A VIAGEM
- Muito bem, - Disse Tavinho. - agora é a minha vez. Contarei um caso inacreditável... Um caso que se chega ao conhecimento das autoridades do assunto, isolariam a área...
- Deixa de enrolar, cara. Conta logo. - Januário parecia ansioso.
- Muito bem - Repetiu o jovem. - É um caso que ocorreu aqui perto. Precisamente na fazenda “Eldorado”, do “seu” Nestor...
“Havia ali um campo de futebol... Agora, fizeram lá, uma horta.
Há um tempo atrás, aconteceu algo estranho... A empregada da fazenda, Laura, namorava um peão local e se encontrava com ele ali, naquele campo... Sabem como é, saía uns beijinhos, uns amassos... coisas de namorados.
Numa dessas vezes, os dois estavam lá entre “tapas e beijos”, ouviram um ruído estranho vindo do alto e um clarão intenso sobre eles. Olharam pra cima ao mesmo tempo e se assustaram ao ver um objeto imenso descendo no meio daquela claridade que os cegavam.
Amedrontados, correram dali em direção a uma árvore afastada do campo. Esconderam-se atrás dela e observaram.
Com os corações à mil, viram quando o objeto gigante tomou as dimensões da área e pousou no campo de futebol.
O impressionante é que apesar do tamanho do objeto o ruído sonoro era mínimo, quase imperceptível, até que parou.
Havia lua cheia naquela noite e eles perceberam os contornos daquilo e descobriram que era um avião estranho.
Os dois se olharam e seus olhos arregalaram. Um parecia ler o pensamento do outro: “Era um disco, uma nave espacial!”
Notaram que estava todo escuro, não havendo nenhuma abertura que passasse luz.
De repente, uma fenda apareceu em um ponto daquele objeto estranho. Viram quando uma rampa deslizou de dentro para fora e estendeu-se até o gramado. Dois vultos saíram de lá e caminharam em uma direção. Suas pernas bambearam... Vinham em sua direção!
Laura e seu namorado não tiveram forças para correr. O medo os paralisavam.
A medida que as duas figuras se aproximavam, eles conseguiam visualizar melhor suas formas: eram altos e magros. Seus rostos pareciam estar escondidos numa espécie de couraça. Era, na verdade, capacetes iguais aos dos astronautas americanos, ou pelo menos pareciam.
Quando chegaram ao lado deles, os pegaram pelos braços e os conduziram em direção a nave. Eles, sem saber porque, os acompanhavam sem reação alguma. Somente obedeciam.
Todos subiram pela rampa e entraram na espaçonave. Esta sibilou e ganhou altura.
Dias se passaram que ninguém da fazenda soubessem do paradeiro de Laura. Por outro lado, os parentes do jovem lavrador também procuravam por ele.
Virou um mistério no local. Agentes da cidade vieram para investigar o assunto.
Depois de uma semana de investigação, os policiais resolveram voltar à cidade. Não tinham a menor pista. Foram-se contrariados e com a promessa de voltarem logo que tivessem alguma pista continuariam a busca.
Quase um ano depois, quando todos na fazenda e nas redondezas já haviam esquecido aquele acontecimento, apareceu na fazenda um homem muito alto e magro pedindo emprego.
Na verdade, havia algumas vagas. Era época de colheita e havia a necessidade de muitos braços para o trabalho.
“Seu” Nestor, como era conhecido o dono da fazenda, logo o contratou para aquele período.
Dia seguinte começaram a colher o grão. Em menos de uma semana, os silos estavam cheios: feijão, milho, arroz, soja, café e outros cereais.
Os contratados foram dispensados, só ficando os que eram empregados fixos.
O homem alto e magro, pediu para pernoitar por mais uma noite na fazenda. Esperava uma carona passar ali naquela mesma noite.
Todos foram dormir e o homem ficou na varanda, esperando, sacola pronta, olhando para o Céu.
Lá pelas tantas, já madrugada, “seu” Nestor acordou com um barulho estranho. Levantou-se e foi verificar. Abriu a porta a tempo de ver: no campo de futebol, um grande objeto se elevava no ar deixando para trás um leque de fumaça. Sua surpresa foi enorme.
Não havia ninguém na varanda. O homem sumira. Devia ter partido já há algum tempo, pensou. Quando olhou para o campo de futebol, teve outro susto: dois vultos se encaminhavam para ele.
“Seu” Nestor os reconheceu quando estavam perto: eram Laura e o lavrador, desaparecidos há tempos atrás.
Tomou outro susto quando ela disse:
“Boa noite, “seu” Nestor. Ainda acordado?”
Em seguida deu um beijo no jovem e este partiu. Depois, Laura disse:
“Até amanhã, “seu” Nestor. Tenha um bom sono. Vou para o meu quarto. Estou cansada da viagem longa que tive. E entrou.
“Seu” Nestor, boquiaberto, fechou a porta atrás de si e voltou para o próprio quarto. Sua expressão era abobalhada.
Dia seguinte, a surpresa foi geral. Todos queriam saber da volta de Laura. Até a polícia foi notificada e tudo se esclareceu. Ela disse que tinha viajada de repente, pois sua mãe morrera e ela mal teve tempo de chegar para o enterro. Depois cuidou do pai até este se restabelecer e ela poder voltar.
Todos acreditaram e as coisas voltaram ao normal.
O único que sabia a verdade era “seu” Nestor. Mas nunca abriu a boca para dizer nada. Seu medo era maior que sua língua.
Anos depois, Laura foi acometida de uma doença e em algum tempo estava pra morrer. Chamou o patrão e disse:
“Seu” Nestor, sou muito grata por tudo que fez por mim. Agradeço por ter guardado meu segredo até hoje. Só quero que faça mais uma coisa por mim. Quando eu morrer, me coloque numa urna e deixe-me no gramado do campo de futebol, à noite, entende? Virão me buscar... Sabe do que estou falando, não sabe?...”
Ele então disse:
“Não sei o que se passou com você, Laura... mas, tem minha palavra. Farei como quer.
E assim aconteceu.
Laura morreu e foi colocada no centro do campo de futebol por “seu” Nestor. Lá pelas tantas ele viu: uma nave aproximou-se e pousou ali, se afastando em seguida. Em seu bojo levava o corpo de Laura, numa urna.
O que ele não viu, foi o jovem lavrador que se aproximou e juntou-se a ela, sendo levado também, para longe dali, para sua última moradia no infinito do céu profundo.”
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*João Manoel escreve para o site Crônicas Cariocas
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