AS DONZELAS DO CANAVIAL
Bom... lá pros lados de Cachoeiro de Itapemirim, numa estradinha
mal- assombrada que há lá pra dentro dos canaviais de uma fazenda das redondezas. Essa estrada começa na via principal que sai de Cachoeiro e vai pra capital. Quem segue por aquelas bandas, não vê outra coisa: é só pé de cana... Cana que não acaba mais.
Há a tal estradinha de barro batido. Muitas curvas ao longo de seu percurso. Sempre se fala que lá aparecem assombrações, fantasmas e almas penadas. Coisas do além...
Bom... Há alguns anos atrás, num certo dia, ainda claro, Ambrósio, que fazia transporte em mulas... É que ele era um vendedor andarilho, desses que vão de lugar a lugar vendendo coisas como, roupa, sapatos, revistas velhas...
Alguém diria:
- Sei, sei. Cacheiro viajante...
Pois é, um desses caras aí... Bom. Ele entrou por aquela estradinha e seguiu em frente. Aos lados só cana. Lá adiante, começou a passar por ele, em sentido contrário, outros viajantes, homens, mulheres, crianças, montados em cavalos, em burros, à pé... E todos passavam assustados... Ambrósio, que gostava de uma “pinga” e já estava chapadão, não entendia a razão daquele alvoroço. Mais à frente, deu de cara com um grupo que estava parado, amedrontado. “Quê que há, minha gente. Que está havendo aí?...” E disseram a ele que havia uma assombração lá na frente, há mais ou menos mil metros.
Nisso, Ambrósio pôde ouvir uma voz que vinha de longe. Dizia assim: “Venha!... Pode vir!... Venha logo!...”
Ambrósio se arrepiou todo e disse.
“Opa!... Que diacho é isso aí, sô?...” Passou a mão na garrafa e tomou outra “talagada” e continuou. “O que é isso aí, gente?... É alguma brincadeira de mal gosto?”
Alguém disse. “É o lugar que é mal-assombrado, moço. Não dá pra passar. Dizem que a voz é de alma penada.”
Ambrósio, que não acreditava naquela estória, ficou fulo de raiva. Estava a caminho da cidadezinha mais próxima, onde ia pra vender seus “bagulhos”. Não ia deixar uma assombraçãozinha qualquer lhe atrapalhar a vida: suspendeu as calças até sobre o umbigo da barriga um pouco avantajada, passou a mão na garrafa, tomou outro gole e ajeitou o grande facão que levava à cinta.
“Não tenho medo de alma penada, não, minha senhora. Vou lá vê que negócio é esse...”
E assim dizendo, puxou os três burricos pelas cordas e foi andando. Alguém ainda disse: “Cuidado, moço! É perigoso...”
Não deu nem bolas. Foi andando e passou por uma curva à direita da estrada, lá na frente. Aí viu, por cima da folhagem do canavial, o que parecia ser à distância, os galhos secos de uma árvore alta.
Foi andando... Mais à frente, passou por outra curva, desta vez à esquerda do canavial. Continuou. Em dado momento, avistou mais adiante, uma árvore. Já estava escurecendo e ele pensou que havia gente lá, embora não pudesse destinguir as figuras.
Quando ia chegando, os burros empacaram e não queriam andar. Foi preciso que Ambrósio os puxasse com vigor. Aos poucos foi chegando. Quando estava praticamente em cima, percebeu que se tratava de três moças, em pé e cada uma usava uma camisola branca. O ambulante mal se aproximou e uma delas o cumprimentou, o que ele logo correspondeu e antes que ele perguntasse alguma coisa, a moça, com um sorriso, perguntou: “O senhor tem fósforos?” Ele respondeu que sim. Então ela disse: “Poderia acender essa vela que eu tenho na mão?” Ela, de fato, tinha uma vela de uns doze centímetros na mão. Então ele disse: “Claro...” E tirando a caixa do bolso, riscou um fósforo, acendendo a vela. Então a moça disse: “Poderia, por favor, segurá-la pra mim?”
Ambrósio, entre um balanço e outro do próprio corpo, segurou a vela. A moça ficou olhando para ele, sorrindo.
O rapaz, que já esvaziara a garrafa, ficou ali, olhando pra moça, enquanto a vela ia se consumindo.
As outras moças, sentadas numa outra árvore seca tombada ali, olhando. Os burros inquietos e amarrados a um pequeno tronco seco ao lado.
Quando a vela se apagou de repente, a moça à sua frente sumiu, como por encanto e, ao lado, apareceu um caixão de defunto. Ambrósio ainda disse: “Ôpsss!”
Uma das outras moças se aproximou e também pediu pra ele acender a vela na mão dela. Ele não se fez de rogado, também acendeu e segurou-a.
A mesma coisa: daí há instantes, ventou e a vela apagou. A moça sumiu e em seu lugar também apareceu um outro caixão. O rapaz titubeou mas se segurou em pé.
A terceira jovem também se aproximou e fez a mesma coisa. Ambrósio acendeu a sua vela e ficou olhando pra ela que também olhava pra ele, sempre sorrindo. Há essa altura, os burros zurravam que fazia dó.
Uma golfada de vento apagou a vela na mão do homem e a moça desapareceu num último estouro surdo e um terceiro caixão apareceu ao lado dos outros.
Ambrósio, dominando todo o medo que lhe invadia a alma e que a cachaça ajudava a controlar, passou a mão no facão e vibrando-o no ar entoou uma ameaça: “Que venham todas as almas penadas dentro destes caixões. Estou preparado para elas!”
Esperou e nada. Olhou para o céu que já estava muito escuro. Olhou para os caixões e resolveu se aproximar. Parou à frente do primeiro, vibrou o facão e desferiu um golpe de baixo para cima na tampa do caixão, destampando-o e jogando a tampa para o lado.
Dentro dele havia muito dinheiro em notas e moedas. A surpresa foi grande: “Nossa! Quem diria...”
E se aproximando do segundo caixão, fez o mesmo.
Dentro deste havia muitas jóias de ouro e prata com pedras preciosas incrustadas.
O homem abriu um largo sorriso e partiu para o último caixão. Procedeu da mesma forma. Sua surpresa foi maior ainda. Dentro havia muitos diamantes, esmeraldas e outras pedras preciosas.
Ambrósio olhou para um lado e para o outro, puxou os burros para perto, esvaziou as cangalhas jogando fora todas as bijuterias e coisas que ia vender. Esvaziou os caixões colocando tudo nas cangalhas dos três burros. Depois, arredou pé dali.
Quando ia passando pelo local aonde estavam os medrosos viajantes e estes perguntaram o que havia e ele ainda disse: “Corram lá. Há muita coisa boa pra quem chegar primeiro.” Todos se encheram de gula e correram pra lá.
Ambrósio, calmamente foi se afastando e foi embora dali. A partir daquele dia, ele viveu como rei: comprou fazendas, gado, tudo que quis... e ficou feliz para o resto da vida...”
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*João Manoel escreve para o site Crônicas Cariocas
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