SIMPLESMENTE FELIZ
Foto: Divulgação
Lembro da primeira vez que ouvi falar no nome do diretor e roteirista britânico Mike Leigh. Foi em meados de 93, ao ler uma revista cinematográfica de grande circulação nacional, quando após o Festival de Cannes daquele ano, a produção em competição do cineasta na ocasião (‘Nu’) acabou levando o prêmio de melhor ator para o também britânico David Thewlis. A revista hoje é decadência pura; já o nome de Leigh, associado a ‘queridinho de festivais’ na época, passou à ‘estrela de primeiríssima grandeza’ em todo mundo, sempre atrelado a prêmios e excelência artística. Dá até pra arriscar que ele é um dos maiores autores da atualidade, na verdade.
Logo depois desse episódio, ele já veio logo se consagrando com ‘Segredos e Mentiras’, levando a Palma e o prêmio de atriz no mesmo Festival; o filme também foi o responsável pelas suas 2 primeiras indicações ao Oscar (direção e roteiro). De 96 pra cá, apenas 2 filmes seus não foram parar na premiação hollywoodiana, ‘Amigas de Colégio’ e ‘Agora ou Nunca’ (e ao menos esse último merecia mais reconhecimento do que obteve). ‘Topsy-Turvy’ e ‘Vera Drake’ trouxeram mais 3 indicações para Leigh, e o primeiro de fato levou as estatuetas de figurino e maquiagem. Deixando claro: todos os filmes citados são excelentes, numa carreira brilhante que não deixa de lado nunca os problemas sociais da Inglaterra natal, e uma dose de humor e inocência mesmo nos enredos mais dramáticos.
Mas talvez a faceta mais marcante desse grande autor seja sua origem e fidelidade ao teatro. Explica-se: Leigh é um diretor de atores, em sua essência, e isso ele obteve de sua vasta experiência com o teatro. Dessa época, ele levou para o cinema a capacidade de debater seus projetos entre todos os envolvidos, e assim nasceu o famoso modo de fazer cinema dele, reunindo todo o elenco seis meses antes das filmagens para uma espécie de entendimento do argumento. Durante esse processo, o elenco passa a conhecer e realmente vivenciar os personagens, e a partir daí é que os diálogos vão nascendo e o roteiro ganhando vida, com a ajuda de todos e de maneira orgânica. Por isso Leigh é tão avesso a falar dos roteiros de seus filmes, e talvez também por isso a Academia tenha medo de premia-lo justamente onde acha que ele merece; quem gostaria de ver no palco um roteirista negando justamente um roteiro que aparentemente teria sido escrito pelo próprio? Saia justa devidamente evitada.
Esse ano a sexta indicação chegou, com o roteiro de mais essa maravilha conduzida por ele, e dessa vez como comédia mais que assumida. Um dos melhores e mais divertidos filmes do ano, o longa conta a saga de Poppy, uma professora primária que como o título em português explicita, é ‘simplesmente feliz’. Nada abala o dia o dia nem o mundo dela; assalto, uma desastrada aula de dança flamenca, alunos rebeldes, a aridez da irmã grávida, Poppy tira tudo de letra até conhecer Scott, seu instrutor nas aulas de direção. Scott é o exato oposto dela, vendo tudo com extremo mau humor, falta de simpatia e tensão. E o que poderia fazer Poppy finalmente se dobrar vai se tornando irritante para Scott, já que cada vez mais ela se diverte com sua rabugice, o que vai deixando o clima insustentável, até porque sentimos no ar motivos para tanto destempero.
Além dos grandes personagens que cria, outro mito que deve ser mantido em torno de Leigh é sua extrema sapiência em escolher um elenco. A dupla formada por Sally Hawkins e Eddie Marsan é extraordinária e muito do filme se deve a eles, que ‘batem uma bola’ excepcional, dando o tom do filme e garantindo sua qualidade e verossimilhança, mas um a parte é válido ser dado ao trabalho de Hawkins. Qualquer escorregão num personagem tão aparentemente irreal como Poppy destruiria a obra inteira de Leigh, mas Hawkins de fato é um dos grandes nomes do ano, por ter ajudado seu diretor a criar umas das grandes personagens de um ano dominado pelas mulheres. Poppy sai na frente pra gritar que tudo vale a pena quando a alma não é pequena, e enchendo o filme de nuances extraordinárias (reparem nos últimos 10 minutos do filme, onde uma reviravolta interna aguarda um dos personagens; o que Sally Hawkins comete nesses momentos é grandioso).
Um filmaço, cheio de bons sentimentos e atitudes, revelando um Mike Leigh inédito pra gente, e igualmente brilhante.
Cotação para este filme:
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