A estranha correlação entre nós dois e os personagens do livro saía de meu controle. Claro que, a princípio, havia sido intencional. Mas agora eu sentia que fazia de Maurício uma catarse de minhas frustrações. Quando descrevia o modo como ele e Alexia se amavam, extravasava minhas mais secretas fantasias no papel.
Ledo engano achar que ter um prazo a cumprir anestesiaria minha curiosidade a respeito das investidas noturnas de Alicia. Sabia que não devia me meter nos assuntos dela. Disse para mim mesmo que já estava mais atolado do que deveria estar. Afinal de contas, acobertei um crime. Seja qual for a motivação, legítima defesa ou coisa que o valha, houve um crime. E ela se confessara criminosa. Já que não fizera a coisa certa, por que eu não deixava pra lá e saía do jogo enquanto estava no lucro? Era o mínimo. Mas não. Na noite seguinte, a segui novamente.
Ao invés entrar na Barata Ribeiro rumo à Penélope, Alicia seguiu em direção à praia de Copacabana. Não estranhei, depois da tensão que imperava na boate na noite anterior. Mantive uma distância segura. Não queria ser surpreendido. Seria no mínimo patético se ela olhasse para trás e me visse na sua cola.
A maresia bateu forte não apenas no olfato, mas em todos os meus outros sentidos. Considerando que estávamos num outono excepcionalmente frio - para os padrões do Rio de Janeiro, é claro -, a orla estava pouco movimentada. Além dos costumeiros vagabundos de praia, distingui uns poucos turistas que, com aquele tom rosado na pele, equivaliam a patinhos numa galeria de tiro ao alvo. Nunca entendi como é que esses putos conseguem se bronzear com qualquer solzinho de merda.
Alicia parou num quiosque e pediu uma cerveja. Mas deixou a garrafinha long neck esquentando no balcão sem dar um único gole. Eu fiquei de longe, por trás de um carro estacionado, meio de costas. Fingia estar incrivelmente interessado no vaivém das ondas, mas minha visão periférica fotografava cada movimento dela.
O quiosque estava pouco movimentado. Ainda assim, não levou nem cinco minutos até ela começar a flertar desavergonhadamente com um turista que estava sentado sozinho. Com o rabo do olho, acompanhei os olhares sensuais com que ela brindava o sortudo da noite. Me perguntava se o cara percebera que se tratava de uma prostituta ou se ele estaria se sentindo o tal. Para meu total espanto, o gringo começou a desviar o olhar quando percebeu o assédio. Logo entendi o motivo: alguns minutos depois um rapaz se aproximou, sentando-se ao lado dele. O gringo apontou carrancudo para o relógio, mas logo estavam na maior camaradagem. Notava-se que os dois já se conheciam de outros carnavais.
Não pude conter uma risadinha. Péssima idéia, Alicia. Foi então que percebi que ela já tinha mudado de alvo. Trocava olhares, desta vez correspondidos, com um sujeito numa outra mesa. Ele estava com mais três amigos, alheio à conversa e vidrado no que deveria estar encarando como um presente dos céus.
Dei uma sacada no tipo: baixinho, magricela, de óculos e, ainda por cima, com um penteado que era uma visível tentativa de esconder a calvície. O cara estava ligeiramente bêbado mas, mesmo de porre, parecia não acreditar que aquele mulherão estivesse dando em cima dele. O modo como ela olhava fascinada para ele quase convencia a mim! Comecei a ficar muito puto com os dois. Com ela, por ser tão dissimulada; e com ele, por ser tão babaca. Ele não se mancava que, nem em sonho, uma mulher daquelas poderia se interessar por ele?
Morreria antes de admitir que, na verdade, sentia ciúme.
Depois do que pareceu uma eternidade, ele tomou coragem e foi até o balcão falar com ela. Na mesa, os amigos riam. Babacas. Alicia fazia charminho. Pendia a cabeça para um lado, o que fazia com que seus cabelos lhe caíssem misteriosamente no rosto. Ele falou alguma coisa no ouvido dela e ela riu, dando-lhe um tapinha amistoso no braço. Quando ela, dissimulada que só, passou a mão no rosto dele, fiquei realmente possesso. O grande babaca era eu.
Não demorou para que saíssem dali. Todo cheio de si, o cara piscou o olho para os amigos que, a essa altura, já tinham trocado a gozação pelo assombro. Foram caminhando devagar pelo calçadão. Ele disse algo. Ela riu, descontraída, e pegou no braço dele com a maior intimidade. Vaca.
Deixei que tomassem uma pequena distância e fui atrás. Mais uma vez, tinha consciência de que poderia estar me metendo em algo além da minha compreensão. Paciência. Agora que havia começado a interpretar esse papel ridículo, era meio tarde para voltar pra casa com o rabinho entre as pernas.
Esfriava. Olhei o termômetro digital: 16º. Parecia mais frio. Mas talvez fosse apenas meu estado de ânimo que me deixava gelado. Eles não pareciam estar sentindo frio algum.
