Após a saída de Alberto Montenegro, tenho a plena consciência de ainda ter ficado vários segundos fitando a porta fechada. Minha confusão mental, que já não era pouca, atingiu níveis estratosféricos. Alicia Montez sempre me despertara um certo sobressalto, mas assassinato! Era um pouco demais até mesmo para um romance policial. Foi então que caiu a ficha. Como pude ter sido tão cego? A história que eu deveria escrever estava se desenrolando diante dos meus olhos!
Liguei o computador, excitado. Não acreditava que tivesse demorado tanto para me mancar! Várias situações altamente dramatúrgicas bem ali, debaixo do meu nariz, e eu comendo mosca! É claro que eu estava partindo do pressuposto de que ela realmente matara o sujeito. Caso contrário, não teria história. Agora só me restava imaginar os motivos do assassinato. Não seria difícil, meu maior bloqueio sempre foi começar o texto. Uma vez dado o pontapé inicial, o resto fluiria com facilidade. Vejamos... Certamente teria que haver uma bolada qualquer envolvida. Crime passional não rende. Mesmo porque mulheres como Alicia costumam agir friamente, impulsionadas por algo palpável. Ri de mim mesmo. “Mulheres como Alicia...” Desde quando me tornei um especialista? Bom, o importante que é que minha cabeça fervilhava de opções.

Vinte folhas. Vinte gloriosas laudas de computador, escritas com precisão e estilo irretocáveis. Estava tudo lá: mistério, fina ironia, leve toque de erotismo e, sobretudo, inteligência. Uma vez impulsionada, a imaginação realmente não tem limites. Duvido que a Alicia real pudesse ser tão pérfida quanto Alexia, a versão de Alicia construída na minha imaginação.
Alexia era a chamada viúva negra: casava-se com homens velhos, ricos e, de preferência, doentes. Daí para uma fortuna milionária era uma questão de paciência. Até o dia em que encontrou um marido, digamos, sem vocação para defunto. Apesar de sua saúde debilitada, passam-se anos e o dito cujo continua vivo. É então que Alexia comete seu primeiro erro: tentar apressar o destino, achando que o fato do Sr. Bulhões não possuir parentes para questionar a herança era uma senha para livrar-se logo dele.
O que não estava nos planos da bela assassina era o advogado do Sr. Bulhões começar a investigar a queda fatal de seu cliente da escadaria da mansão. De repente, Alexia se via obrigada a responder sobre seus passos naquela noite.
É claro que ela fora cuidadosa: dera folga aos empregados. Depois esperou que ele adormecesse e deu sumiço no garrafinha d’água que ele mantinha ao lado da cama - já estava por demais acostumada com cada mania do velho babão. Quando ele acordou no meio da noite e deu por falta da garrafinha, chamou-a. Ela fingiu dormir. Sabia que ele tinha uma sede incontrolável à noite e logo, conforme previra, ele se levantou cambaleando para ir à cozinha buscar outra garrafa. Foi só segui-lo com passos leves.
Um empurrão certeiro. Tudo limpo e inquestionável.
Ela pensara em cada mísero detalhe. Era uma esposa dedicada, irrepreensível. Nunca caíra na besteira de arrumar amantes enquanto estava casada. Enfim, não havia nada que a incriminasse. A não ser que o advogado em questão fosse perspicaz o suficiente para descobrir que Alexia tinha uma trilha de maridos mortos atrás de si.
Essas eram as bases do romance. O próximo passo era desenvolver a aproximação entre Alexia e o advogado Maurício, meu alter ego. Ela fatalmente tentaria seduzi-lo, deixando-o dividido. Maurício ficaria num impasse, mesmo convencido da culpa de Alexia. Uma estranha solidariedade que em nenhum momento fora solicitada, mas que o uniria àquela mulher. Só não me decidira ainda se ele a entregaria à polícia ou a perdoaria. Honestidade em conflito com o amor: quem levaria a melhor? Mas ainda era cedo para decidir o desfecho.
O alívio que eu sentia era indescritível. Estava a ponto de pensar que nunca mais conseguiria escrever nada. Típico. Sempre tive essa tendência a me autodepreciar, que só se multiplicou quando um problema real surgiu.
Mas talvez o pontapé inicial do romance seja também o marco de uma nova fase para mim. Por que não? Basta eu me esforçar um pouquinho para mudar. Mesmo porque nunca fui feliz me agarrando ferrenhamente a esse meu jeito esquisitão de ser.
Uma resolução daquelas merecia uma comemoração. E, como primeira medida do novo homem que eu pretendia ser, resolvi abrir um precedente em minha reclusão voluntária e descer para tomar um chope. Era tarde... mas e daí? Morar em Copacabana tinha lá suas vantagens.
Tomei um banho ligeiro e não me preocupei em fazer a barba. Estava começando a gostar desse visual largadão, me dava um ar despojado e casual. Olhei meu rosto no espelho e me pareceu muito melhor do que no dia em que Cristiana me disse que eu parecia um zumbi. Tinha certeza de que meu estado de espírito positivo contribuía para isso. Estava muito satisfeito comigo mesmo!
