na frente das câmeras. Entendam: o filme é interessante e prende a atenção. Ainda assim, o filme carece de uma liberdade que não é vista.
Ainda assim, não perca esse intrigante duelo entre o apresentador David Frost e seu entrevistado Richard Nixon, um querendo se tornar alguém na América, e o outro tentando levantar sua reputação na América. Um embate histórico, com um roteiro excelente e 2 atores em seus melhores momentos.
Cotação para este filme:
.....................................................................................................................................................

| Cinema | Ir para todas as Críticas | Capa
|