“Eu morava em Buenos Aires. Tinha me formado em Psicologia e arranjado um emprego numa clínica de renome. A vida estava indo bem, apesar da crise que afundava meu país.
Eu nunca fui de sair muito, mas naquela noite as garotas da clínica insistiram. Uma delas, a Carmen, ia sair de lá para abrir seu próprio consultório e estava querendo comemorar. Eu estava feliz por ela, e resolvi ir.
A festa foi num bar da moda na Recoleta, um bairro boêmio da minha cidade, e todas nós bebemos um pouco além do esperado. Eu, como não tinha hábito de beber, acabei ficando um pouco bêbada, embora tivesse bebido menos do que as outras garotas. Mas estávamos eufóricas aquela noite. O exemplo de Carmen nos dava ânimo, era um indício de que havia esperanças para todas nós crescermos profissionalmente. Enfim, éramos um grupo de cinco jovens bonitas e alegres num bar da moda... acabamos virando a grande atração daquela noite. Os rapazes chamavam para dançar, pagavam mais bebidas, pediam nossos telefones. O fato é que o grupo foi se dispersando e eu acabei a noite aos beijos com um rapaz que eu nunca tinha visto antes. Ele se ofereceu para me levar em casa e eu aceitei.
Foi numa rua escura que tudo aconteceu. Ele me jogou no chão e me imobilizou. Eu comecei a espernear, achando que ia ser violentada. Mas ele não tentou tirar minha roupa. Pelo contrário, parecia estar interessado apenas no meu pescoço. Ficou nervoso porque não conseguia desenrolar o cachecol que eu usava e começou a me bater.
Quando finalmente arrancou meu cachecol, ele segurou minha cabeça de encontro ao chão e mordeu meu pescoço. Senti uma dor horrível, mas o pior era não entender o que estava acontecendo. E ele continuava com os dentes cravados em mim. Entendi, horrorizada, que ele bebia meu sangue. Sentia minhas forças se esvaindo lentamente. Parei de me debater e, após algum tempo, desmaiei.
Por um erro de cálculo, ou sabe-se lá porque, ele não sugou meu sangue até o final. Eu acordei muito fraca, de madrugada, naquele beco. Fiquei deitada de costas no chão frio, sem conseguir me levantar. Estava prestes a amanhecer. Engatinhei pela ruela estreita. Era uma espécie de beco, com alguns estabelecimentos comerciais bem modestos. Nenhuma vivalma. Alcancei a rua principal e me encostei numa parede, sem ar.
É a última coisa da qual me lembro. Quando acordei, já era noite. De algum modo, atravessei a cidade e cheguei até a minha casa. Estava deitada no sofá, suja e ainda vestida com a roupa da véspera. Minha cabeça zunia e eu me sentia meio tonta, mas ainda não havia compreendido o essencial: daquela noite em diante, eu seria uma morta-viva.
Passei dois dias sem comer. Não conseguia. Tentei beber um suco para não perder as forças. Vomitei. Comer simplesmente não era uma opção. No terceiro dia, olhei para o meu cachorro e comecei a sentir um impulso incontrolável. Não conseguia entender racionalmente o que se passava, mas meus instintos me gritavam a solução. Bebi o sangue dele todo, enojada e espantada. O pobre animal se encolhia e gania, mas não ofereceu resistência. Parecia entender o que eu era melhor do que eu mesma. Àquela altura, apesar de já desconfiar da minha condição, ainda contava com a possibilidade de estar tendo um pesadelo.
Levei bastante tempo até aceitar a verdade, e mais tempo ainda para aprender a viver desse modo. Tanto que, no começo, quase fui presa. Matava indiscriminadamente. Talvez por vingança, já que estava muito revoltada com o que acontecera comigo. Eu queria castigar o mundo pela minha desgraça.
Percebi que logo a polícia de Buenos Aires chegaria até mim. Eu estava deixando pistas, sendo descuidada. Passava os dias entregue a um sono pesado e repleto de pesadelos. Minha carreira como psicóloga foi para o espaço, é claro. Fui dada como desaparecida, já que simplesmente abandonei o emprego. Acredito que tenham me telefonado ou ido até minha casa, mas o fato é que ninguém mais me via. Eu estava sempre dormindo e, quando desperta, fazia absoluta questão de não ser vista. É um milagre que nunca tenham invadido minha casa.
Resolvi recomeçar minha vida, ou o que restou dela, no Brasil. Sabia que, chegando aqui, teria que ser mais esperta. Fazer as coisas de modo a não atrair suspeitas. Precisava de uma atividade noturna. Me pareceu que a única solução possível era levar o tipo de vida que eu levo. Sem contar que me daria a oportunidade de atacar sem ser notada. No mundo da prostituição, ninguém tem rosto nem identidade.

Eu ouvi tudo com extrema atenção, é claro. Mas foi mais ou menos como se ela tivesse falado num idioma do qual eu tivesse noção, mas não dominasse bem. Fiquei com a impressão de que a parte que daria sentido àquela loucura havia se perdido na tradução.
