GRAN TORINO
Foto: Divulgação

O ano de 2008 entrará para a história por vários motivos diferentes dentro do universo do cinema. Um ano fraco depois de tantos bons anos; o ano em que Hollywood finalmente se rendeu a Bollywood; o ano em que o Homem-Morcego ditou as regras; o ano em que se despedimos de jovens e veteranos talentos; mas se tem um mito relativamente recente que caiu e marcou o ano foi o da eterna curva ascendente de Clint Eastwood, tratado como infalível até apresentar ‘A Troca’ esse ano, além do também superestimado ‘Gran Torino’, que finalmente estreia por aqui depois de se tornar a maior bilheteria da história de sua carreira, com quase 150 milhões de dólares arrecadados.
Aqui Clint abandona a sutileza às metáforas que seus últimos trabalhos vieram apresentando para mostrar de forma clara e direta uma trama simples, de viés bem popularesco. Ele também protagoniza o filme, e interpreta Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coreia racista, retrógrado e ferino, que não se importa em ofender quem quer que seja, desde sua família ao pároco local e mesmo os vizinhos asiáticos, indo num crescendo de irritação e desconforto até quase seu limite. Ele não consegue admitir a invasão coreana em seu bairro e não cansa de humilhar e rebaixar cada pessoa que cruza seu caminho (fica de castigo quem não perceber qual país Clint está alfinetando, com sua xenofobia exacerbada ainda mais pós-11/9). Nada se mantém imune a sua rabugice, e é por isso que levamos um susto quando uma gangue local tenta roubar seu velho Gran Torino 72 usando seu vizinho adolescente como isca. O roubo não acontece, já que Walt puxa seu trabuco pra cima de todos, mas a partir desse incidente, os vizinhos começam a trata-lo como herói, já que ele não castigou o menino. De uma pra outra, seus odiados desafetos começam a agradecer por sua atitude, e aos poucos (bem aos poucos mesmo) Walt começa a mudar de atitude com relação a eles já que com todo o resto do bairro, cada vez mais dominado por integrantes de uma comunidade asiática conhecida como ‘hmong’, ele permanece o mesmo.
E o que parecia remoto, acontece: como a gangue começa a ameaçar o menino caso ele os entregue a Walt ou a polícia, o veterano resolve partir para o ataque nas mesmas condições do grupo, armado até os dentes e cheio de disposição por que der e vier. E nesse momento, Walt ganha a humanidade que o roteiro de Nick Schenk havia lhe negado durante todo o trajeto. Aliás, o roteiro preguiçoso é apenas um dos problemas de um filme que parece nem um pouco preocupado em atingir níveis de excelência, mas apenas quer entreter. Nada disso justifica péssima escalação de atores, roteiro capenga ou obviedade na direção (que nunca foi uma marca sua). Mas é o que infelizmente acontece por aqui, demonstrando que 2008 foi um ano irregular para o velho Clint, embora ‘Gran Torino’ seja sua maior bilheteria na história, caminhando para os 150 milhões de dólares.
A justificativa para tanto dinheiro? Talvez o ‘fator escapista’ responda tudo, já que o filme é uma válvula de saída que vem bem a calhar nessa época de crise mundial e ausência de dinheiro, além de poder ser um espelho do pior da América tentando se transmutar para os novos tempos. Clint Eastwood já enxergou-os; pena que, pra isso, precisou abdicar de sua habitual qualidade e entregou um produto onde apenas o brilhante desfecho e a bela música-tema justificam uma olhada.
Cotação para este filme:
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