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» RIO DE JANEIRO, 10 DE MARÇO DE 2007

Destino

Ela buscava a perfeição nas pequenas coisas. Era do tipo que não deixava passar, sem por à prova, qualquer deslize, por menor que fosse.

Naquela noite, após um encontro fortuito com alguns colegas da época de faculdade, decidira retardar um pouco a volta a casa e acompanhá-los a um happy hour. Esquecera, por um instante, que isso não estava nos planos iniciais, mas afinal, nos quase vinte anos de casada, jamais cometera irresponsabilidade alguma.

A madrugada já havia chegado quando percebeu que não podia permanecer naquela situação, não devia entregar-se ao capricho de um ou outro amigo - amigo de outrora, diga-se -, que protestava veementemente para que ela não deixasse o barzinho. Ponderou: a música é boa e já nem lembrava mais da última vez em que tivera momentos só dela, sem as crianças e o marido controlando seus passos. Porém, algo naquilo a perturbava. Seus instintos e o comportamento sempre adequado e linear não lhe permitiam que curtisse a descontração do ambiente. Temia que, no fundo, no fundo, seus amigos qualificassem-na como chata se teimasse em ficar mais tempo por ali. Apegou-se a esse pensamento como se fosse um mantra, e resolveu, finalmente, despedir-se de todos.

No grupo também estava Augusto. Um amigo que há anos não via. Reencontrá-lo a inquietou. Sabia que, se não fossem seus objetivos de se dedicar aos estudos para em seguida se casar, ter filhos e cuidar de casa, assim como sua mãe fez, e a mãe de sua mãe, talvez tivesse permitido, entre ambos, pelo menos uma paquera. Lembrou dos momentos únicos na Praça de Alimentação e no pátio da UERJ, universidade que freqüentou junto com Augusto, e todos os outros à mesa. Após duas ou mais horinhas ao lado deles, e já os achava uns desocupados e fúteis. Menos Augusto. Um homem de classe. Só não entendia por que, passados tantos anos, ele ainda convivia com as mesmas pessoas e ia aos mesmos lugares.

Um terremoto veio-lhe à mente, com a sensação de déjà-vu. Bastou lembrar uma frase dita por Augusto e uma chama acendeu-se. Ou reacendeu seus instintos mais libidinosos, e como se tentasse desenraizar um paradigma, resolveu testar sua sensualidade, uma única vez, antes de voltar ao seu mundo certinho.

- Nos trilhos somos livres. De uma estação a outra, seguimos nosso destino – repetiu ao Augusto uma frase que ouvira dele tantas vezes.

- Para onde quer que você vá, levará consigo você mesma – respondeu Augusto do mesmo modo enigmático e profetizado, como se um jogo fosse, a frase que ela própria costumava citar.

Tudo isso soava como uma terapia, uma resposta decorada, guardada por anos para uma ocasião esperada.

Após um silêncio, os outros amigos entreolharam-se surpresos e riram baixinho. Mas, isso já não fazia diferença, a sorte dos dois estava exposta. Sem despedida, e sem se desculparem, de mãos dadas, abandonaram o bar.

A partir daí, ela não conseguiu ser a mulher de antes. Começou a perceber que seus filhos não eram os mais lindos do mundo e que, de fato, o chulé do seu marido incomodava-a. Passou a exigir que ele pusesse a toalha molhada fora do banheiro e os sapatos na sapateira.

Numa manhã de sol quente, ela desceu as escadas para atender alguém chamando à sua porta. Era Augusto, segurando à mão dois envelopes timbrados de uma companhia aérea. Naquele mesmo instante, os dois partiram. Ele, ainda sob os efeitos daquele encontro casual, e ela, realizada por deixar pra trás toda uma vida de regras e controles emocionais.

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    *Francci Lunguinho é Editor do Crônicas Cariocas


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