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» RIO DE JANEIRO, 21 DE MARÇO DE 2007

Reencontrando velhos amigos

Fico impressionada com a facilidade que a maioria das pessoas têm em reconhecer os amigos, conhecidos, colegas e parentes distantes que não vêem a um tempão.

Sou uma péssima fisionomista, não consigo guardar os detalhes mais importantes da face de alguém. Quando se trata de reconhecer as amigas então, nem se fala! Consigo guardar mais a voz da pessoa do que sua aparência física.

Mulheres são terríveis de serem arquivadas na minha memória. Elas estão sempre mudando o cabelo, mudando a maquiagem, engordando e emagrecendo como bexiga de balão de oxigênio (esses aparelhinhos usam uma espécie de bexiga, né?). Não é raro eu estar caminhando pelas ruas e ouvir alguém me cumprimentar pra logo depois me perguntar:

- Não está me reconhecendo não? Sou Fulano, de tal lugar assim-assim...

Tenho que fazer um esforço para comparar a voz que estou ouvindo com os sons guardados em meus arquivos mentais. Pelo tel, posso falar com você hoje e daqui a um mês quando você ligar de novo, saberei que é você no exato momento que me disser alguma coisa. O mesmo não acontece pessoalmente, não espere ser reconhecido por mim ao final da tarde só porque esteve comigo pela manhã - provavelmente sua imagem deve ter ficado em algum quarto escuro da minha consciência.

Essa semana eu estava caminhando pelo centro histórico do RJ, ali pela área que vai do Saara até a Lapa, quando de repente pensei ter ouvido alguém exclamar meu nome. Fiquei na dúvida e continuei com cara de turista babando sobre o coração palpitante da minha cidade. Continuei andando. Em um segundo, ouvi novamente meu nome, dessa vez em tom mais alto. Parei e olhei pra trás. Vi uma mulher morena, nem magra nem gorda, com os cabelos pintados de loiro mais pra cor de abóbora e roupas de crente. Ela deu um meio sorriso, me olhando de cima a baixo:

- Você não mudou nada! É a Elida mesmo né? Menina, quanto tempo... Que coincidência te encontrar logo aqui no meio de tanta gente.

- Olá, tudo bom? Sou a Elida sim mas não estou me lembrando de você.

- Fui da sua turma da Tia Zelinha, na terceira ou quarta série, não tenho certeza.

- Lembro da Tia Zelinha e de quase toda minha turma. Qual delas é você? - e ri, fazer o que?

- É que eu mudei demais mas você está a mesma, não envelheceu nada. Você até melhorou a aparência com o tempo. Era tão magrinha agora tá cheia de forros.

Fiquei sem saber se ela estava me elogiando ou me chamando de gorda. Como sou otimista, decidi pelo elogio e tentei responder à altura:

- Não posso te dizer se você está melhor mas me parece muito bem. Não dá pra te ver direito nessas roupas tão tapadas e largonas. Virou crente depois de estudar em escola católica? O que aconteceu que te fez trocar de religião, não é uma escolha fácil.

Ela riu um pouquinho quando comentei das roupas.

- Não é, Elida? Complicado mesmo mas tive que mudar porque meu marido é pastor da Igreja Batista. Não ficava bem eu feqüentar a Igreja Católica. Aparece lá pra conhecer, fica ali na... - minha antiga colega de sala começou a passar todos os dados possíveis e imagináveis sobre a localização da igreja dela.

Fiz outra sugestão de propósito, só pra ver a reação dela:

- Por que não nos encontramos num barzinho? Podemos tomar umas cervejinhas enquanto colocamos as notícias em dia. Descrevi o Arco do Teles e outros locais bem descontraídos pelo centro da cidade.

Ela olhou de novo para minhas roupas: uma blusinha frente-única, com um decote em "V" arreganhado nos seios e um short jeans. Completava meu apuradíssimo visual carioca com uma sandalinha bem basiquinha e uma mini-mochilinha. Senti uma diferença na receptividade depois da análise mais cuidadosa dela sobre a miinha pessoa. Tive que prender o riso (por que estou sempre prendendo o riso?).

Antes que ela pudesse falar mais alguma coisa resolvi soltar meu famoso paiol de bobagens.

