Você tem Imbi Solvente?
Caminhava devagar pela calçada para tentar diminuir os efeitos do intolerante sol desta minha terra quando, ao passar em frente a uma casa, uma senhora que estava em frente ao portão dirigiu-se a mim com expressão preocupada e perguntou-me baixinho:
- Você tem Imbi Solvente pra me emprestar?
Numa fração de segundo, própria dos nativos "ixpertos", dei uma olhada de relance na casa que apresentava a metade pintada recentemente. Surpreendi-me com o apelo daquela senhora.
- Desculpe, não entendi.
Ela ficou meio vermelhinha e perguntou novamente, dessa vez mais devagar:
- Você tem Imbi Solvente?
Respondi que não e segui meu caminho até duas quadras adiante, onde tive que atender aos apelos refrescantes de meu fervoroso chão. Soltei a prece em voz urgente:
- Me traz uma cerveja, por favor! Rápido, moço, porque estou desidratada!
Não sei exatamente o que me fez voltar o pensamento naquela senhora. Os olhos suplicantes, o meio desespero na voz? As "Amélias" não se foram junto com aquele idoso metido, um de meus muitos amores, o Mário. Um arrogante mas ainda assim, um amor de Lago. Aquela senhora provavelmente tinha manchado a casa toda de tinta e queria limpar antes que sua família chegasse.
Será que era isso?
Conflitantes pensamentos entram em guerra nas alavancas de meus revolucionários poréns. De um lado, minha reverência às mulheres dos anos 60 que em forma de protesto, tiveram o topete de desfilarem nuas por movimentadas avenidas. De outro, o velório aguado por tantas coisas que tivemos que abrir mão em prol da mulher moderna e que jamais iremos recuperar. Não importa, daremos um jeito – sempre damos. É o progresso - o nosso!
Olho pro lado e quem vejo aproximar-se com passos meio incertos? Ela escolhe algumas mesas e faz a mesma pergunta:
- Você tem Imbi Solvente?
As pessoas são fiés às suas marcas preferidos, principalmente os mais velhos. Minha mãe não começava uma faxina sem ter por perto uma lata de Removedor Faísca. Até hoje não descobri aonde ela usava esse produto, imagino que apagava as muitas obras de artes que eu e minha irmã tínhamos mania de rabiscar nas paredes de nosso quarto, mesmo que a custo de pancadas assim que nossa mãe descobria um novo trabalho artístico - éramos teimosas. Achei o pedido daquela senhora um exagêro, quase uma afronta. Não gosto de pedintes de nenhuma espécie e a hora da minha cervejinha era sagrada.
Comida, trocadinho, um pão, um almoço... Esses eram os pedidos com os quais eu estava acostumada. Comecei a ficar revoltada. A que ponto chegara a dependência das pessoas pela caridade alheia!
Incomodada com a presença daquela mulher, cometi o pecado de encerrar minha prece inacabada naquela garrafa, deixada pouco acima da metade - um verdadeiro sacrilégio! Paguei e fui ao banheiro verificar se minha situação feminina tinha virado uma catástrofe. Por precaução, troquei meu protetor íntimo já que ainda teria muito a andar. Enquanto o pacotinho aguardava que eu terminasse de lavar as mãos para ser novamente guardado, entra a velhinha triste, quase chorando. Sem mais nem menos ela sofre uma transformação.
- Imbi Solvente! Você tem Imbi Solvente! Me dá um? Preciso de um Imbi Solvente!
Passado o meu assombro, dei o pacote inteiro àquela senhora, acompanhado de um pedido de desculpas. Era o mínimo que eu poderia fazer...
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*Elida Kronig
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