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Depois de estacar no primeiro capítulo do meu aguardado - aguardado por quem? - romance noir por meses a fio, eu finalmente acordei enxergando uma luz no fim do túnel. Eu tinha um título, e era um título de efeito! Tá bom, eu simplesmente ignorei o consenso geral de que o título de um livro é a última coisa na qual o escritor deve pensar. Eu tinha um título e - cacete! - ele parecia realmente bom!
A excitação de ter alguma coisa à qual me agarrar, por mais frágil que fosse, me encheu de alegria. Resolvi ligar para meu impaciente agente, pois achei que qualquer novidade o deixaria menos apreensivo quanto ao futuro de seu protegido-que-se-revelara-um-fracasso ou, para sermos mais claros, ao seu próprio futuro.
A secretária atendeu e, mais uma vez, fez seu irritante ritual de perguntar “Marcelo Fontes... de onde?”. Reprimi minhas ganas responder que era Marcelo Fontes “daquele lugar onde o sol não bate” e expliquei pacientemente, pela milionésima vez, quem era e qual era o meu assunto com o “Doutor Ronaldo”. Sempre achei engraçado como, aqui no Brasil, todo mundo que tem um certo nível social gosta de ser chamado de doutor. Que eu saiba, o Ronaldo não é médico. Nem tem doutorado. Após mais alguns minutos de espera, finalmente a voz anasalada de Ronaldo se fez ouvir do outro lado da linha:
- E então, Marcelo? Novidades sobre o livro? Alguma previsão? - sempre odiei essa mania dele de fazer um crescendo de perguntas.
- Tá avançando, meu caro. Devagar e sempre - eu estava ficando bom nisso!
- Quando você acha que vai finalizar? Já estamos em maio... O pessoal da editora tá no meu pé, cara!
- Agora falta pouco... aliás, eu já tenho o título!
- Mas o título não é a última coisa?
E eu achando que estava trazendo uma boa notícia! O filho-da-puta pretensioso sabia como baixar a bola de alguém.
- Nem sempre, nem sempre...
- E qual é?
- O quê?
- O título.
- “Gosto de Sangue”.
Silêncio.
- E aí, o que você acha?
- Não sei...
- Diz alguma coisa.
- Ãh... Não tem um filme com esse nome?
- Tem?
- Daqueles diretores americanos... os caras que fizeram “Fargo”.
- Os irmãos Coen?
- Esses.
Agora era a minha vez de ficar em silêncio. Puta merda! Ele tinha toda razão. Até o meu título genial era chupado de um filme hollywoodiano. Como não me manquei disso? Que vergonha. Tinha que pensar em algo para dizer, e rápido. Mas, antes que pudesse pensar em qualquer coisa, Ronaldo se antecipou:
- Marcelo...
- Hã?
- Talvez seja boa idéia.
- Como boa idéia? Usar um título de filme?
- Pode ser boa propaganda. As pessoas podem comprar achando que tem alguma coisa a ver com o filme. Ou melhor, pensar que os caras se inspiraram no teu livro para fazer o filme.
- Como é que um livro que ainda nem está pronto pode inspirar um filme que foi feito há uns 20 anos?
Eu nem esperei para ouvir a resposta idiota que fatalmente viria do outro lado da linha. Estaca zero. De novo. |