Eu estava vivo. Ainda. Abri os olhos e vi que estava estirado no sofá dela. Sentei, assustado. Levei a mão ao pescoço e não senti nenhum furo ou ferimento. Levantei de um salto e fui checar minha aparência no espelho que havia no corredor. Ainda estava apegado à antiga noção de que vampiros não se refletem em espelhos, a despeito dela ter desmentido a lenda.
Minha aparência era normal, só um pouco mais pálida e desgrenhada do que de costume. Afastei a gola da camisa e examinei meu pescoço, que parecia intacto. Talvez um pouco avermelhado onde seus dentes arranharam, mas, fora isso, nenhum dano visível. Dei um pulo quando a imagem de Alicia surgiu às minhas costas, claramente refletida no espelho.
- Acredita agora?
Eu não sabia o que dizer. Ela continuou:
- Saiba que tive que fazer um esforço incrível para não morder você. Uma vez excitada pela proximidade de um pescoço, é bem difícil sobrepor a racionalidade ao instinto. Mas era o único modo de fazê-lo acreditar.
- E por que você não se livrou logo de mim?
- Espero que agora você acredite que eu não sou desprovida de sentimentos. Pode ser que consiga ser daqui a alguns milênios, mas minha condição ainda é recente demais para eu ter deixado de me importar com os seres humanos.
- Ah, é... esqueci que você é muito grata por eu não ter te entregado à polícia - provoquei, me sentindo renascido e, portanto, mais seguro.
- Eu poderia dizer que foi por gratidão, mas estaria mentindo. Afinal, minha sobrevivência e segurança sempre vieram em primeiro lugar. Mas a verdade é que me sinto terrivelmente só. Perdi meu chão nesse país imenso, onde não posso me arriscar a criar nenhum tipo de vínculo com ninguém. Aí você foi tão bom para mim e...
Ela parou, constrangida. Estupefato, vi que uma lágrima rolava pela sua face esquerda. Ela sorriu, um sorriso lindo e triste, e me olhou nos olhos de um modo que me deixou hipnotizado antes de prosseguir:
- Eu não poderia, de jeito nenhum, matar a única pessoa que demonstrou sentir algo por mim nos últimos dois anos.
Reagi da única maneira que sabia. Ficando na defensiva:
- Ei, ei! Que história é essa de sentir algo por você? Não vamos confundir a situação por conta de...
Ela calou minha boca com um beijo. Um beijo intenso, forte, maiúsculo. No meio da minha confusão, vários pensamentos se cruzaram na minha cabeça: desejo, medo, desorientação. Mas todos se diluíram em poucos segundos, já que fui incapaz de não me entregar às sensações que me invadiram ao ter a língua dela dentro da minha boca e o corpo - que, ao contrário do sangue, era quente - praticamente colado no meu. Nesse momento, ela abandonou os movimentos bruscos que sempre a caracterizaram e assumiu um jeito sinuoso.
Ela se afastou um pouco, apenas o suficiente para arrancar as roupas. Me puxou para ela, tirando minha camisa com propriedade enquanto beijava meu peito. Eu sabia que, se quisesse recuar, essa era minha última chance. Mas é claro que não fiz isso. Lembrei que, num romance noir, o protagonista nunca recua. Agora eu entendia o porquê. Passado o choque inicial, experimentei um sentimento inédito de entrega total. Maravilhado e desesperado, coloquei minha vida e sanidade a serviço daquela mulher.

Estávamos deitados lado a lado, nus no tapete felpudo da sala. Ela me explicava que a grande alteração em seu corpo é o fato de agora se alimentar de sangue humano, mas que continua sentindo a maioria dos prazeres humanos. Principalmente os sensuais. Ainda não conseguia conciliar as duas mulheres contidas nela: a morta-viva assassina não combinava com aquela que eu tinha nos braços. Lembrei da noite em que a vi pela primeira vez:
- Afinal de contas, o que aconteceu? Achei que você tinha sido espancada.
- Digamos que foi um erro. Coisas da inexperiência - respondeu ela, muito séria.
- Como assim?
- Eu ataquei um homem, ele era muito mais forte do que parecia e quando ele resistiu e se debateu eu acabei me sujando de sangue. Do sangue dele. Fiquei nervosa e vim correndo para casa. Só depois raciocinei que deveria ter entrado num banheiro público para tentar lavar a blusa primeiro. Imagina se outra pessoa aqui no prédio tivesse me visto daquela maneira. Até a minha boca estava suja de sangue!
Eu bem sei que deveria ter ficado chocado com a forma técnica como Alicia descreveu um assassinato, mas só consegui sentir piedade. Pior ainda: fiquei apavorado só de imaginar, por um instante, que algo poderia dar errado qualquer noite dessas. Embora tivesse comprovado sua, digamos, perícia... Mas, nos meus braços, parecia tão frágil! Naquele instante, tive a certeza de que faria qualquer coisa para evitar que ela se machucasse. Ou melhor, para salvá-la da injustiça a que fora submetida. Virei um ingênuo, emburrecido pela paixão:
- Me morde. Faz de mim um vampiro. Talvez possamos um alimentar o outro e acabar com essa obrigação interminável de matar!
- Não ia funcionar. Uma vez vampiro, teu sangue passaria a ser frio e, portanto, inútil para mim.
Merda!
- Para quem tem, digamos, pouco tempo de estrada, você parece saber tudo. Como aprendeu tanto sobre a espécie? Você tem contato com outros?
- Pessoalmente? Nunca. Seria arriscado demais. Mas existe toda uma comunidade que troca informações via internet. É muito fácil inserir qualquer assunto na rede. Passa despercebido. No meio de tanta pornografia, quem vai prestar atenção em chats de excêntricos falando sobre vampirismo? No máximo, seríamos confundidos com adolescentes jogando algum tipo de RPG. É claro que nem sempre foi assim. Uma vez, conversei com um vampiro bicentenário que me contou os anos terríveis que viveu logo que foi transformado. Muita dor e insegurança até aprender a sobreviver. E ele teve que descobrir tudo na base da experiência e erro.
- Deve ter alguma coisa que a gente possa fazer!
O olhar dela se enterneceu e, logo depois, ficou sombrio:
- Essa reação que você está tendo eu mesma já tive no começo. Mas pensa numa coisa: se houvesse alguma cura, ou algum modo de evitar esse ciclo interminável, você não acha que alguém já teria descoberto? Estima-se que os vampiros existam há milênios!
- Quanto derrotismo! Se as pessoas pensassem assim, nada de novo seria descoberto. Ainda estaríamos dentro de uma caverna, caçando mamutes para assar na fogueira.
Ela riu. Provavelmente porque eu virei uma espécie de poliana pós-moderna, em meu desespero para remediar o que não tinha remédio. Passou os braços pelo meu pescoço e, ainda sorridente, se aninhou toda como uma gata siamesa. Mas eu não sorria. Meu deslumbramento por ela não conseguia eclipsar todos os terrores que me passavam pela cabeça.
Sejamos francos: a verdade é que eu estava sendo bem egoísta. Lá no fundo das minhas boas intenções residia uma grande preocupação com meu próprio futuro, já que não me imaginava mais longe dessa mulher. E tem algo de apavorante pensar, por um instante que seja, que sua vida está irremediavelmente atada a uma criatura que deveria estar restrita ao universo de alguns livros que pouca gente lê hoje em dia.