Pensei em ligar para o Ronaldo e tranquilizá-lo, tamanha era minha vontade de restabelecer a harmonia com o resto do mundo. Cheguei a pegar no fone e discar o número. Felizmente, olhei o relógio de parede a tempo. Era quase de manhã. Como ainda não tinha perdido meus últimos resquícios de educação, desliguei rapidamente. Para que a pressa? Dentro de algumas horas, haveria muito tempo para dar as boas novas ao meu zeloso agente. Agora, ao chope!
Animado, abri a porta. No mesmo instante, ainda segurando a maçaneta, congelei. Para ser sincero, quase gritei pelo susto de ver Alicia parada na soleira.
- Posso falar com você? - disse ela, num sotaque carregado.
Era a primeira vez que ouvia sua voz, e aquele acento estrangeiro me desestabilizou completamente. Apenas assenti, cem por cento aparvalhado, e fiz sinal para que entrasse. Ela esticou o pescoço e olhou para os lados antes de pisar dentro do apartamento. Só então entrou, como se tivesse acabado de ver algo que fosse do seu agrado. Ficou parada no meio da sala, como se analisasse tudo ao redor. Indiquei o sofá, mas ela ignorou. Parecia determinada a ficar de pé, como se estivesse para bater em retirada a qualquer momento. Não era uma mulher alta. Mas era, sobretudo, altiva. Parecia muito orgulhosa e segura de si. Reparei que seus grandes olhos negros estavam em estado de alerta.
- Acho que estou devendo uma apresentação e desculpas por aquele dia no corredor - o sotaque era argentino, sem dúvida.
- Deixa isso pra lá. Além do mais, eu já sei o seu nome. Alicia, certo? - é claro que não pretendia admitir que conseguira tal informação mexendo em sua bolsa.
- Aquele homem esteve aqui ontem, não foi? - o tom dela não admitia escusas ou subterfúgios.
- Esteve.
- Veio fazer perguntas a meu respeito?
- Mais do que isso. Ele parece convencido de que você está envolvida em algo suspeito.
- Acho que ele disse mais do que você está me dizendo...
- Tenho que reconhecer que ele conseguiu me deixar preocupado. Fez perguntas justamente sobre aquele dia.
- Que dia?
- Você também sabe mais do que quer aparentar - era minha vez de dar o troco - Mas pode ficar sossegada: eu não disse nada a ele.
Ela sorriu, aliviada. Parecia emocionada. Olhou ao redor e finalmente se sentou, como se só então, de alma leve, tivesse enxergado o sofá.
- Ele tem me seguido - ela pareceu hesitar - Olha, eu sei que não tenho direito de te pedir nada, mas eu imploro por ajuda. Me diz, quem é esse homem? É da polícia?
- Não, ele é detetive particular e eu não creio que a polícia esteja envolvida. Pelo menos, ainda não. Ele estava seguindo um cara e acha que você o matou.
Ela pareceu sentir o peso do meu olhar. Olhou os bicos dos sapatos por um longo tempo, sem nada dizer.
Depois passou a mão pelos cabelos, numa clara tentativa de ser sedutora. E, por fim, me encarou, séria.
- Você não pode entender, e muito menos ele... aliás, você não iria nem acreditar!
- Eu estou disposto a ajudar você, mas preciso saber da verdade - por que cargas d’água eu estava dizendo aquilo?! - Você matou o cara?
Ela engoliu em seco, indecisa, antes de explodir num grito que era quase um uivo de animal ferido:
- Eu precisei!
Eu não sabia como agir diante da confissão. Por que disse que a ajudaria? Antes, por que a forçara a me dizer algo do qual seria melhor não ter conhecimento? No entanto, ela não me parecia culpada. Ela levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, nervosa.
- Olha... foi em defesa própria, tá bom? Me diz uma coisa: você acha que eu corro perigo de ser presa?
- Não. Ele não tem provas. Só sabe que você esteve com o cara, mas perdeu vocês de vista dentro da boate. A não ser que apareça uma testemunha, ele não pode fazer nada.
- Não vai aparecer nenhuma testemunha - sentenciou ela, sombriamente, ao se encaminhar para a porta. Alcancei-a antes que ela a abrisse e se desvanecesse novamente.
- Acho que eu tenho o direito de te fazer uma pergunta também.
Ela pensou por um momento antes de fazer um sinal afirmativo com a cabeça.
- Você me parece uma garota de boa família e educação... - eu procurava o modo menos ofensivo de abordar o assunto – e... bom, o detetive... Não sei se é verdade, mas ele insinuou que você era habituée daquela boate...
- O que você está tentando me perguntar?
- Resumindo, Alicia: o que leva uma garota como você a trabalhar na noite?
Ao finalmente entender o que eu estava tentando perguntar, ela relaxou e até esboçou um sorriso:
- Eu estou implicada em um assassinato e você me vem com colocações de ordem moral?
- Não, não se trata de moralismo... É mais curiosidade. Ora, você tem que admitir que é surpreendente...
- OK, vou fingir que acredito que é simples curiosidade. Mas, infelizmente, tudo que eu posso te dizer é que eu precisei entrar nesse ofício. Como é que dizem? “A profissão mais antiga do mundo”.
- Você usa muito o verbo “precisar”, não é? Precisou cair na vida, precisou matar um cara...
Tão logo falei, percebi que havia passado dos limites. Mesmo considerando que estava meio que acobertando o crime dela. Ela me olhou muda em seu desprezo e abriu a porta, fechando-a às suas costas.