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FOLHETIM GOSTO DE SNGUE
TEXTO: ERIKA LIPORACI - ILUSTRAÇÕES: FRANCCI LUNGUINHO |
Rio de Janeiro, Sexta, 22 de Maio de 2009 |
 

Marcelo,

Como já deves saber a esta altura, parti de vez. Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que não poderia continuar jogando nos teus ombros um fardo que só cabe a mim suportar. Não pense que essa foi uma decisão que veio fácil para mim. Por outro lado, te asseguro que nada nela há de precipitado. Eu não poderia continuar te causando tanto mal. Tenho consciência de ser a culpada das coisas terem chegado a esse ponto. Mesmo sabendo que minha condição não permite que me afeiçoe a ninguém, deixei que você entrasse na minha vida. Ter do meu lado alguém disposto a me amar apesar da maldição que carrego foi um alento com o qual nunca havia sonhado. Estava tão feliz que me deixei cegar para o óbvio: não poderia ter permitido que você se envolvesse comigo.

Sem querer me justificar, só peço que desculpe minha inexperiência. Alguém que estivesse nessa condição há mais tempo não teria cometido tal irresponsabilidade. Mas acredito que nunca é tarde para consertar um erro. E é por isso, meu amor, que preciso ir embora. Mesmo que te deixar me rasgue por dentro e a perspectiva de uma eternidade solitária me desespere. Mas eu te amo demais para te expor a uma vida de fugas, perigos e sobressaltos. Tenho que ser forte e aceitar minha sina, mesmo não tendo nenhuma culpa de ser o que sou.

Saiba que o tempo que passamos juntos vai me servir de consolo sempre que bater o desespero. Embora tenha tido algumas experiências sexuais durante minha vida normal, nunca havia me apaixonado pra valer. Em se tratando de amor, você foi o primeiro e será o único. Isso está longe de ser pouca coisa.

Por favor, tente retomar uma vida normal. Continue sua carreira de escritor, tenho certeza de que é o teu talento literário que vai salvá-lo da amargura. “Gosto de Sangue” é um grande livro e me sinto feliz por ter sido, em parte, inspiração para ele (sim, embora você nunca tenha dito, eu me reconheci claramente em Alexia).

Quando pensar em mim, não guarde mágoa pela minha partida covarde. Era o único jeito. Não conseguiria enfrentar uma despedida.

Muito amor da tua,

Alicia

Isso aconteceu há exatamente um mês. Trinta longos dias. Eu fiz de tudo para encontrá-la, é claro. Percorri todos os inferninhos; não só de Copacabana, como do Rio de Janeiro inteiro. Por diversas vezes, supus vê-la na rua. Só pra me aproximar e abordar uma total estranha.

Minha primeira e nada sensata providência foi irromper Penélope adentro atrás de alguma pista. Descrevi-a ao barman e ele simulou não saber de quem eu estava falando. Seu rosto estava tão impassível que, se não a tivesse visto entrar com tamanha intimidade no recinto aquela noite, acreditaria. Tentei com as garçonetes, inclusive com a que tinha visto conversando com ela, e o resultado foi o mesmo: ninguém parecia se lembrar de Alicia. Quando um leão-de-chácara me olhou ostensivamente, concluí que bastava por aquela noite. Saí antes que me arrastassem para algum quartinho nos fundos.

Passei a primeira semana inteira rondando a Penélope. No mesmo quarteirão, há mais duas boates do gênero. Perambulava de uma para outra a madrugada inteira. Nem sinal. No começo, os seguranças ficavam meio tensos comigo, mas logo se acostumaram e concluíram que eu era só um pobre-diabo inofensivo.

Depois de algum tempo, passei a vasculhar os quiosques. Ainda que sentisse que travava uma luta inglória, não conseguia agir de outro modo. Percebi que a agonia com o bloqueio literário fora substituída por outra mais danosa.

Algumas vezes, reconheci outros vampiros em minhas andanças. Não que haja uma diferença padronizada entre eles e nós. São pequenos detalhes que só quem conviveu com alguém da espécie consegue captar. Um andar sinuoso e esperto, como se estivessem sempre prestes a dar um bote. Uma majestade que irradia de dentro, não importando seu aspecto exterior. E, principalmente, o olhar. O olhar deles é de quem já viu mais coisas do que pode suportar e, portanto, está preparado para tudo. Mais para matar do que para morrer.

Certa noite, cheguei ao absurdo de cogitar falar com um deles. Um rapaz com roupas de skatista. Me chamou a atenção pelo sinistro contraste entre a juventude de seu rosto e a velhice milenar de sua expressão. Seu visual despojado era uma clara tentativa de continuar sendo o garoto que ainda aparentava, mas que certamente há muito deixara de ser.

Ensaiei mentalmente uma aproximação que não me comprometesse, mas logo concluí que era inútil. Não que eu temesse pela minha segurança; pelo contrário, me jogaria da ponte Rio-Niterói se isso fosse de alguma serventia. Mas Alicia sempre se mostrara desconfiada de seus semelhantes. E pelo menos isso eu não creio que fosse mentira.

Me tornei um autômato. Como quando a fome é insuportável, durmo quando o cansaço me vence. Cada minuto da minha consciência é dedicado a imaginar uma nova estratégia para encontrar Alicia. Mas todas se revelam infantis, primárias, infrutíferas. Desconfio que mudou de cidade. Ela não me abandonaria de modo tão calculado para ficar ao meu alcance. E eu não estou alucinado o suficiente para me julgar capaz de desbravar o país inteiro. Muito fácil se perder por aí, embora eu tenha certeza de que seu alvo sempre seria uma cidade grande.

É óbvio que ela calculou muito bem sua fuga! Quando refaço mentalmente nossos últimos dias juntos, fico realmente aborrecido com ela. Meus humores oscilam entre a mais sublime ternura e o ódio mortal. Como pôde achar que eu conseguiria “retomar minha carreira de escritor”? Simplesmente continuar vivendo, como se nada houvesse acontecido? O que mais me irrita é o tom usado na carta, uma coisa do tipo “estou fazendo isso para o teu próprio bem”. Ao caralho com meu bem-estar. Não havia, nem nunca haveria recuperação pra mim. Estou irreversivelmente fudido!

Como alguém pode ter uma vida, no sentido careta da coisa, depois de ter passado pelo que eu passei? Como ela pôde ter sequer cogitado que eu conseguiria voltar à minha vida de antes? Bom, ela deveria ter refletido sobre a viabilidade de manter um relacionamento antes de se jogar nos meus braços. Não era justo que eu fosse descartado assim, arbitrariamente!

É noite de novo. E eu sei que sairei pelas ruas, como saí ontem e como sairei amanhã, procurando-a em cada inferninho dessa madrugada que nunca tem fim.

Não tenho opção.

***
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