|
Não estou acostumado a receber visitas. A não ser, é claro, dos meus fiéis entregadores. E eles costumam ser anunciados pelo porteiro. Surpresa maior do que essa só encontrar aquela figura parada no limiar da porta. Um sujeito baixinho e com cara de invocado, incrivelmente parecido com o Danny DeVito, fumava um charuto fedorento bem na minha porta. “Devo estar sonhando ainda”, pensei.
- Marcelo Fontes?
- Pois não?
- Podemos conversar?
- Como você subiu?
- O porteiro estava conversando com o zelador e...
Típico. Pra que se paga condomínio nessa merda?
- Sem querer ser grosso, meu amigo, quem é você?
- Ah, me desculpe...
O baixinho pôs a mão dentro do paletó surrado e, por um momento, achei que ia sacar uma arma. Mas ele me estendia um inofensivo cartão de visitas. Alberto Montenegro. Detetive particular. Abaixo, um número de telefone celular. E só. O que só acentuou a impressão preliminar de que ainda estava sonhando.
Atordoado, cedi passagem a Alberto Danny DeVito Montenegro, que rapidamente adentrou no apartamento. Eu ainda não entedia como qualquer um conseguia entrar com tanta facilidade naquele prédio.
- Desculpe o adiantado da hora, mas é que...
- Senhor Montenegro...
- Alberto.
- OK, Alberto... eu agradeceria se você fosse direto ao assunto. Eu realmente não estou nos meus melhores dias.
Ele tirou outra longa baforada do charuto e eu tive a nítida impressão de que tentava ganhar tempo para me estudar melhor e decidir que tática usar. Se aproximou com estudada casualidade da minha estante. Fingia examinar as lombadas dos livros com um interesse que deixaria no chinelo qualquer acadêmico. Tossi discretamente. Alberto Montenegro se sobressaltou, simulando ter despertado de um momento de alheamento qualquer. Bem ensaiado, o cara.
- Eu estou num caso meio complicado, Marcelo. Posso te chamar assim?
- Pode, pode.
- Uma cliente muito rica, uma dessas damas que vivem nas colunas sociais, me procurou há algumas semanas. Ela andava meio desconfiada do marido, sabe como são essas coisas...
- E o que eu tenho a ver com isso?
- Calma, eu vou chegar lá. Bom, vou cometer indiscrição de te contar que esse rico senhor não era fácil. Na verdade, eu poderia ter encerrado meu trabalho logo nos primeiros dias, mas quis ter certeza absoluta.
- Mesmo porque você cobra por dia... - completei maliciosamente.
Ele ficou sem jeito, mas prosseguiu:
- De qualquer modo, eu deixei a isca escapar outro dia. Ele estava numa boate perto daqui, num papo animado com uma bela senhorita e, quando eu olhei novamente, não estava mais lá. E, desse dia em diante, ele simplesmente desapareceu. No ar.
- Não entendo ainda onde você quer chegar.
- Ele desapareceu, mas eu consegui uma pista da moça. Digamos que ela é bem conhecida no tal estabelecimento. Embora as pessoas que freqüentam esse tipo de antro não sejam muito de abrir o bico, a gente sempre consegue pescar uma coisinha aqui, outra ali...
Ele parou no meio da frase, dramaticamente, e eu tinha certeza de que a pausa não tinha outro motivo senão me avaliar. Continuei impassível.
- Bom, sem mais rodeios, tudo leva a crer que a suspeita seja a sua vizinha.
Meu sangue gelou à menção dela.
- E quando foi que isso aconteceu?
- Agora vejo que se interessou! - a mudança na minha atitude não passou despercebida - semana passada, mais precisamente na sexta-feira. Você se lembra do que fez nesta noite?
Embora minhas noites ultimamente fossem todas meio parecidas, eu me lembrava muito bem da de sexta-feira. Foi a noite em que Alicia chegou nervosa e suja de sangue. Apesar de não dever nenhum tipo de solidariedade a ela, respondi com um seco não. Danny DeVito Montenegro ainda insistiu:
- Espero que você saiba o perigo que está correndo, tendo uma assassina em potencial vivendo na porta ao lado.
- Peraí! Eu pensei que o marido da sua cliente estivesse apenas desaparecido.
- Eu estou nesse ramo há tempo demais para me enganar... ele está morto, meu caro. Espero que você não seja a próxima vítima.
Não cedi às tentativas dele de me intimidar. Mesmo porque não tinha tanto apego à minha miserável vida como ele poderia supor.
- Você é o detetive. Ainda não entendi como eu poderia ser útil. Por que você simplesmente não segue a garota?
- Foi a primeira coisa que eu fiz. Mas a desgraçada parece ter algum tipo de sexto sentido. Todas as vezes que eu estava de tocaia, ela saía, dava uma volta pelo quarteirão e voltava para casa.
Olhei para ele e deduzi que não seria preciso ser telepata para perceber uma figura tão caricata. Mas entrei no jogo:
- Talvez ela só quisesse tomar uma fresca.
- Tá bom...
- O que te dá tanta certeza de que ela tem algo a ver com isso?
Ele estremeceu e, pela primeira vez, mostrou uma certa vulnerabilidade em seus trejeitos tirados das histórias policiais. Finalmente captei uma sombra de sinceridade em seus olhos.
- Eu não tinha, até pôr os olhos nela. Ela tem um jeito que me dá arrepios.
Inconscientemente, assenti. |