À tempestade seguiu-se uma estranha calmaria. Alicia deixou de falar em ir embora e pareceu muito satisfeita quando eu sugeri que ela se mudasse para a minha casa. Não, não era como se estivéssemos casados. Pelo menos, eu nunca admitiria tal suposição à época. Meu álibi era a segurança dela. No meu apartamento, ela estaria a salvo de uma visita-surpresa da polícia, caso aparecesse algum novo indício contra ela. Era realmente uma excelente idéia, mantê-la tão longe e tão perto. É claro que era uma proteção muito débil, mas como se acreditava que ela ainda vivesse no outro apartamento, era uma boa cortina de fumaça. Não estávamos mais nos anos de chumbo, quando uma suspeita faria os meganhas revistarem apartamento por apartamento. Além do mais, eu estava certo de que ninguém no prédio sabia de nenhuma ligação entre nós.
Ela fez questão de levar para o meu apartamento apenas o indispensável para uma semana. Estávamos fazendo uma experiência para ver se dava certo, frisou. Além do mais, não haveria nenhuma dificuldade em buscar algo que eventualmente faltasse.
Além dos nossos, havia mais dois apartamentos no andar: um estava vazio e, nesse caso, só tínhamos que evitar o corretor que costumava dar as caras aos domingos; no outro, morava uma aeromoça que estava sempre fora. Suas chegadas e partidas eram rotineiramente anunciadas pelas rodinhas da mala. Sempre de aparência pesadíssima, diga-se de passagem. Provavelmente abarrotada de mimos do free shop. Um mínimo de precaução e poderíamos nos sentir numa ilha deserta.
Mandei colocar um insulfilm bem espesso no meu quarto, para que ela pudesse descansar durante o dia sem correr o risco de se machucar. Mandei fazer uma cópia das chaves e combinamos que, em hipótese alguma, ela atenderia ao telefone ou interfone. Para minimizar os riscos, troquei as entregas domiciliares por compras feitas por mim nos estabelecimentos. Não deixava de ser irônico o modo como, pouco a pouco, deixei de lado minha reclusão.
As coisas nunca tinham estado tão bem, apesar de tudo. O livro foi finalizado e os originais entregues dentro do prazo, por incrível que pareça. Eu estava tranqüilo financeiramente e, o melhor, completamente apaixonado. Cheguei ao cúmulo de sentir paz de espírito. Creio que empurrei todas as implicações a respeito das atividades noturnas de Alicia para uma parte remota da minha consciência. Não pude deixar de me intrigar com o grau de similaridade entre a história de ficção que escrevera e minha própria vida. A vida imitou a arte ou foi a arte que imitou a vida?
É o que dizem: a primeira vez é sempre mais problemática. Depois de presenciar a saída de Alicia uma vez, duas, acabei me conformando. Não acostumando - claro que não -, mas tolerando. Depois de algum tempo, consegui até dormir enquanto esperava seu retorno!
Como agora estava relativamente bem de vida, fiz questão de que ela parasse de buscar clientela para ganhar dinheiro. Assim, ela só saía para se alimentar, o que diminuía sua exposição. No começo, ela tentou rebater o que considerava uma dependência irreversível de mim. Mas eu tinha a meu favor um argumento indiscutível: quanto menos pessoas a conhecessem, mais segurança haveria para nós dois.
Evidente que me preocupava com ela, mas havia algo além disso. Me alucinava o mero pensamento de Alicia com outro homem. A imagem daquele baixinho agarrando-a não era algo que eu conseguisse abstrair. Que ela fizesse isso só quando fosse indispensável. Minha mente logo fez as contas: os que não eram mortos por razões, digamos, alimentares desfrutavam dela até o fim. E saíam ilesos para gostar e, quem sabe, querer mais! Muito legal, esse meu moralismo. Fiquei todo contente de afastar minha garota da chamada vida fácil. Ou seja: eu podia até tolerar que ela continuasse assassinando homens, mas não que trepasse com eles.
Naquela noite, Alicia tinha saído. Desenvolvemos uma nova e estranha forma de comunicação. Sempre que a via sair do banheiro com aquela maquiagem pesada, fingia estar incrivelmente interessado na televisão. Ou com súbita vontade de tomar café. Ou pegava no fone e discava vagarosamente um número qualquer. Ela saía sem dizer uma palavra. Por mais bizarro que possa parecer, doía menos assim. O não-dito de comum acordo acaba por se converter no não-acontecido.
Um grande acontecimento me obrigou a deixar minhas neuras em segundo plano. Era chegado o tão esperado dia de meu debut na literatura. Parece que foi ontem que o Ronaldo me ligou para avisar da data. Os últimos meses passaram em ritmo vertiginoso. O final do ano se aproximava - jingle bells, jingle bells - e a editora apressou o lançamento para poder abocanhar o seu quinhão natalino.
Fiquei triste por não poder ir acompanhado dela ao lançamento. Mas era arriscado demais, ia estar apinhado de jornalistas. Não por minha causa, é claro. A editora achou por bem lançar a série inteira de uma tacada só. Aproveitando a época, eles iam lançar os livros em separado e também uma caixa com a coleção inteira. Coisa fina. Meu livro, sucesso, fracasso... nada disso importava mais. Era o que passava pela minha mente enquanto me arrumava para ir ao lançamento.
- E então? A festa vai ser de arromba?
Quase pulei de susto. Nunca me acostumei a essa capacidade dela de se mover sem fazer ruído.
- Você sabe que eu preferia não ir.
Ela colocou as mãos nos meus ombros e sorriu daquela maneira enviesada, como um gato siamês.
- Mas você precisa. Eu agora sou sua mulherzinha e dependo de você.
- Debochada...
- Agora falando sério: você tem que fazer um esforço para aparentar normalidade. Ria, converse com todos, pose para fotos, faça uma boa figura.
- Sim, senhora.
- Quem está sendo debochado agora?
- É só um disfarce esse meu deboche. Na verdade, estou inseguro.
- Vai dar tudo certo.
- Você sabe, eu sou o estranho no ninho. O único autor desconhecido...
- Por enquanto. Teu livro é fantástico!
O entusiasmo a traiu. Ela leu! Eu tinha pedido tanto... E a dissimulada disfarçou tão bem, até hoje, que tinha lido os originais às minhas costas. Mas, ao contrário do que poderia imaginar, não fiquei aborrecido.
- Não era pra você ter lido antes de publicado.
- Eu juro que não conto pra ninguém que amei cada palavra.
Como aquela mulher conseguia me surpreender e encantar todos os dias com seu companheirismo, doçura e sensibilidade. Queria mandar a festa pro espaço e rolar com ela na cama. Mas eu tinha que ir. Ela saiu para o corredor para me dar passagem. Na porta, beijei seus lábios de leve. Ela baixou o rosto, meditativa. De repente, parecia triste. Não imaginava o que a fez mudar de astral tão subitamente, mas achei melhor não começar um papo sério naquele instante. Não podia me atrasar. Haveria tempo para descobrir o que a preocupava mais tarde.
- Você vai sair?
- Hoje não.
Ela, como combináramos, estava atrás da porta. Precaução para o caso de passar alguém pelo corredor, mesmo sendo pouco provável. Eu já estava na porta do elevador quando ela correu até mim e passou os braços pelo meu pescoço:
- Eu te amo.
Estupefato, não tive chance de dizer nada. O elevador chegou e ela abriu a porta depressa, praticamente me empurrando para dentro. Ainda vi seu rosto por alguns segundos antes que a grade se fechasse e o elevador começasse a descer.