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Nem lembro há quanto tempo não tirava um cochilo decente, mas o fato é que, após me livrar da bolsa de Alicia Montez como quem joga um corpo no fundo de um lago, tive várias horas de um sono pra lá de tranqüilo. Não me atrevo a nomeá-lo o “sono dos justos” mas, enfim...
A campainha tocou. Ou foi no sonho? Levantei a cabeça do sofá e, com os dois ouvidos desobstruídos, constatei que a campainha realmente tocava. Um som que me pareceu alienígena, a princípio. Levantei mal-humorado, aquilo era muito “Lei de Murphy”. Porra, justo na hora em que eu finalmente conseguira dormir decentemente!...
Ver a Cristiana na minha frente parecia a confirmação de que aquilo ainda era um sonho - ou pesadelo, dependendo do ponto de vista. Afinal, parecia que foi numa encarnação anterior que a vi pela última vez.
Ela entrou sem pedir licença, passando os olhos pela zona que reinava no apartamento e fazendo um esforço incrível para manter a expressão neutra. Uma coisa que eu sempre detestei nela foi esse talento especial para dissimular o desagrado. De repente, me deu uma puta raiva do controle dela. Do modo como ela afastou minha revista de cinema para um lado, antes de sentar no sofá e cruzar as pernas com aquele seu sorriso de relações públicas.
- Como você está? - a voz era suave e a expressão, solícita.
- É uma pergunta de retórica?
- Não fica na defensiva... eu tava preocupada.
- Posso saber por que agora?
- O Ronaldo me telefonou. Tem medo de que você ponha a tua carreira a perder.
- Ai, que lindo. Minha ex e meu agente preocupadíssimos comigo. Que comovente.
- Ajudaria se você parasse de nos ver como inimigos. Pára com essa teoria da conspiração, Marcelo. Ninguém quer te prejudicar ou te ver na pior. Essa vitimologia não pega bem em você.
- Deixa eu ver se entendi: por acaso eu tô tendo um bloqueio para atingir vocês? Se toca, Cristiana!
- Eu não falei isso, mas é que...
- Diz, diz o que você pensa uma vez na vida!
Ela descruzou as pernas e se afundou no sofá, com um gesto de impotência. O sorriso desaparecera por completo. Parecia tão sincera naquele momento que eu me arrependi da minha conduta pouco sociável.
- Quer beber alguma coisa? - ridículo, o meu rompante de civilidade.
- Ah, Marcelo... eu não sei mais o que pensar!
Notei que os olhos dela estavam avermelhados e muito brilhantes, como se fosse chorar a qualquer momento.
- Olha... nada disso é culpa tua, tá bom? Você não pode se sentir responsável por eu não conseguir gerenciar a minha vida. Isso é um problema meu.
- Mas olha o estado dessa casa... olha o teu estado! Você tá que nem um morto-vivo!
- Ah, muito obrigado.
- É sério! Você tem se olhado no espelho?
- Não.
Num gesto teatral, ela abriu a bolsa e sacou um espelho. Voltou a ser a empresária esperta, o encanto de fragilidade se quebrara. Ainda assim, me custou reprimir um grito de espanto ao ver a imagem de um velho cansado refletida no espelho que deveria mostrar meu rosto. Vencido pela realidade, relaxei a musculatura e me larguei no sofá ao lado dela.
Cristiana soube reconhecer o momento e não pensou duas vezes antes de encostar o corpo no meu. Minha falta de reação a incentivou a ousar um novo movimento: passou a mão pela minha nuca e roçou os lábios no meu pescoço. Tudo premeditado, claro. Mas não se deve subestimar o poder da sugestão, nem muito menos um homem em abstinência - voluntária, ainda que inconsciente. Em dois segundos, eu a enlaçava. Teria visto uma expressão de vitória no rosto dela? Desesperado para parar de raciocinar, afundei o rosto na curva do seu pescoço. |