A bolsa me olhava de cima da mesa da cozinha. Frases digitadas a esmo deletadas, frustração, cansaço, mais uma xícara de café, incontáveis guimbas no cinzeiro... e a bolsa a tudo observando. A cena da madrugada anterior revirava na minha memória, embora alguma coisa - ou melhor, mais de uma - parecesse não se encaixar no contexto, como um caleidoscópio quebrado. Ela me intrigava, talvez porque era algo que eu não conseguia decompor com o intelecto. E eu nunca fui um cara chegado a me deixar levar pelas sensações, se é que vocês me entendem. Mas o caso é que, ao mesmo tempo em que atiçava minha curiosidade e libido, ela me enchia de temores.
O que teria acontecido? Um assalto, agressão de namorado, acidente de carro? Todas as opções, embora plausíveis, pareciam improváveis. Não sabia bem o motivo, mas pressentia que nada relacionado àquela mulher poderia ser simples assim. E por que ela correu de mim? Quer dizer, que tipo de pessoa corre de um vizinho daquele jeito?
Só tinha um modo de jogar luz sobre esse enigma.
Resisti o quanto pude a me tornar um clichê da história policial que tentava escrever. Mas bastaram poucas horas de ansiedade extra e criatividade zero para eu capitular: sim, eu iria abrir a bolsa e - puta merda! - me converter numa caricatura grotesca saída direto de um film noir.
Ora, a quem eu estava enganando? Estava decidido a bisbilhotar desde o começo! Desprovido do charme de um Bogart, caminhei tenso até a mesa. Como se desta forma pudesse resguardar alguma dignidade para minha triste figura.

O batom e o vidro de perfume já me haviam sido apresentados no corredor. Além deles, carteira, maço de cigarros, isqueiro e um pacotinho de lenços de papel... um conteúdo quase asséptico. Mas, também, o que eu esperava encontrar? Uma carta comprometedora e cheia de ameaças assinada pelo sujeito que a espancou? Francamente!...
Faltava ultrapassar a última fronteira antes da indignidade total: abrir a carteira. Considerando que o dilema-mor de remexer na bolsa fora vencido, até que a carteira foi aberta com relativa tranqüilidade.
Algumas notas de dez reais, uma de cinquenta. E só. Não havia uma carteira de identidade, nem qualquer outro documento que realmente identificasse minha cada vez mais misteriosa vizinha. Quem é que sai por aí, sempre tarde da noite, sem identificação? Descartei a idéia de que ela pudesse ter sido assaltada. Não faria sentido, já que havia dinheiro na carteira.
Dúvidas multiplicadas, peguei a bolsa e me dirigi à sua porta. Melhor acabar logo com essa brincadeira. Devolvo a maldita bolsa e esqueço daquela cena. Ela que se entenda com seu amante, cafetão, ou seja quem for que tenha amarrotado sua cara daquele jeito. Afinal de contas, por que eu estava perturbado daquele jeito? Não era problema meu. Tentei ajudar, e ela foi grosseira; portanto, me sentia totalmente desobrigado de qualquer preocupação com seu estado físico. Ou mental.
Abri a porta temeroso. Ninguém no corredor. Ótimo. Só me faltava dar de cara com o porteiro, querendo entregar correspondência e puxar papo sobre a tabela do Campeonato Brasileiro. Vi que havia um papel sob minha porta. A conta de luz daquele mês. Dinheiro ninguém coloca na minha porta, só... Ora, ora! A conta de luz dela apontava sob a porta, mais de metade dela para fora.
Esgueirei-me rapidamente até sua porta e, sem pensar muito, puxei a conta. Meu medo de ser flagrado multiplicou-se por mil enquanto passava os olhos pelo nome do destinatário: Alicia Montez. Alicia... pelo menos agora sabia seu nome.
Coloquei a conta exatamente na mesma posição e toquei a campainha. No interior, silêncio. Toquei mais duas vezes. Nada. Tinha certeza de que ela estava lá. Deve ser viciada em tranquilizantes, pensei ironicamente. Mas então me pareceu que uma sombra passou sob a porta. Que palhaçada era aquela? Por que sempre acontecia esse tipo de coisa quando eu procurava ser minimamente civilizado? Ou será que aquela louca estava ali o tempo todo, de algum modo me observando?
Quer saber? Foda-se Alicia Montez, fodam-se todas as suas tralhas. Larguei a bolsa lá mesmo, no corredor, onde deveria ter deixado que ficasse depois que aquela porra-louca bateu a porta na minha cara.