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Puta merda! Ela disse pela primeira vez que me amava e eu nem pude reagir! Era só o que eu conseguia pensar enquanto fazia o que de mim era esperado como um zumbi. O sorriso social estava bem atarraxado no meu rosto. Ocasionalmente, soltava algumas declarações de efeito especialmente decoradas para a ocasião.
Um fotógrafo chamou todos os autores para uma foto conjunta. Todos juntinhos, com um clima de intimidade que faria supor que éramos da mesma confraria. Quem foi que disse que uma imagem vale mil palavras? Ah, como as aparências enganam! O famoso a meu lado não conseguia esconder seu desprezo, como se eu fosse um penetra naquela farra.
Meu alheamento de tudo e todos era tão grande que nem percebi sua chegada. Quando vi, já estava a meu lado. Foi, portanto, impossível evitar um tête-a-tête com Cristiana. Estava, como dizem, vestida para matar. Me deu dois beijinhos no rosto e os parabéns. E ainda teve a careta de me dizer que sempre soube que eu daria certo como escritor!
Não sei bem qual era a dela comigo. Acho que me considerava um desafio, já que estava claro que nossa relação nunca nem passara perto do amor. Acho que ela não admitia não ter controle sobre mim. Estava acostumada demais a que as coisas saíssem do seu jeito. Quem era eu para não estar, como diria o Cazuza, jogado a seus pés?
Conversei com ela por bem uns dez minutos, mas não saberia reproduzir uma palavra sequer do que foi dito. Só lembro que ela usava um vestido preto bem justo e jogava charme não só para mim, mas para qualquer babaca que cruzasse seu olhar. Como se fosse me ferir agindo daquele jeito.
Só conseguia pensar em estar com Alicia. Beijá-la muito, dizer o quanto a amava e fazer amor com ela pela madrugada adentro. Precisava compensá-la pela reação catatônica que tive anteriormente. Por que não fechei o elevador de novo e a abracei? Por que não respondi ao menos com um “eu também”?
Dominei a muito custo meu impulso de abandonar a festa e voltar correndo para casa. Só me tranqüilizava a promessa dela de que não sairia naquela noite. Reconfortado pela sua doce visão, aturei todo o minueto ridículo que compunha o evento. Fiz minha dança do acasalamento com a imprensa, soltando eventuais tiradas espirituosas nos momentos-chave. Uma presença discreta - para não perder a elegância -, mas consistente o suficiente para ser citado nas matérias.
Finalmente, acabou. Ronaldo parecia realmente aliviado por eu ter me portado tão bem. Aliás, mais do que aliviado; estava empolgadíssimo e já tentava discutir comigo os novos rumos a serem tomados, agora que “Gosto de Sangue” estava concluído.
- Vai ser um sucesso, cara! Meu olho clínico não me engana!
Engraçado o olho clínico dele ter sido cego durante meu bloqueio inicial. Teria sido de grande serventia se um olho mágico tivesse me garantido, naquela época, que eu seria tão bem-sucedido. Como as coisas mudam... Lembrei da música do Chico:
“... A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração...”
- O quê?
Só então percebi que estive cantando em voz alta. Doideira. Me despedi dele de qualquer jeito e fiz sinal para um taxi que passava. Ele ainda tentava me convencer a tomar um último uisquinho sei lá onde... mas não deu pra ouvir. Com a empolgação de um adolescente indo ao encontro da primeira namorada, dei as coordenadas para o motorista.
No trajeto, repassava mentalmente todas as coisas indispensáveis a serem ditas àquela que já estava convencido ser a mulher da minha vida. A sua declaração me encheu de uma euforia que apagava todas as minhas preocupações racionais. Não queria ser intelectual, blasé, cínico. Estava doido de amor, e encantado por esse recém-descoberto estado de espírito.
- Pode ficar com o troco.
- Mas o senhor me deu uma nota de...
Não ouvi o resto, já entrava às carreiras pela portaria. Estava desesperado para entrar em casa. E o raio do elevador que não desce? Alguém parecia estar segurando o bicho no décimo andar. Não consegui esperar e subi pela escada mesmo, como cavaleiro errante correndo para a torre mais alta do castelo.
Ainda ofegante, escancarei a porta. Contrariando nossas normas de segurança, gritei seu nome. Estava feliz. Não era momento de ficar de medinho. Logo notei que alguma coisa estava fora da ordem normal. Tudo silencioso. Todas as luzes apagadas. Achando que Alicia poderia estar tomando uma ducha, entrei correndo no banheiro. O pânico me dominou quando não vi seu perfume preferido sobre a bancada. Corri para o quarto e quase quebrei a porta do armário em meu desatino. Seu lado estava vazio! Ela pegou tudo que era dela!
Corri até seu antigo apartamento. Tudo trancado, apagado, silencioso. É claro que ela não estava lá. Voltei afogueado para casa. Apesar do meu estado emocional deplorável, ainda consegui sangue-frio o suficiente para pegar o interfone e falar com o porteiro numa voz controlada:
- Arnaldo, é o Marcelo do 402. Olha, outro dia eu estava subindo e encontrei com uma moça que estava procurando pela dona Alicia, do 401. Você sabe alguma coisa dela? Eu nunca a vejo...
- Estranho, seu Marcelo. Ela nunca recebeu visita antes.
- Acho que era uma prima de fora, algo assim. Tinha sotaque.
- Tudo que eu sei é que ela devolveu o apartamento semana passada, mas não deixou endereço. O curioso é que eu a vi no prédio algumas vezes depois disso...
Fiquei surdo para todo o resto. Ela entregara o apartamento! Premeditou me abandonar! Como teve coragem? Num ataque de fúria, arranquei o interfone da parede e, com um grito de impotência, joguei-o no chão.
O que ela me disse fora uma despedida, e não uma declaração. Mas por quê?
Foi quando olhei para a mesa da sala e vi um envelope que me passara despercebido quando entrei. |