Relembrei algumas amigas da escola e professores, contei de meus filhos e dos sites que participo, dos passeios na moto, o que andei fazendo e o que pretendo fazer.

Ela pareceu relaxar um pouquinho e por sua vez, passou-me um resumo sobre sua biografia desde os tempos de escola. Foi nessa hora que consegui ligar a voz à pessoa. Experimentei a surpresa em notar que essa minha amiga não tinha melhorado em nada, ao contrário. Ela tinha a pele muito branquinha, o rosto de pêssego e fazia parte do grupo que já tinha o corpo bem definido para nossa época de pré-adolescentes. A pessoa que eu via à minha frente aparentava ter mais idade, a pele bastante enrugada e a pele morena estava com muitas manchas escuras. O cabelo era cheio de pontas e emplastado de óleo.

Quase sem sentir, acabei interrompendo o papo dela e perguntei na bucha, pelo marido.

Ela titubeou um pouco mas respondeu meio sem graça:

- Ele é uma boa pessoa, cuida bem de mim e das crianças.

Minha impulsividade foi mais rápida: - Mas...?

Dessa vez ela sorriu naturalmente e me convidou para tomar um suco.

- Pode tomar sua cervejinha, não me incomodo não. Vamos conversar um pouquinho.

Pensei na hora já avançada, perto do horário do rush na volta pra casa. Não me demorei muito pensando nisso e a segui para um dos barzinhos. Deixei que ela pedisse o suco dela e peguei cerveja pra mim.

Não conversamos exatamente porque foi um monólogo para uma platéia invisível. Ouvi minha amiga falar sobre seus anos de casamento e suas queixas mais íntimas. Não cabe aqui falar nos problemas dela que me foi quase uma confissão misturado ao desabafo.

O que interessa pra mim, neste caso, foi a alimentação da minha energia otimista em saber que tenho decisão sobre a minha vida e meus passos. Foi minha re-re-re-redescoberta de número "mais de dez trilhões", de como a vida tem muito a nos oferecer quando nos permitimos abrir os braços pra ela. Revi fatos da minha história, muito parecidos com os fatos por ela vividos e notei a distância tetrakilométrica da minha reação à dela, a esses fatos. Não que eu tenha reagido melhor ou pior, não é essa a questão. Pra falar a verdade, nem sei explicar direito mas sei que me senti muitíssimo feliz por eu ser eu. E como já quase não sou besta comigo mesmo, isso acrescentou um gás a mais em minha auto-estima e em meu amor-próprio.

Quantas pessoas em pleno século da informatização, tecnologia e informação ficam vivendo às margens de seu próprio tempo? Quantas ainda se subjugam e se apagam por isso ou aquilo?

Como diz a sábia Cora Coralina, "não sei, não sei se o tempo é longo ou curto demais...". O que sei é que ainda prefiro mergulhar profundo em meus problemas para que eles não deixem rastros em meus sorrisos presentes e futuros. Continuo sabendo que não devemos superfaturar a importância de coisas que nos incomodam. Continuo achando que a vida tem muitas belezas e alegrias que, às vezes, até precisam ser cavadas de lá do fundo do buraco. Está tudo lá, é só pegar.

Quando minha amiga terminou de desfiar seu rosário, fiz alguns comentários adequados para tentar trazer-lhe algum conforto. Discuti situações parecidas, tentamos traçar um pararelo juntas sobre as causas e conseqüências que poderiam advir com essa ou aquela atitude que ela poderia (ou não) tomar.

Já na terceira cerveja, achei que era hora de contar-lhe casos engraçados - muitos!

Finalmente nos despedimos, cada uma pra sua vida com a certeza de que só nos encontraríamos novamente se fosse casualmente, como aconteceu dessa vez. Eu sabia que minha amiga se sentiria envergnhada de encontrar comigo novamente depois de contar tantos detalhes de sua vida.

Suas últimas palavras foram quase um brinde, uma espécie de "muito obrigada":

- Eu queria tanto ser assim como você.

Deu tempo de responder-lhe rapidamente:

- Não importa quem você é mas se está feliz com o que você é e com o que você faz da sua vida.

Para minha felicidade, a última imagem que ficou dela, foi um sorriso iluminado.

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    *Elida Kronig


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