Aquilo realmente acabou com meu dia, com meu humor, e com qualquer fiapo de sono que restasse em mim. E a página continuava em branco, com o cursor a piscar como uma condenação. “Por seu crime de soberba extrema, o réu está condenado a viver para sempre na mediocridade e ostracismo.”
Tentei me inspirar no noticiário do rádio, nos jornais do dia e até mesmo no circo de horrores dos programas sensacionalistas da televisão. Tudo parecia banal, prosaico, copiado de Hollywood. Me agarrei ao controle remoto como a uma tábua de salvação. Passei o dia prostrado diante da televisão, zapeando de um canal para outro. Nada. Após ver uma menina de cerca de doze anos acusar o próprio pai de tê-la engravidado, joguei a toalha e resolvi desligar a TV.
Como pude ter sido tão pretensioso? Nunca fui pródigo em imaginação. Sempre escrevi bem, é verdade, com argumentação equilibrada e clareza de idéias. Mas daí a criar algo de original vai uma grande distância. O que sempre me faltou foi o insight, a centelha luminosa que distingue os gênios de profissionais esforçados.
Mais duas horas se passaram. Nada. Meus olhos doíam da luz fria do computador. Não sei exatamente quanto tempo passei, autômato, olhando a tela do computador. Mas foi muito. Talvez tenha, naquela posição nada confortável, finalmente conseguido dormir. Só lembro que a violência com que a porta de entrada foi batida ecoou pelos meus ouvidos como se eu tivesse metido a cabeça dentro de um sino de igreja no meio das doze badaladas.
Ainda meio zonzo, pisquei os olhos desorientado. Olhei para o relógio de parede e vi que eram quatro e meia da manhã. Em seguida, ouvi a grade de metal do elevador ser escancarada. Ela. Parecia fugindo de algo.
Não resisti e abri a porta da cozinha, mais próxima da porta dela do que a da sala. Ela estava abaixada e tirava coisas a esmo de dentro da bolsa caída. Notei que suas mãos tremiam. Me aproximei, indeciso.
- Oi, posso ajudar?
A pergunta, que pretendia parecer solícita, mas desinteressada, saiu de minha boca como um sussurro esganiçado.
Ela não ouviu - ou me ignorou - e continuou a procura. Provavelmente pela chave. Fui avançando pelo corredor e, quando estava a menos de um metro, tive uma visão clara dela. Meu sangue gelou.
- Você está bem? - tentei de novo.
Curiosamente, o pânico fez minhas cordas vocais voltarem a me obedecer. A pergunta até soou natural, ainda que eu não conseguisse tirar os olhos da blusa dela empapada de sangue.
Parecendo pela primeira vez tomar ciência da minha presença, ela se levantou de um salto e virou na minha direção. A boca se abriu e formou um grande “O”, mas ela não emitiu som algum. Os olhos pareciam vidrados, em choque. Aquela mulher havia sido seriamente espancada. Os cabelos tapavam parte do rosto e, ainda assim, era impossível não ver o sangue que gotejava da boca machucada. Era a primeira vez que via seu rosto e, mesmo naquele estado, sua beleza altiva me impressionou.
Ela pareceu petrificada por alguns instantes, mas logo recuperou o controle e abaixou-se de novo. Decidira me ignorar e voltar à atividade anterior. Finalmente içou um molho de chaves e enfiou uma delas às carreiras na fechadura. Sem me dirigir uma mísera palavra, entrou e bateu a porta.
A bolsa ficou aberta no meio do corredor como uma boca escancarada. Não tanto quanto a minha, é claro. E agora? Nenhum manual de etiqueta diz como se comportar numa situação dessas. Pensei em bater à porta - cheguei até a ensaiar o gesto -, mas logo recuei.
Olhei para o chão. Uma bagunça. Recolhi um batom e um vidrinho de perfume que estavam caídos ao redor e joguei dentro da bolsa. Mais adiante, dois lenços de papel sujos de sangue. Após alguns momentos de indecisão, achei melhor levar a bolsa para o meu apartamento. Os lenços seriam jogados fora e, no dia seguinte, poderia devolver o restante a ela. Me sentia meio inseguro quanto à decisão que havia acabado de tomar. Mas o que eu podia fazer? Não dava para deixar os pertences dela ali no caminho, dava?
O problema é que algum primitivo senso de autopreservação lá dentro me gritava que era exatamente isso o melhor a fazer.