Mas onde, afinal, estavam indo? Por que tantos rodeios? Imaginei que logo atravessariam a avenida Atlântica, rumo a qualquer hotelzinho vagabundo da Barata Ribeiro. A não ser que o barato dele fosse justamente esse jogo da prostituta que finge não estar habituada àquilo. Já tinha ouvido falar de caras assim: têm tara por putas, desde que elas finjam não o ser.
Ensaiaram uma descida para a areia da praia. Alicia se abaixou na beira do calçadão para tirar os sapatos. Ele já estava embaixo, e parecia ridiculamente mais tampinha do que era. Quando ela finalmente terminou de se desvencilhar dos sapatos apoiada no ombro dele, ele a agarrou pela cintura e içou-a para baixo. Desequilibrou-se com o peso extra, mas não chegou a cair. Otário.
Deram a volta ao marco que delimita os “postos” da praia - no caso, o Posto Três - e se esconderam atrás, de forma que não podiam ser vistos por quem eventualmente passasse no calçadão. Merda! O que fazer agora? Dali da calçada não conseguia vê-los, e obviamente não podia me aproximar mais. Tanto trabalho por nada. Teria que voltar para casa, mais frustrado ainda. Ou então ficar ali, que nem um dois de paus, e correr o risco de ser surpreendido quando eles voltassem do seu idílio.
Devido ao meu estado de indecisão, me deixei ficar inerte por alguns minutos. Ainda não compreendia o porquê daquele local. Por que uma mulher como Alicia faria um programa na areia da praia? Provavelmente, estavam transando de pé. Ou rolando na areia. Definitivamente, não fazia sentido.
Fui arrancado desse estado de dúvidas e alheamento por um grito. Mas não um grito qualquer. Um grito gutural e enlouquecido. Nunca ouvira antes tamanho pavor numa voz humana. Vinha dali.
Mesmo nunca tendo ouvido sua voz, tive certeza de que era ele quem gritava. Meu primeiro instinto foi correr até lá, mas felizmente me detive a tempo. Algo me paralisou no último instante. Logo percebi o que havia de bizarro na situação: não ouvia a voz dela. Ele continuou gritando, num ritmo decrescente, e era como se estivesse sozinho lá atrás.
Pausa. Silêncio total, com exceção do barulho das ondas. E agora? Estava prestes a mandar tudo para o alto e descer até lá quando ele gritou novamente. Dessa vez era um grito diferente. Parecia engasgado, sufocando, sei lá.
Que merda era aquela? Não estava entendendo nada, mas fiquei petrificado. Depois de um lapso de tempo que eu não sei precisar se foram segundos ou minutos, finalmente ouvi Alicia. Ela emitiu um som que até hoje não consigo definir. Um som animalesco, algo entre um uivo e uma gargalhada histérica. Só sei que era apavorante! Percebi que agora não ouvia mais o cara. Caralho! O que ela tinha feito com ele?
De repente, ela surgiu no meu campo de visão novamente. Saiu caminhando rápido e com passo firme, percorrendo o caminho inverso. Caí sentado, meio encoberto por uma bicicleta que estava acorrentada na grade do posto. À luz do luar, tive apenas um vislumbre dela. Ela emergira da areia num movimento único, e logo estava de costas para mim. Mas aquele segundo solitário bastou para que eu visse sua boca brilhar com uma substância viscosa. Sangue, eu tinha certeza.
Continuou caminhando, inabalável, e logo sua silhueta tornou-se apenas um borrão. Suas passadas sólidas me davam a terrível certeza de que estava bem acostumada a situações como aquela. Antes que sua imagem perdesse a nitidez, ainda pude ver que tirara algo da bolsa. Parecia um lenço branco. Limpou a boca com ele, esfregando vigorosamente. E depois atirou-o no chão.
Sentado ali, impotente e sentindo-me indefeso como nunca, chorei.
Embora estivesse exausto emocionalmente, o instinto de sobrevivência falou mais alto. Eu sabia que não podia ficar ali. Felizmente, nenhuma viva alma passou durante aqueles momentos de pânico. Seria difícil explicar minha presença, em estado de choque, ao lado da cena de um crime. Queria correr para o mais longe que pudesse daquele cenário lúgubre, mas era preciso uma última certeza.
Reunindo o pouco que sobrara da minha já escassa coragem, dei a volta no posto até chegar à parte de trás. O cara estava imóvel, parecendo um daqueles bonecos de cera do museu inglês. Que ele estava morto, era - como diria Nelson Rodrigues - óbvio ululante. Só queria entender como. Não via vestígios de sangue nem a arma do crime, embora Alicia tivesse a boca rubra do que eu estava certo não ser batom. Por outro lado, não compreendia como ela o matara. Com uma mordida? Seria preciso que tivesse dentes afiadíssimos e uma mandíbula de pitbull. O que, afinal, ela fizera com ele?
Me aproximei, e só quando estava a menos de um palmo dele, vi a imagem que me amaldiçoaria pelo resto dos meus dias: bem ali, no lado esquerdo do pescoço dele, havia dois furos com restos de sangue que começava a coagular.