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Rio de Janeiro, 01.01.10 | POR JOÃO MANOEL*

A mula sem cabeça

Quem não ouviu falar em Mula-Sem-Cabeça?... Acho que todo mundo, pelo menos aqueles que gostam de histórias de terror, assombração ou tipos místicos e folclóricos de nosso país... Pelo menos também, os que são daqueles lugares do interior, onde o povo acredita no sobrenatural, no fantástico e no extraordinário.

Eram seis da noite e muitos, naquela cidadezinha do interior de Goiás, ouviam em seus rádios, a prece da Ave Maria, como de costume.

Pessoas do interior são muito crentes e devotas. Quase todos costumam freqüentar as igrejas do seu lugar... Assim é que, naquela pequena cidade goiana, muitos rezavam àquela hora.

Em casa, Samuel que era descrente de tudo, jogava em seu videogame. O jogo era brabíssimo, com lutas, tiros e coisas absurdas.

Sua mãe sempre chamava sua atenção. Que devia ter mais respeito e ser temente à Deus, ao menos um pouco. Ele simplesmente ria e ficava por isso mesmo.

Ela dizia: “Que Deus não te castigue por isso, é o que peço nessa hora de oração à Divina Santa Maria, Mãe de Deus.”

Ele ainda rindo, respondia: “Ora, o que é que pode acontecer? Algum anjo mau virá puxar minha perna?... Ora, mãe. Eu temo à Deus, claro. Só não admito exagero...

Naquele mesmo dia, exatamente às vinte e duas horas, quando ele cansou de jogar, resolveu dar um pulinho até o bar do Ambrósio, ali perto. Gostava de tomar cerveja com os amigos.

Ficou ali bebendo até quase meia-noite, sozinho, já que não apareceu nenhum dos seus amigos. Quando saiu e se dirigiu à casa, estava quase bêbado. Cambaleando e ainda com uma garrafa na mão, resolveu ir até o estreito rio que passava ali perto, à beira da estrada principal. Desceu uma pequena ribanceira e chegou à margem. Ao lado havia muitos arbustos, que se estendia até um pouco além.

Com a bexiga cheia, resolveu esvaziá-la ali mesmo...

Enquanto se aliviava, notou uma sombra perto dos arbustos. Como estava meio escuro àquela hora, franziu o cenho tentando enxergar. Aquilo parecia um cavalo comendo nos arbustos. Não via sua cabeça, pois parecia que esta estava enfiada na mata. Se aproximou no intuito de assustar o bicho.

Quando estava ao lado dele, levantou as mãos com a idéia de gritar: “Xôô!”

Antes que pudesse abrir a boca, o cavalo virou-se para o seu lado e, o susto que o rapaz tomou, foi tão grande que ele caiu para trás, sentado dentro do rio.

Aquele cavalo não tinha cabeça!

Boquiaberto, ele ainda viu quando o cavalo saiu em disparada e sumiu na estrada...

Aí foi que ele percebeu que estava sentado dentro d’água. Ainda sem entender direito, levantou-se e caminhou para casa. Sua cabeça zumbia de tonteira e uma dor na cabeça começou e tomou o lugar da bebedeira. No portão de casa não agüentou e vomitou toda a janta daquela noite, misturada com a bebida.

Entrou em casa aos berros...

“Mamãe... Mãe!...”

Sua mãe apareceu aflita e o segurou pelo braço.

“Que houve, meu filho... Tá passando mal?... Nossa! Está pálido!...”

Ela o ajudou a deitar.

Em seguida, ele dormiu.

Ela saiu dali fazendo careta: “Nossa, que bafo horrível!...”

Dia seguinte, ele levou uma bronca da mãe.

Já refeito da bebedeira, lembrou-se do acontecido...

“Mãe, aconteceu algo estranho ontem, quando voltava pra cá... Foi horrível.”

“Que foi que houve?... Me conte.” - disse ela.

“Foi inacreditável... Parei no rio pra fazer xixi e tive um baita susto ao ver um cavalo sem cabeça que saiu correndo...”

Ela não acreditou.

“Besteira, filho... Vai ver que foi efeito da bebida. Eu já te falei pra parar de beber, ao menos em excesso. Não te falei? Vai ver foi Deus que te castigou... Ficas blasfemando...”

Sem muita convicção, ele disse:

“Que nada, mamãe. Deve ter sido uma visão. Foi efeito mesmo da cerveja...”

