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FOLHETIM GOSTO DE SNGUE
TEXTO: ERIKA LIPORACI - ILUSTRAÇÕES: FRANCCI LUNGUINHO |
Rio de Janeiro, Sexta, 27 de Fevereiro de 2009 |
 

É, o pão acabou. Putz, logo na hora em que eu tava a fim de um sanduíche... iogurte, biscoito, queijo. Acabou tudo. Café ainda tem. Pelo menos, isso. Tá bom, eu sei que era só descer e comprar o pão na padaria da esquina, logo ali. Mas como explicar essa aversão a sair de casa que eu começara a sentir? Não havia exatamente um motivo. Era mais uma sensação de que seria invariavelmente abordado por um chato qualquer que me faria perder o precioso tempo que eu deveria estar dedicando ao trabalho. É, eu sei que não faz muito sentido - ainda mais considerando que eu não estava produzindo merda nenhuma - mas era exatamente esse o meu estado de ânimo.

Lembrei daquele filme ruim sobre a mulher reclusa que é sacaneada por uma gangue de hackers e não tem como provar a própria identidade porque ninguém sabia como ela era. Não, eu não corria esse risco. Afinal de contas, tive uma vida completamente normal até o ano passado. E mesmo que as pessoas se esquecessem de quem eu era, ainda tinha minha família... Mas por que eu comecei a falar nisso? Quais eram, na vida real, as chances de uma quadrilha virtual cismar logo comigo e alterar minha identidade? Eu, hein.

Na verdade, meus novos hábitos decorriam de um agravamento da minha habitual personalidade arredia. Agora que tinha um motivo plausível, há meses não saía de casa. Fazia compras por telefone e pagava contas pela internet. Praticidades da vida moderna. Não preciso nem dizer que a qualidade nutricional da minha alimentação foi ao chão. A lojinha de conveniência da esquina era minha principal abastecedora: cigarro, café, cerveja, pão, queijo, miojo. Era basicamente esse o meu sustento. Ia ter que fazer uma listinha e ligar pra lá. O sanduíche teria que esperar um pouco.

As besteiras que passavam pela minha cabeça eram só um pretexto para desviar minha atenção da confusão da noite anterior e do efeito que Alicia causava em mim, a cada dia mais devastador. Quando passou por nós no corredor, sua boca se abriu de leve e ela parecia ter algo a dizer. Mas provavelmente se sentiu constrangida por Cristiana. Pior, deve ter concluído que éramos namorados. Ou amantes. Caralho. Que merda levar a fama sem deitar na cama. O que não é verdade, já que eu havia me deitado na cama. Ou melhor, no sofá. Mas gostaria de ter evitado a fama. Comecei a me sentir muito aborrecido com Cristiana, por se interpor entre nós daquela maneira.

Decidi forçar um encontro “casual” com Alicia naquela noite. Já tinha reparado que ela saía todas as noites, por volta das dez, e retornava alta madrugada. A esta altura, já não tinha dúvidas sobre sua ocupação: ela era garota de programa, sim. Exatamente como supus a princípio. Das luxuosas, é claro, que se autodenominam escort girls e fingem praticar uma espécie diferente de prostituição mas, ainda assim, estava certo de que era tão puta quanto qualquer outra.

Não que eu pensasse em combinar um programa com ela. Acho que eu nem sabia o que pretendia. Era mais uma necessidade imperiosa, sem objetivo prático e desprovida de intenções que minha confusa cabeça conseguisse identificar. Só sabia que era preciso estabelecer um contato.

Para passar o tempo e tentar me inspirar, resolvi apelar para a sétima arte. Coloquei no vídeo-cassete (não, eu ainda não tinha DVD) uma cópia antiga e meio mofada de Pacto de Sangue, obra que sempre considerei um modelo de film noir a ser copiado. Billy Wilder fugiu do lugar-comum: nem policial, nem detetive. Um agente de seguros era o alvo da mulher fatal vivida por Barbara Stanwick. Uma profissão igualmente útil no caminho de uma mulher ardilosa e desprovida de caráter.

O que eu sempre achei singular nesse tipo de trama é que o cara tem todas as chances de escapar da furada em que está se metendo, mas sempre segue adiante. O sujeito é durão, cínico e espertíssimo, mas sucumbe a uma cruzada de pernas de uma mulher que geralmente promete muito e não cumpre nada. E, no entanto, parece fazer todo o sentido do mundo.

Sete horas. Havia tempo de sobra para terminar de ver o filme. Eu tinha que me controlar. Afinal, nem tinha conseguido determinar uma estratégia. Só tinha me decidido por simular ir à lixeira do corredor quando a ouvisse saindo. Deixei a porta só encostada. Considerando a rapidez com que Alicia costuma se locomover, minha fechadura de quatro voltas seria um obstáculo.

Logo eu, que tinha acabado de criticar a implausibilidade das histórias detetivescas, estava prestes a fazer uma tremenda palhaçada só para ver uma mulher que era o que se convencionou chamar de “chave de cadeia”. Desconhecia qual era a dela, mas estava bem claro que não podia ser boa coisa.

Minha cabeça doía. Era um esforço me concentrar nas legendas do filme. A toda hora, tinha que dar pausa na fita e rebobinar para recuperar um diálogo perdido. O pior é que não conseguia entender porque estava tão angustiado. Na tela, a louríssima Barbara ganhou as feições morenas de Alicia Montez. Pisquei repetidas vezes e Stanwick acabou por retornar à tela.

Cinéfilo de carteirinha que sou, nunca pensei chegar ao ponto de não conseguir ver com clareza um filme. Mas minhas dúvidas sobre Alicia me afetavam mais do que a obra-prima de Billy Wilder. O filme estava já por acabar e aquela trama, que tanto prazer me dera nas outras vezes, agora só me entediava.

Acordei sobressaltado com o alarme de incêndio. À minha frente a tela cheia de chuviscos e a fita expelida para fora do vídeo denunciavam que o filme acabara seu curso natural e havia sido rebobinado há tempos. Será que estive sonhando? Ou apenas perdido demais em meus próprios pensamentos para notar que me desligara completamente da Terra enquanto tentava assistir ao filme?

Olhei para o relógio. Dez e meia. O alarme tocou novamente. Só então percebi que não se tratava de alarme nenhum. Era a campainha.

***
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