- Eu ainda não consigo acreditar!
- Eu sabia...
- Vampira...! Mortos vivos, sei lá. Você tem que me desculpar, mas eu nunca fui um cara muito crédulo. Fantasma, ET, vampiro, mula sem cabeça... pra mim, era tudo uma besteirada só. Nunca sequer cogitei que essas coisas pudessem acontecer!
- Mas é claro que tem muita mitologia em cima disso. Não somos indestrutíveis, apenas imortais. Tem uma grande diferença. E também não voamos, nem temos a maioria dos superpoderes que costumam nos atribuir.
Eu ainda achava que ela só podia estar brincando comigo. Mesmo depois de tudo que havia acabado de presenciar, ainda me sentia vítima de algum tipo de pegadinha de péssimo gosto. Comecei a crivá-la das mais destrambelhadas perguntas, como uma criança, só para não me permitir pensar. Pensar poderia me levar à aceitação, e talvez a aceitação daquilo tudo me levasse à loucura.
- E a história do dente de alho?
- Bobagem... aliás, eu adoro espaguete ao alho e óleo.
- Água benta?
- Ahahah... os católicos se acham mesmo os salvadores do mundo. Na verdade, há evidências de que os vampiros existam desde o princípio dos tempos. Muito antes dos cristãos tentarem impor seus dogmas mundo afora.
- Espelhos?
- Ah, essa eu nem devia responder! Se minha imagem não se refletisse, eu teria sido desmascarada já na primeira vez que saísse de casa em minha nova condição. A sobrevivência seria inviável para a espécie há séculos.
- Mas o problema com o sol deve ser verdade, já que eu nunca te vi à luz do dia.
- Você também não é muito visto por aí... mas sobre o sol há um fundo de verdade. Mas não é como se eu fosse virar pó no instante em que olhasse para a claridade. O que acontece é que a pele fica hipersensível. Digamos que uma exposição de cinco minutos para mim seria o equivalente a você passar um dia inteiro desprotegido sob o sol do Saara. Daí a precaução.
A despeito do meu horror, eu estava simplesmente fascinado. Sentada a meu lado, com aquele olhar doce e aquele jeito sofisticado, ficaria difícil imaginá-la sugando até a última gota do meu sangue, embora eu estivesse consciente de que era perfeitamente possível que isso ocorresse. Voltei ao inútil interrogatório, na esperança de conservar minha sanidade:
- O que mais é verdade?
- Bom, digamos que o conceito básico: eu me alimento de sangue. Muitas vezes, para não me expor com muita freqüência, bebo o de pequenos animais. Mas não dá pra ficar muito tempo sem sangue humano, o dos animais é só um paliativo. Eu tenho uma força física descomunal, mas é o sangue que renova minhas energias. Caso contrário, eu definharia até a morte.
- Você já tentou, sei lá, comprar? Subornar algum funcionário de banco de sangue?
Nessa eu me superei! Não conseguia acreditar que aquelas eram minhas próprias palavras, saídas direto da minha boca para alimentar a insanidade completa que era aquela conversa! Mas ela me respondeu com uma bizarra naturalidade:
- Você acha que eu não tentei de tudo? Depois que fiquei assim, nunca mais consegui comer nenhum tipo de alimento. E o sangue tem que ser quente, pulsante. Além do mais... - ela parou de falar e me encarou - Você ainda não acredita em mim!
- Eu estou tentando!
- Tá bom. Vamos supor que eu sou uma pessoa malévola, que sente um enorme prazer nisso. Ainda assim, você acha que, se tivesse outro jeito, eu continuaria a me arriscar desse jeito?
- Eu não acho que você seja uma pessoa má, Alicia. Mas...
- Continua!
- Você pode estar confusa...
No mesmo instante, me arrependi de ter dito aquilo. Mesmo porque, no fundo, eu já sabia que era tudo verdade. Mas nossa mente simplesmente não consegue digerir um pesadelo desses duma vez só e tenta desesperadamente negar as evidências. Ela me olhou num misto de mágoa e impotência. Levantou do sofá e andou, furiosa, até a janela. Mesmo na gravidade da situação, sua beleza me desconcertava. Eu desejava muito aquela mulher, fosse ela o que fosse. Talvez meu desejo fosse, no final das contas, o detalhe mais assustador.
De repente, numa agilidade incrível, ela se voltou e veio andando rápido até mim. Decidida, Alicia me pegou pela gola da camisa e me fez ficar de pé. Quando me dei conta, ela me encostava à parede com violência. Ainda não tinha processado como fora parar ali, quando o rosto dela se contraiu todo. Ela soltou aquele ruído parecido com um uivo que ouvi na praia e se contorceu mais ainda, fechando os olhos. Quando os abriu novamente, eles tinham um brilho estranho. Ela abriu a boca, salivando, e pude ver, horrorizado, que seus caninos tinham triplicado de tamanho. Ela pôs os dentes no meu pescoço e eu, sentindo-os espetar minha jugular, me preparei para morrer.