À noite, o rapaz dormia quando acordou com um barulho lá fora. Levantou-se e correu pra janela. Teve outro grande susto: viu um cavalo sem cabeça e, no lugar, uma labareda como a sair do pescoço, fumegando. Passou correndo pela rua, à frente de seu portão, sumindo lá na curva.

“Deus meu, que está acontecendo?... Estou ficando louco?... Será castigo, como a mãe falou?”

Correu para o quarto dela. Esta dormia tranqüilamente... Pensou em acordá-la, mas desistiu. Só iria assustá-la também.

Foi até a cozinha e tomou água. Estava muito quente...

Voltou a deitar-se, porém sem dormir.

Que estaria acontecendo? - pensou. - Seria o mesmo cavalo?... É, deveria ser... Só que desta vez saía fogo pelo pescoço... Não poderia ser ilusão... não duas vezes. E agora estava sóbrio. Está acontecendo algo muito estranho, sobrenatural, pensou.

Amanheceu. E ele, depois do café, sem dizer nada a mãe, saiu e se dirigiu à casa do pároco, padre Esteves.

Este o recebeu meio indiferente. Sabia que o rapaz não era de freqüentar igreja.

“Que queres aqui, meu filho?... Não esperava que me procurasse tão cedo e muito menos aqui, em minha casa...

“Desculpe-me, Pe. Esteves, se o incomodo... Me aconteceu algo estranho e acho que só o senhor pode me ajudar...” - Havia sinceridade em suas palavras. Padre Esteves se interessou...

“Conta-me, meu jovem, que te aflige?”

Depois que Samuel narrou tudo, desde o primeiro dia da aparição, o padre estava perplexo e incrédulo.

“Não acredita, não é, seu Vigário?...”

“Não, não é isso... Não sei o que pensar. Você me contou uma história difícil de acreditar... Pelo que me falou, só posso pensar que se trata de uma mula-sem-cabeça... E isto não existe... É pura lenda... Invenção desse povo.”

“Mula-sem-cabeça?... Incrível! Pode ter sido isso, Padre!...

“Não fale bobagem, rapaz. Não existe tal animal. Como já falei, é obra da mente desta gente. Daqui há pouco vai me dizer que acredita em saci, lobisomem, vampiro e outros tantos absurdos... Ora, faça-me um favor!... Tenho mais o que fazer...”

O padre quis fechar a porta, porém o rapaz não deixou. “Padre, não estaria aqui se não fosse verdade. Por que eu mentiria para o Sr.?”

“Ora, para ficar depois de gozação com os amigos de bebida, como você... Pensa que não sei?... Sua mãe me conta, tristemente, suas aventuras nos bares... Vá embora e conte isso para seus amigos.” Fechou a porta.

Samuel saiu dali, desanimado.

É, ele tinha razão... como poderia acreditar num beberrão?... - pensou.

À noite, ficou sobressaltado. Qualquer barulho corria para a janela. Sua mãe ao vê-lo tão aflito quis saber o motivo e ele contou, inclusive que tinha procurado o padre.

Embora muito assustada, ela ficou com ele, esperando. Talvez não acontecesse nada.

Só que aconteceu. E desta vez muita gente acordou. O barulho de cascos no asfalto era muito alto àquela hora da noite.

Os que se atreveram a abrir a porta ou janela para ver o que acontecia, tomaram um susto danado. Os que ainda estavam na rua, foram correndo para suas casas, aos gritos...

Samuel e sua mãe fecharam tudo e ela começou a rezar. Samuel, muito assustado, ajoelhou-se e rezou também, já se achando culpado da situação...

Na rua, só se via a claridade da labareda e ouvia o barulho dos cascos.

O padre Esteves, com água benta numa mão e um crucifixo na outra, saiu à rua, indo em direção a aparição, levantando o crucifixo, enquanto dizia:

“Sai Satanás, teu lugar não é aqui. Desce para o teu lugar!...”

Quando chegou bem próximo, jogou a água benta em cima da mula. Esta, esperneou e em seguida, evaporou-se no ar...

Padre Esteves fez o sinal da cruz e depois retornou para casa. Muita gente na janela de suas casas...

Dia seguinte, domingo.

Padre Esteves colocou a batina, pegou seu livro e dirigiu-se ao altar. Faria seu costumeiro trabalho santo para a comunidade.

Igreja lotada.

Sua surpresa foi grande quando viu Samuel, com sua mãe, no banco da frente...

***
SOBRE O AUTOR: *JOÃO MANOEL é desenhista aposentado.
 


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