A SEREIA
- Muito bem... Então preparem-se. É uma história verídica. Aconteceu lá pras bandas de Maceió... às margens do rio São Francisco. Numa cidadezinha chamada Penedo, divisa de Alagoas com Sergipe...
“Havia ali um homem muito famoso por suas pescarias... Seu nome era Ribamar. Ele costumava pescar com as próprias mãos. Jamais usou anzol ou rede. Era exímio mergulhador.
Um dia, depois de mergulhar num lugar profundo, voltou à tona apavorado, quase sem fôlego. Os amigos que estavam com ele no barranco do rio e pescavam de anzol, tiveram um susto e o removeram, quase desmaiado. Alguém deu-lhe uma golada de cachaça e ele se reanimou.
Pouco depois, já refeito, ele explicou o que acontecera lá em baixo.
Ninguém acreditou nele e ele saiu dali xingando os amigos de descrentes, de não serem amigos de fato.
Voltou pra casa ainda um pouco tonto.
Seus amigos ainda tentaram acompanhá-lo, o que ele não aceitou e preferiu ir sozinho:
“Melhor só do que mal acompanhado.” Disse...
- E o que foi que aconteceu com ele embaixo d’água, “seu” Otávio? - Cortou, Januário.
- Calma, já chego lá... Mas, como ia dizendo, os amigos não o acompanharam. Então, um deles falou:
“Mas que história esquisita, não é, Lindolfo?” e este confirmou:
“É... Deve ter sido um peixão e ele confundiu tudo.”
“É..., disse o outro, quem iria acreditar que ele viu uma sereia lá no fundo?”...
Outro disse:
“Além do mais, que eu saiba, sereia só em água salgada do mar...”
Dia seguinte, Ribamar voltou ao rio e ao mesmo local. Não havia ninguém ali. Olhou para um lado e para o outro e, depois de se certificar que estava sozinho, tirou a roupa, ficando só de calção. Mergulhou nas água profundas daquele local e desceu até em baixo.
Nadou em várias direções. A corrente ali não era grande, pois tratava-se de um bolsão. Não encontrou o que procurava. Voltou à tona e respirou profundamente. Faria uma outra tentativa. Mergulhou de novo e se desviou mais para o meio. Ali a corrente era maior e forte. Assim mesmo ele a enfrentou e desceu o máximo que pode. Quando voltou a tona pra respirar, viu que se afastara muito do local onde deixara as roupas. A corrente o arrastava cada vez mais para longe. Não conseguiria voltar. O remédio era nadar para a margem dali mesmo. Quando ia começar as braçadas, sentiu uma mão pegar sua perna e puxá-lo para baixo. Só conseguiu respirar uma vez só, o máximo que pôde. Seu corpo desceu por entre as águas do rio e outra mão o segurou pela cintura, no calção. Acostumado com aquelas águas, abriu os olhos e viu aquela moça de cabelos compridos, esvoaçando por entre as águas. De sua cintura para baixo era em forma de peixe. Em seu rosto, um sorriso e um olhar muito confiante.
Ele estava aterrorizado. Aquilo não podia ser verdadeiro. Mas, o que ele estava fazendo ali se não acreditava no que via... Rápido em seu pensamento, percebeu que aquilo estava acontecendo de fato. Era verdadeiro. Seu medo passou. O problema é que seu ar estava acabando e ele começava a sufocar... Aí aconteceu algo estranho: a moça levou sua boca até a dele e num beijo soprou ar pra dentro dele, o que o reanimou. Aí, ele sentiu outra coisa estranha. A água doce estava se tornando salgada e azulada. A claridade do dia se apercebia através das mechas de seus cabelos. Peixes estranhos também passavam ao seu lado. Peixes do mar, pra ser mais preciso.
Tentou se desvencilhar daquelas mãos que o segurava, mas não conseguiu: eram mais forte que as dele. Continuou descendo até que avistou umas construções em ruínas. Pareciam muros de um castelo ou uma fortaleza, não podia entender.
Depois dali, apareceu outras construções mais modernas e inteiras. Haviam luzes! Ele, assustado com tudo aquilo, notou que conseguia respirar sozinho, sem a ajuda da jovem. Entraram em um prédio que mais parecia um palácio. Teve um susto maior quando notou a presença de outros seres sub-aquáticos.
A sereia o levou para um salão onde havia várias portas. Abriu uma e entraram num compartimento que mais parecia um imenso quarto de rainha. Uma cama ao centro rodeada de arranjos de flores em vasos de metais e louças.
Ela o deitou ali e afastou-se.
Pouco depois voltou com um traje magnífico. Então se aproximou e deitou ao seu lado. Uma música suave vinha não se sabe de onde. Ele notou outra coisa extraordinária: Não havia água ali! Eles não precisavam nadar e respiravam normalmente.
Era surpreendente tudo aquilo. E ela tinha pernas de verdade.
De repente ela o beijou e se ofereceu para ele num forte abraço, enlaçando suas pernas por entre as dele que, mesmo desconcertado, não se fez de rogado: a beijou profundamente e a possuiu com todo o vigor que a natureza lhe deu.
Aquilo era um sonho, só podia ser. Acordaria há qualquer momento. Vai ver nem saíra de casa. Estava em sua cama tendo aquele sonho maravilhoso...
Não foi bem assim. Aquilo era real e bem vivo!
Satisfeita, a jovem o empurrou para um lado, o convidando a sair. Embora meio desorientado, conseguiu entender seus sinais. Saiu, passou pelo salão, pela porta imensa, sempre acompanhado por ela.
Aí, ele viu que ela tinha barbatanas e não pernas como antes.
Lá fora, ela apontou para o alto e ele entendeu que tinha de ir embora. Um canto lírico e forte fez seus ouvidos doerem. Suas narinas tinha dificuldades em puxar o ar. Entendeu tudo: estava sendo expulso dali. Ela, simplesmente, conseguira seu intento: “Um macho para reprodução”.
Ele agora tinha que sair dali enquanto podia. Respirou fundo o máximo que pode e impulsionou-se para cima, entre as águas salgadas.
Nadou o máximo que pôde, seus pulmões parecia que iam explodir.
A claridade do Sol era intensa, mas não conseguia chegar à tona. A tontura tomou conta dele quando chegava em cima e ele desmaiou.
Quando voltou à si, estava deitado a beira do rio São Francisco e suas roupas ao lado. Vestiu-se e voltou para casa.
Desde aquele dia Ribamar nunca mais mergulhou no rio. Também jamais contou aos amigos sua aventura. Eles não acreditariam e levariam na gozação.
E, quem passar até hoje perto daquele barranco, vai ver pescadores jogando seus anzóis na água do rio. Entre eles, o homem que fez amor com uma sereia, porém, que agora, só pesca de anzol.”... E acabou-se a história...
- Ora, “seu” Otávio... Tenha paciência... O senhor disse que era uma história verídica. Isto é um conto de fada. - Riu, Januário.
- É verídica, sim! Quem contou foi um pescador de Maceió que já pescou naquelas bandas...
- E o senhor acreditou?... - Até Tavinho parecia não acreditar no pai.
- Bom... De qualquer forma, foi uma boa história... Quem vai contar a próxima?... - Perguntou “seu” Genésio.
- Espera aí, Genésio... Não é só uma boa história. É verídica de fato e, você falando assim, dá a entender que também não acredita. - “Seu Otávio parecia decepcionado com o amigo e vizinho.
- Claro que eu acredito, compadre. Não há razão para não acreditar.
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*João Manoel escreve para o site Crônicas Cariocas
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