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FOLHETIM GOSTO DE SNGUE
TEXTO: ERIKA LIPORACI - ILUSTRAÇÕES: FRANCCI LUNGUINHO |
Rio de Janeiro, Sexta, 16 de Janeiro de 2009 |
 

“Ela cruzou as pernas lentamente...” não, não dá, muito Sharon Stone. “Ela cruzou as pernas decididamente...”. Lenta, decidida, o que importa? Mais uma vez, volto com o cursor e apago a maldita frase a partir da qual não consigo avançar. Tudo que tenho até agora - e reconheço que não é muito - é um argumento que remete a qualquer história policial vagabunda: bela e misteriosa mulher adentra escritório de profissional liberal... mas qual? Detetive particular é muito clichê... talvez um advogado, desses bem decadentes. Caralho! Deve ser esse o famoso bloqueio que tanto apavora os escritores. Isso faz de mim um escritor de verdade ou apenas uma fraude realista?

Não era assim que eu imaginava as coisas quando me licenciei da redação no final do ano passado. Afinal de contas, estava deixando a mediocridade de escrever matérias factuais e adentrando no terreno da literatura. Nunca mais “homem baleado em sinal de trânsito”. Eu iria escrever em casa, confortavelmente. Faria meu próprio horário, o sonho de dez entre dez assalariados. Sem contar que seria pago para realizar minhas ambições.

Lembro que Cristiana ficou radiante. Naquela noite, ela bateu à porta do meu sala-e-quarto com queijos finos e duas garrafas de vinho chileno. Ainda que tenha ficado um pouco decepcionada por eu não ter uma taça decente, a noite foi perfeita. Bebemos e comemos na cama, como dois sátiros. Depois, fizemos amor pela madrugada adentro. Ela não se cansava de dizer o quanto estava orgulhosa de mim. Fazia planos para a “nossa vida” e tudo.

Como é que tanto orgulho virou embaraço? Simples. Quando eu parei de fornecer matéria-prima interessante para o seu inquieto cérebro sedento por boas novas.

Mas não é justo ficar procurando por culpados como um maldito inquisidor. É preciso deixar bem claro que me tornei um recluso bastante desagradável, que descontava suas frustrações cada vez mais na única pessoa que estava a meu alcance: ela.

Na minha ânsia de escrever o livro, comecei a ficar arredio. De repente, vivia indisposto para sair. Cinema? Ah, não tem nada interessante ultimamente. Só filme-pipoca. Teatro? Ah, só umas pecinhas pretensiosas de vanguarda. Restaurante? Pra quê? A gente pede por telefone e come mais à vontade aqui em casa mesmo. É claro que eram desculpas esfarrapadíssimas, mas eu as formulava com a maior seriedade. E quanto mais recluso me tornava, menos idéias tinha. E, por conseqüência, me retraía mais ainda.

Vamos dar o crédito que minha adorável garota merece. Ela suportou meu mau humor por meses a fio, o que culminou numa visita social numa noite chuvosa de quinta-feira. Ela chegou com ar cansado. Entrou direto sem me beijar e foi abrir o guarda-chuva na área de serviço. Depois foi até o banheiro conferir se a chuva estragara sua escova. Aparentemente, não.

- Marcelo, a gente precisa conversar.

- Claro, meu bem. Afinal de contas, eu tenho todo o tempo do mundo. Você pode entrar aqui a qualquer hora do dia ou da noite para conversar comigo e vai sempre me encontrar.

Antes de prosseguir, ela suspirou forte e me olhou como quem procura as palavras adequadas para se comunicar com alguém com atraso mental:

- Não vai ser na base do deboche que a gente vai se entender... se é que isso é possível...

Eu tenho um defeito especialmente desagradável, que é fazer exatamente o que as pessoas me pedem que eu não faça. No caso da Cristiana, que odiava sarcasmo, eu fui ácido ao extremo e fiz chacota com todas as tentativas dela - e foram muitas - de levar um papo racional comigo. Tenho que admitir que me magoava o fato dela conseguir administrar sua carreira tão bem. E eu estava frustrado demais por conta da minha “grande guinada” ter se revelado um embuste. Ou o embuste era eu? Ela tentou ser razoável, disse que entendia meu lado e tal, mas pedia que eu também fizesse um esforço para nos entendermos. Eu gritei com ela, disse que ela não entendia porra nenhuma porque já nascera com o rabo cheio de dinheiro.

É, eu disse uma coisa dessas à minha namorada. Não me orgulho, mas foi exatamente isso que eu disse.

Para encurtar a história, essa conversa terminou com promessas de ódio mútuo e ela saindo porta afora magoada e esbravejando que nunca mais voltaria. Com ela, o fiapo de sono que me restava. Queria tê-la chamado de volta, adoraria ter confessado meus erros. Mas não é tão simples assim. Velhos hábitos contam mais do que desejos repentinos, não importando quão sinceros sejam.

Na verdade, achei que ela voltaria. Um machismo do caralho, eu sei, mas naquela época tinha a ilusão de que ela me amava. Que não aguentaria me perder, essas coisas. Mas ela também sabia ser dura na queda. Era uma negociante anos-luz melhor do que eu. Mas, como bom fracassado, me enchi de razão e fechei os olhos para o óbvio.

Nem notei que, por conta dessa conjunção de fatores, havia começado a perder o sono. No começo, me revirava na cama e acordava várias vezes numa mesma noite. Sentia a garganta seca, mas água não aplacava minha sede. Depois minhas horas de sono começaram a se reduzir. Ia dormir altas horas e, ainda assim, lá pelas cinco da matina estava desperto. Por fim, parei de dormir. Varava a madrugada adentro, fumando e bebendo café. Produzindo que é bom, quase nada. Lá pelas onze da manhã, vinha um sono lento e inquieto que durava, no máximo, umas duas horas.

Seis meses já... e o livro continuava na estaca zero!

Foi nesse estado de ânimo que eu percebi que não estava sozinho nas madrugadas insones de Copacabana. Comecei a reparar que a moça que morava no apartamento dos fundos saía quase todas as noites e, invariavelmente, voltava muito tarde. É evidente que eu não tinha nada a ver com isso, mas minha mente era mais que a oficina do Diabo. Era um parque de diversões inteiro. E a cada dia me sentia mais curioso a respeito dela. Quem era? O que fazia?

Sua ocupação? Isso aí eu já desconfiava qual seria. Não era nenhuma criança e vivia em Copacabana tempo suficiente para reconhecer uma garota de programa. Ou acompanhante, um eufemismo muito usado. O jornal tá cheio de anúncios assim: “acompanhantes para executivos”, “classe A”, “sigilo total”. E o meu preferido, dentre todas essas pérolas: “atendo a domicílio”... Puta delivery. Só rindo mesmo.

Claro que tinha uma consciência quase brutal da fauna noturna ali da Prado Júnior, a apenas alguns quarteirões da minha janela. Mas era algo tão impalpável, pitoresco - quase carnavalesco! -, que nunca chegou a chamar a minha atenção por mais que cinco segundos. Já a movimentação dela no apartamento dos fundos não era algo que pudesse ser abstraído com tanta facilidade.

Ainda mais depois daquela noite.

***
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