 |
|
| |
 |
Sim, o livro iria se chamar “Gosto de Sangue”. A cada dia, a idéia me seduzia mais. Àquela altura, já não estava nem aí para o caso de algum babaca detectar - e sempre tem um escroto de plantão pra isso - a origem do título. Qual o problema? Não ia abrir mão, já me sentia mais dono do título do que qualquer um. Era perfeito. Instigante, forte, sonoro. Já até imaginava a capa, toda preta, com letras góticas vermelhas. Simples assim. Pegaria o leitor na unha, com o sugestivo título a lhe saltar aos olhos. Quantas vezes não se compra um livro, ou se assiste a um filme, apenas pela força de um título?
Meu último sopro de escrúpulo ficaria satisfeitíssimo com uma breve menção ao filme de Ethan e Joel Coen. E pronto. Plágio travestido de homenagem. Inseri uma página em branco no início do arquivo e digitei, em escandalosas letras Tempus Sans, tamanho 48, negrito: “Gosto de Sangue”. Embaixo, mais discretamente, meu nome. Bacana.
Mas continuemos com a história. Onde eu estava? Maurício não tem mais dúvidas de que Alexia é uma assassina. E não foram só os dois assassinatos que ele supunha a princípio: Alexia Bulhões - ou seja lá qual for seu nome verdadeiro - já fora Laura Carnevale, Maria Gonzalez, Gabriela Toledo, Patricia Romero... isso se não houvessem outras identidades que ele não chegara a descobrir. Todas viúvas. Todas obscenamente ricas.
No começo, ainda nutria uma ridícula esperança de que essa sucessão maridos mortos fosse apenas uma infeliz coincidência. Uma estranha vocação para a viuvez. Ou praga de mãe, tanto faz. Tão funesta que levaria Alexia a mudar de nome para tentar se livrar da maldição. Mas é como dizem: quem procura acha. E Maurício tanto procurou que um dia achou a prova da culpa de Alexia.
Ele estava no escritório, trabalhando até mais tarde para tentar esquecer o poço sem fundo em que estava se metendo, quando seu sócio Ivan passou para buscar uma pasta de documentos que esquecera. Dado o adiantado da hora, Maurício resolve encerrar por ali e tomar uma cerveja com Ivan. Precisava relaxar e também fazer uma social. Conversa vai, conversa vem, e Ivan solta a bomba:
- E o Sr. Bulhões, hein?
- O que tem ele?
- Nem teve tempo de procurar a filha.
- Que filha? Ele não tem filhos, aquela moça era a esposa do Sr. Bulhões...
- Ah, Maurício! Às vezes você parece idiota. Eu não estou falando da Alexia Bulhões. Pouco antes de morrer, o Sr. Bulhões descobriu que tinha uma filha. Uma ex-amante para quem ele pagou um aborto, ou assim achava. A história clássica: a mulher pegou o dinheiro e deu no pé. Anos depois, resolve abrir o jogo.
- Mas por que você não falou antes? Ela tem que ser incluída na partilha!
- A ex ficou de se encontrar com ele para conversar, mas eu não sei se eles chegaram a se entender.
- E como você sabe disso?
- Ele me avisou que logo iria refazer o testamento. Chegamos a marcar uma reunião. Mas ele morreu no dia seguinte.
Maurício não dizia nada, mas estava assombrado. Ela o eliminara às pressas! Sempre achara essa morte meio passional. Agora tudo se encaixava.
Naquela noite, o corpo de Alexia lhe provocou o desejo costumeiro. Mas, uma vez saciado, se afastou dela na cama. Ela pergunta o que está havendo. Ele desconversa e simula sono.
No café da manhã, ela parece observá-lo. Mas também se mantém muito calada e séria. Formal, até. Ela sabia que ele sabia, era isso. Mas, ainda assim, não parecia se entregar a ele por obrigação. Pelo contrário, demonstrava tristeza ao perceber que estava sob seu julgamento.
É isso que lhe excitava e tirava o sono. A certeza de que ela tinha se não amor, pelo menos prazer quando estavam na cama. Ele a satisfazia, e não acreditava que fosse tudo fingimento. Ou estaria ele tão cego quanto aquela penca de maridos mortos?
Maurício estava apaixonado e indeciso, mas não eu. Já havia me decidido quanto ao futuro de minha sórdida protagonista. Ao perceber que o incorruptível Maurício não compactuaria com seu crime - pelo contrário, a entregaria à polícia -, Alexia se mataria. Seu gesto simbolizaria o único tipo de redenção que uma mulher como ela poderia oferecer a alguém. É claro que o gesto continha, ao mesmo tempo, uma dose de mesquinharia. Que homem poderia conviver com o pensamento de ter provocado a morte da mulher por quem se apaixonara?
Moral dúbia, bem ao gosto dos leitores. Ia ser um sucesso, eu sentia! Talvez futuramente até rendesse uma adaptação para o cinema, com direito a um “baseado no romance de Marcelo Fontes” em letras garrafais na telona. O que importa é que eu passaria a ser identificado como um escritor de verdade. Chega de páginas policiais, colunas sociais, horóscopo, receita de bolo... estava debutando na intelectualidade!
