Incrível como o gozo restaura o sono de qualquer criatura! Puxei meu braço dormente de debaixo dela e virei de lado. Vi, pela luz noturna a entrar pela janela, que já era noite, embora não tivesse a mínima noção do tempo decorrido desde a fatídica passada de mão na minha nuca.
- Cristiana... - chamei, tocando de leve no ombro nu dela.
Ela abriu um dos olhos e sorriu, se achegando mais a mim. Parecia outra: feliz, relaxada, sem aquele franzir de testa que deixava sua expressão rabugenta. Por um momento, nada falei. Deveria reconsiderar? Sabia que, se fraquejasse neste momento, a coisa ia crescer, num grande efeito-dominó. E, mais uma vez, terminar mal, com acusações mútuas e declarações de ódio eterno no lugar das de amor. Virei de costas para ter coragem de continuar:
- Você sabe que isso não deveria ter acontecido.
- Do que você tá falando?
- Eu tô falando de você entrar na minha vida de novo, quando a experiência já provou que a gente não tem mais nada a ver um com o outro.
- Mas eu pensei... - rebateu ela, já levantando o tom de voz.
- Você pensou que bastava uma boa trepada para eu me enquadrar no modelo de homem que você quer que eu seja.
Ela levantou do sofá, me empurrando para o lado com uma violência que quase me jogou ao chão.
- Eu não acredito que você tá falando isso! Você tem noção do quanto tá sendo filho-da-puta?
Caralho, como ela conseguia gritar tão alto? Deviam estar ouvindo minha filhadaputice lá da portaria. Me perguntava se Alicia Montez também ouvia. Provavelmente, sim. Mas esse breve esboço de raciocínio foi quebrado pela sacudida forte que Cristiana deu no meu braço.
- Você tá ouvindoooooo?
- Mas é disso que eu tô falando! Viu, não durou nem cinco minutos nossa breve reconciliação...
- Como ia durar? Você não está dando a mínima chance pra gente...
Furiosa, Cristiana catava as roupas espalhadas pelo tapete da sala. Vestiu a calcinha e o sutiã. Tremia tanto de raiva que abotoou a blusa enviesada. Pegou um dos sapatos e parou desorientada no meio da sala. E eu tive a nítida impressão de que ela considerou, por alguns instantes, enfiar o salto no meu olho.
Ela parou com as mãos na cintura, ainda seminua, e me veio um inconveniente acesso de desejo. Tive que me segurar para não possuí-la de novo, desta vez de pé, de encontro à parede, com toda raiva e tesão acumulados. Ela ia se debater e, logo em seguida, me puxar os cabelos com propriedade e tomar o controle da situação. Era tão chegada quanto eu a um sexo selvagem. Provavelmente gozaria antes de mim. É, nós somos dois sem-vergonhas... Mas não, eu não podia recomeçar esse círculo vicioso. Que merda. Continuei deitado, tentando pensar em algo broxante. Tentei manter a coisa num patamar racional:
- Não precisa se ofender, mas é que...
- Ah, não? Mas é claro que não. Hoje eu acordei com uma vontade fudida de ser usada e jogada fora como se fosse uma qualquer.
“Como se fosse uma qualquer” é uma expressão que sempre me incomodou. Quem a fala está sempre se colocando um degrau acima do resto da humanidade. Escrotice. O tesão, assim como meu sentimento de culpa, se evaporou na hora. Virei de costas e fiquei ouvindo os ruídos que ela fazia enquanto terminava de se vestir. Exagerados, é claro, para demonstrar sua fúria.
- Eu já vou indo - o tom agora era seco e controlado - qualquer coisa, você sabe onde me achar.
Num resquício de delicadeza - ou por força do hábito - me levantei e vesti o short às pressas para acompanhá-la até a saída.
- Desculpa a falta de jeito, mas é que...
- Esquece, eu é que não devia ter vindo - ela já tinha a porta aberta diante de si.
Uma daquelas estranhas conjunções ocorreu. Cristiana, com a porta aberta, à espera de uma retratação, formava uma linha diagonal comigo, um pouco mais para trás. A porta de Alicia se abriu de supetão e ela saiu, batendo-a com força. Ou seria irritação? Eu não saberia dizer. Só sei que ela estancou quando nos viu e meu olhar praticamente trespassou Cristiana, indo se encontrar com o dela.
Sobressaltada, Cristiana se voltou e encarou Alicia. Ela veio andando em direção ao elevador e, ao passar pelo estreito corredor rente à porta, um perfume amadeirado e selvagem me invadiu as narinas. Ela passou bem rente a Cristiana e me olhou de uma maneira que não sei definir: curiosidade, desdém, interesse? Ou um pouco de cada coisa?
Só quando ela entrou estrepitosamente no elevador antigo é que eu me dei conta de que a Cristiana continuava ali, de pé, me olhando ameaçadoramente. Aliás, não foi naquela hora. Se fosse, a situação seria menos patética. Foi um pouco além. O que me tirou do transe foi um som abafado, seguido de uma estranha ardência na face. E, mesmo assim, levei mais alguns segundos para entender o que havia acabado de acontecer. Cristiana havia me esbofeteado e descia às carreiras pela escada.