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Alicia já havia morado em três apartamentos diferentes nos últimos dois anos. Toda vez que alguma coisa parecia suspeita, se mudava. Como sempre alugava seus apartamentos por temporada e pagava adiantado, os proprietários - ou seus corretores - costumavam abrir mais a guarda. É claro que ela negava possuir qualquer magnetismo adicional, mas seu poder de persuasão era algo que eu mesmo pude comprovar. Que ela era hipnótica é fato. O que eu não tinha condições de saber é se isso era algo nato ou viera como característica de seu novo modo de vida.
Nos víamos quase todos os dias. Ou melhor, quase todas as noites. Algumas vezes, logo que escurecia e antes que ela saísse. Outras, pela madrugada... quando ela voltava.
Ao contrário do que se poderia esperar numa situação dessas, minha produção literária correu à solta. Meus dias eram passados à frente de computador; minhas noites, ao lado dela. Dormir? Pra quê? Varava noites e mais noites insone e me sentia desperto e disposto. Quando a falta de sono acumulada me vencia, dormia algumas horas - geralmente as primeiras da manhã - e isso me satisfazia.
E logo faltava pouco para meu livro ser finalizado. Uma surpresa para todos, inclusive para mim mesmo. Mas o que me surpreendeu não foi que eu estivesse prestes a dar cabo da tarefa e sim a decisão de mudar drasticamente meu argumento original. Na última hora, resolvi que o desfecho de “Gosto de Sangue” seria outro. Maurício resolve enterrar suas suspeitas, juntamente com sua honra, e viver com Alexia. O centrado advogado conclui que toda uma vida de ética não lhe fizera feliz e que Alexia é sua última chance de evitar uma velhice solitária e amarga.
Mas justamente quando decide engavetar o caso em sua mente, a polícia resolve indiciar sua amada. Maurício sente-se culpado, embora nunca tenha dito a ninguém - nem mesmo ao sócio - nada que traísse suas desconfianças. Mas, como se subitamente tivesse passado a crer em inconsciente coletivo, a culpa o tortura. E ele resolve se redimir armando um plano mirabolante: através de contatos que não vale a pena detalhar, consegue um cadáver de mulher. Ele deita o corpo na cama de Alexia, incendeia a mansão e eles estão livres para viver em algum paraíso tropical.
Não, não. Pára tudo. Meu novo arranjo estava forçado e apressado. Não se pode escrever um final com um cadáver que aparece do nada. Percebi que teria que embasar melhor essa nova idéia: voltei ao começo da história e lá inseri um personagem extra: um certo amigo de Maurício que faz piadas de humor negro sobre seu sinistro emprego como médico-legista do IML. Espalhei algumas menções discretas ao tal amigo e voltei para o desfecho da história. Pronto. Plantada a pista, já podia dela fazer uso.
Final feliz num romance policial? Eu tinha plena consciência de que meu final anterior, com Alexia morta e Maurício resignado, se aplicaria melhor ao estilo de livro que me propusera a escrever - uma coisa meio “Relíquia Macabra”. É típico do herói desse gênero não se deixar abater por nada, nem mesmo pelo desfecho trágico de um grande amor. Mas, de repente, não me parecia coerente que Maurício conseguisse viver privado de Alexia. Pior, sabendo que suas desconfianças a empurraram para o suicídio. Um amor desses não se deteria diante de nada. Era coisa de matar ou morrer.

Naquela noite, ela confessou que já começava a ficar inquieta ali. Embora o detetive tivesse esquecido dela e os crimes continuassem um mistério total para a polícia, ela detectava perigo no ar. E seus instintos eram aguçados como o de um predador. Estávamos na sala dela. Eu lia o jornal, ela fazia palavras cruzadas. Como qualquer casalzinho burguês.
- Talvez seja hora de eu partir.
- Não pude deixar de notar o “eu”.
Ela se calou, constrangida, e mudou de assunto mais rapidamente do que seria normal. Percebi que tramava algo e me deixava de fora.
Sugeri a Alicia que passássemos um tempo em Petrópolis, na antiga casa de meus avós. Eu era o único que tinha chave. Portanto, visitas inesperadas estavam fora de questão. Pela primeira vez, fiquei contente de minha mãe ter deixado a responsabilidade daquela maldita casa velha nos meus ombros. Devia estar uma bagunça, mas até que o lugar era aprazível.
- Petrópolis não é uma cidade pequena? Eu acho que chamaria muita atenção por lá. Aqui, que é uma verdadeira selva, já é arriscado...
Não pude deixar de notar que ela ainda parecia receosa de confiar plenamente em mim, embora eu já tivesse dado mostras de uma verdadeira fidelidade canina desde que nos conhecemos. Por outro lado, ela demonstrava um certo cansaço. Pela primeira vez, detectei um esmaecimento nos seus normalmente radiantes olhos. Sua pele também parecia opaca e sem viço.
- Já tem vários dias - justificou-se.
A condição desesperadora de nossa relação me atingiu em cheio. Claro. Há quase uma semana ela não saía. E suas forças já pareciam minar-se. Desafio qualquer homem do mundo a se sentir mais impotente do que eu me senti naquele momento. Diante de mim, apenas um breve vislumbre do que aconteceria à mulher por quem estava apaixonado se ela deixasse de ser uma assassina. Eu mataria ou morreria por ela, se houvesse um jeito de quebrar aquela maldição. Mas não queria assistir passivamente à sua degradação. Me enojava que ela matasse, mas doía vê-la definhando a meus pés. Virei de costas e simulei estar concentrado no jornal do dia. Não queria que ela visse que chorava.
Só quando levantei os olhos do jornal novamente, mais controlado, é que notei que ela havia deixado a sala. Queria ir atrás dela e garantir que tudo ia ficar bem... mas como? Alicia tornou a aparecer algum tempo depois, bem vestida e com uma maquiagem caprichada que devolveu todo o esplendor ao seu rosto. Sombriamente, proferiu a frase que eu já esperava ouvir:
- Eu vou ter que sair. |