Meu mistério ficcional estava por acabar e eu me perguntava se, junto com ele, definharia meu fascínio por Alicia. Não era essa a função de uma musa? Evaporar-se uma vez cumprida sua função? Naquele dia, quase me convenci de que minha obsessão era motivada pelo livro. Talvez por conta desse simulacro de libertação tenha trabalhado freneticamente, tentando sinceramente dar o livro por terminado. Fim. Uma pequena palavra que poderia significar minha alforria.
Escrevi desde a manhã, quando acordei com o que parecia uma ressaca das tulipas que não tomei na noite anterior. Quer dizer, acordar não é a palavra. Não sei se cheguei a dormir em algum instante... Que dia era hoje mesmo? De todo modo, o zumbido dentro da minha cabeça não era nada diante da perspectiva de concluir o trabalho. Que se foda. Não parei para almoçar. Só levantava ocasionalmente para despejar uma urina escurecida pelas doses cavalares de café.
Não sei bem que horas eram quando surtei - mais uma vez, ainda que numa modalidade diferente -, mas tenho certeza de que era de tardinha. Me lembro de ter reparado no sol que começava a se esconder, mas não tenho lembrança de ter visto a chegada da noite. Só sei que desabei sobre o teclado. Talvez tenha desmaiado, talvez entrado em transe. Vai saber. Talvez alguns homenzinhos do espaço sideral tenham me dopado, feito experiências sodomitas comigo na nave-mãe e depois me devolvido ao exato lugar em que me encontrava antes. Possível. Não tenho explicação para o alheamento que me dominou. Só recobrei alguma consciência da minha pessoa, ou do que restou dela, quando ouvi o indefectível ruído da minha bela musa saindo para uma nova caçada. Foi a primeira vez que formulei, ainda que para mim mesmo, a certeza de sua culpa.
Eu poderia dizer que era meu instinto jornalístico falando mais alto. Ou, então, o amor a meu romance. Mas a verdade é que sentia um aperto no peito que não conseguia explicar. Me comportava com o viciado em drogas, dizendo que pararia na hora que quisesse. Ao mesmo tempo em que repetia para minha imagem no espelho que ela era perigosa, me enganava com auto-adulações: “você foi o cara que detonou uma rede de pornografia sozinho” e coisas desse tipo.
É claro que eu sabia melhor do que ninguém que, além do fator sorte, não tive muitos méritos naquele episódio. Só o que aconteceu foi que eu descobri um ex-membro da quadrilha arrependido e convenci o cara a me contar tudo. Enquanto ele se debatia em dilemas existenciais, eu tomei a frente e contei tudo à polícia como se tivesse me infiltrado entre eles e descoberto tudo sozinho. Antes que me acusem de oportunista, devo dizer que foi um grande negócio para ambas as partes. O pedófilo arrependido continua gozando de sua liberdade, e sem medo da vingança de seus antigos comparsas. E eu... bom, isso vocês já sabem. Eu saí do limbo para um promissor e admirável mundo novo.
Menti a mim mesmo, como já havia virado hábito. Meu livro estava num momento crucial. Era hora de decidir o desfecho e eu precisava de novos elementos para me inspirar. Abri a porta suavemente. O corredor estava vazio e, pelo indicador numérico do elevador, ela havia acabado de entrar nele. Antes que chegasse a uma avaliação mais realista das minhas capacidades, desci as escadas correndo. Rezava para que os óculos de lentes grossas com os quais ela nunca tinha me visto e o rosto recém-barbeado me dessem alguma cobertura, por mais débil que fosse.
Alicia caminhava sem parecer temer os meninos sob as marquises que, por sua vez, pareciam estar vendo alguma criatura sobre-humana. Percebi que não era o único afetado pela poderosa força que irradiava dela. Ela andava rápido e com elegância, como se estivesse numa passarela. Vez ou outra, um carro diminuía e buzinava. Mas ela seguia no mesmo ritmo, imperturbável. Ainda que estivesse preparado para aquilo, não pude deixar de me arrepiar quando ela entrou na boate Penélope. Esperei alguns segundos e fui atrás.
Alicia era conhecida no local. Isso era fácil de perceber, conforme ela avançada e cumprimentava com um meneio de cabeça inúmeras pessoas - desde o barman até alguns clientes. Quando estava a alguns passos de uma mesa reservada, uma das garçonetes fez um sinal discreto. Alicia se aproximou e, logo em seguida, a moça cochichou algo em seu ouvido. A mudança que se operou nela foi instantânea: o meio sorriso congelou numa máscara de tensão.
Acompanhei o olhar enviesado das duas até um homem de meia-idade no balcão. Reparei que ele parecia não ter a mínima consciência da tulipa de chope de aspecto choco diante dele. Seus olhos dardejavam as pessoas que entravam na casa e, nesse exato momento, se pousavam sobre mim. Não pude deixar de perceber que minha atitude esquisita, parado no meio do bar com olhar perdido, permitira que Alicia e a garçonete olhassem para ele sem atrair sua atenção. Enquanto eu decidia o que fazer, ela se encaminhou para a porta. Fiquei com medo de segui-la e atrair a atenção do homem que, a essa altura, eu não tinha dúvidas de ser um policial civil. Sem contar que não saberia como reagir à possibilidade dela perceber que estava sendo seguida. Não, achei até bom que o cara estivesse momentaneamente interessado em mim. Após meses de reclusão, me sentei no bar e tomei uma cerveja como se fizesse aquilo todos os dias.