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» RIO DE JANEIRO, 19 DE AGOSTO DE 2006

Votar sem obrigatoriedade

Quando eu era pequeno, acompanhava meu pai para tantos lugares quanto pudesse ir. Quase sempre de mãos dadas: ele, de andar firme e eu, de passos miudinhos. Aquilo, imediatamente me transpunha para um lugar no futuro, já adulto, copiando seus gestos e modo de vestir-se. Não que meu pai fosse uma pessoa elegante, mas, para mim, ele sabia como se portar. No dia de votar, por exemplo, seguia um ritual como estivesse se preparando para ir à missa de domingo: acordava, fazia a barba e tomava um desjejum. Eu o observava colocar a melhor roupa e sair cedo para cumprir o dever cívico.

- Maria, chama lá o menino que já vamos sair.

Eu, que já estava pronto e espiando à distância, só esperava minha mãe me gritar para poder segui-lo.

Ficávamos numa fila quilométrica, obedecendo às regras e aguardando a nossa vez. Sim, a nossa vez, porque eu havia também me acostumado a depositar a cédula na urna ao invés dele. Depois, ele sempre parava para papear com os amigos e ficava certo tempo discutindo assuntos diversos, sem jamais comentar em quais candidatos havia votado. Mas eu sabia de suas escolhas e o porquê delas. Um ou outro amigo seu também o sabia.

Dias antes da eleição, minha mãe oferecia um almoço para os candidatos escolhidos por meu pai. Eu gostava de ficar em torno da mesa, em silêncio, ouvindo as conversas e estórias sobre o futuro do Brasil.

Para desespero de minha mãe, que também queria acompanhar a contagem dos votos, ele deixava o rádio de pilha colado ao ouvido. Só dava para saber quando ele repetia os números para nós. Mas pedia silêncio se fizéssemos quaisquer comentários. Mesmo quando minha irmã rolava de rir por eu ter imitado os locutores.

Mas isso foi há muito tempo.

Como as eleições estão próximas, de repente, me bate uma nostalgia. Uma saudade da época em que as pessoas se preparavam para votar. Como gostaria de ver nosso povo ter esse orgulho de poder sair pra votar. Votar sem obrigatoriedade.

A julgar pelos resultados das pesquisas eleitorais, que dá a reeleição de Lula como certa, o povo mostra que não quer aprender a votar.

Por que não temos um pouco mais de paciência para pesquisar e escolher melhor nossos candidatos? Ou será melhor votar cedo e ir pra casa preparar um churrasco com os amigos?

Não podemos cometer o erro de votar num “Macaco Tião” novamente, apenas como forma de protestar. Também não é solução deixar tudo exatamente como agora, porque correremos o risco de ver a situação piorar.

No dia primeiro de outubro, vou sair para votar usando o meu jeans preferido, e exercer meus direitos de tentar mudar, com o meu voto, o futuro do nosso país. Pensem nisso!

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    *Francci Lunguinho é Editor do Crônicas Cariocas


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