VALSA COM BASHIR
Foto: Divulgação

É incrível como após apenas um ano, basicamente a mesma história de repetiu no Festival de Cannes. Em 2007, o Festival causou comoção ao apresentar e premiar uma animação adulta, o francês Persépolis, que realmente mereceu toda a balbúrdia em seu redor. O filme saiu da Croisette com o Prêmio Especial do Júri, espécie de terceiro lugar da competição. O longa ainda foi escolhido como representante da França ao Oscar de estrangeiro, mas acabou concorrendo somente como ‘animação’. Esse ano, a história parecia se repetir, com Israel fazendo às vezes da França. No Festival, só se falava que ‘Valsa com Bashir’, um documentário animado contando uma passagem da vida do seu diretor Ari Folman, não passaria em brancas nuvens. Mas como eu disse na crítica de ‘Entre os Muros da Escola’, poucas edições do festival francês tiveram seleção tão excepcional quanto a do ano passado, e ‘Bashir’ acabou sim ficando na vontade.
Ao aportar nos EUA em dezembro, no entanto, todas as premiações possíveis foram reverentes ao filme, conferindo a ele prêmios em diferentes categorias, nunca sendo esquecido. A essa altura, Israel já o tinha selecionado como representante para a categoria ‘estrangeiro’, onde o filme foi indicado e levou o Globo de Ouro. A trilha para o Oscar estava acertada, e o filme ficou entre os 5 títulos para a final. Mas tanto ele quanto o filme dirigido por Laurent Cantet observaram a vitória do japonês ‘Departures’. O merecimento nesse caso é sempre relativo; o que não é nada relativa é a discussão em relação às infinitas qualidade do que vem sendo chamado de ‘documentário animado’, mas que acaba ultrapassando qualquer rótulo e se tornando uma experiência única em cinema.
O filme abre com uma seqüência arrepiante e já clássica, quando um homem é obsessivamente perseguido por 26 cães raivosos até a exaustão. Na verdade, se trata de um pesadelo constante de um ex-soldado do exército israelense, que procura um dos companheiros que esteve com ele na Guerra do Líbano, nos anos 80. Esse homem é Folman, que a partir desse momento se dá conta de algo assustador: ele apagou toda e qualquer lembrança referente ao conflito, chegando ao cúmulo de só naquele momento lembrar que tinha participado dele. Ao procurar os parceiros que estiveram juntos dele na ocasião, Folman começa a pinçar os fatos e colorir sua memória com os horrores do que aconteceu, culminando com os massacres de Sabra e Chatila, campos de refugiados que foram palco do extermínio de mais de 1.700 palestinos de sexos, idades e motivações diferentes; uma barbárie que mostra em metáfora o poder que temos em sublimar os fatos e situações que nos afligem, deletando-os automaticamente.
Questionar o porque do filme ter sido feito em técnica de animação é realmente não ter nenhum conhecimento sobre a produção, que jamais poderia ser realizada em ‘live action’, pelo simples fato que superprodução alguma faria justiça a tanta poesia gráfica mostrada na tela, ao lirismo e singeleza que só uma animação poderia trazer a uma situação tão dramática e desesperadora. Literalmente somos levados a quadros de rara beleza e impressionante terror, que se impregnam na memória e dificilmente sairão. Citar uma, duas, ou mesmo cinco seqüências memoráveis seria diminuir o impacto do todo, que é extraordinário. De qualquer forma, como não se arrepiar ao assistir à cena que corresponde ao título do filme (Bashir Gemayel era o líder de uma milícia cristã apoiado por Israel que foi assassinado após ser eleito presidente do Líbano)?
Ari Folman, com suas imagens perturbadoras, com sua inquietante trilha sonora, com sua história de vida impressionante, trouxe até nós um dos grandes momentos do cinema nesse início de século, seja na mídia que for. Com um roteiro que dialoga perfeitamente com a precisa direção que ele propôs, ‘Valsa com Bashir’ surge como o imbatível ‘melhor filme’ lançado até agora na temporada em nossos cinemas. E que os outros se preparem, porque bater essa obra-prima em 2009 será tarefa de gênio.
OBS: Preparem-se para os últimos 5 minutos do filme, dos momentos mais estarrecedores que a tela grande verá esse ano.
Cotação para este filme:
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