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FOLHETIM GOSTO DE SNGUE
TEXTO: ERIKA LIPORACI - ILUSTRAÇÕES: FRANCCI LUNGUINHO |
Rio de Janeiro, Sexta, 29 de Maio de 2009 |
 

Nos últimos dias, já desiludido de meu intento de encontrar Alicia, desisti de tudo. Não posso dizer que ela acabou com a minha vida. Não, melodramático demais; a verdade é que minha existência já não valia muito antes dela. Mas talvez meu amor por ela tenha sido um vislumbre de algo que nunca foi meu... uma miragem que só serviu para abrir meus olhos para a falta de sentido que foram meus dias até hoje. Dormir, acordar, ganhar algum para agüentar até o fim do mês... Tomar um chope no final de semana para esquecer que a vida não tem absolutamente nenhum objetivo... E eis que eu me apaixono e tenho uma breve amostra grátis do que seria uma existência plena.

Foi nesse estado de ânimo nada favorável que o Miguel me encontrou. Aliás, Miguel não. Doutor Miguel Fontes, meu irmão fodão. Mas eu estou me adiantando. A visita do Miguel foi apenas o ponto culminante de um efeito cascata que começou há semanas.

A evolução da coisa pode ser medida pelo aumento no número de recados na secretária eletrônica. Primeiro, o Ronaldo. Queria combinar uma reunião para discutirmos os rumos da minha carreira. Três recados, com um crescendo de ansiedade em sua voz. Depois, a Cristiana. Com uma voz melosa totalmente fora de contexto. Instruída pelo Ronaldo, obviamente. Os dois realmente devem me considerar um babaca. Deixou uns trocentos números diferentes onde eu poderia achá-la e pediu que eu ligasse a qualquer hora. Que gracinha.

Comecei a especular sobre essa súbita amizade entre Cristiana e Ronaldo. Será que os dois andavam de caso? Ou talvez estivessem juntos há tempos, me corneando na maior? Não que eu estivesse mordido com isso, mas senti uma espécie de curiosidade sociológica... Mas, antes que me aprofundasse no tema, a porra do telefone tocou de novo. Estava tentado a atender, só pra descobrir qual era a deles. Mas eu tinha uma nova admiradora na linha.

Minha mãe. Que não falava comigo há milênios, mas deixou um recado tão amoroso que faria um desavisado supor que nós éramos ligadíssimos um no outro. Coincidência demais tanta solicitude! E eis a cereja do sundae! Doutor Miguel, o fodão do clã Fontes, à minha porta com cara de poucos amigos.

Eu nunca falei do meu irmão antes por uma razão óbvia: quando se passa a vida inteira ouvindo as outras pessoas falarem o quanto o seu irmão é sensacional, tudo que o sujeito almeja é tentar esquecer que tal exemplo de perfeição existe.

O nome disso é negação.

Minha mãe, não contente em ser viúva de um renomado médico, necessitava ser mãe de um para que a dinastia tivesse prosseguimento. Miguel, mesmo sendo cinco anos mais novo que eu, conseguiu preencher todas as suas expectativas em tempo recorde. Tinha a profissão certa, a esposa certa e demonstrava seu afeto pela família da forma certa. Um pai de família daqueles de comercial de margarina.

Melhor impossível? Que nada! O céu é o limite para o Doutor Miguel. Como se não bastasse tanto adequamento, ainda se esforçava, sempre que possível, para consertar a vida desregrada do irmão mais velho e fazê-lo ver a luz. Como no último Natal (não o do último ano, e sim o último que me dispus a compartilhar com eles), quando ele tentava me fazer enxergar as vantagens de um posto como assessor de imprensa de um deputado que, por acaso, fora seu paciente. Para encurtar a história, nossa “noite feliz” terminou com o Miguel me explicando que, com o meu modo de vida, eu sempre iria viver de aluguel num pulgueiro.

Acho que, depois desta devida apresentação, ninguém se espantará em saber que tive uma crise de histeria quando vi o Miguel, em sua vestimenta imaculada, à minha porta. Quando abri a porta, ele consultava seu relógio bacana com um certo ar de enfado. Sua visitinha era apenas uma aporrinhação extra a ser resolvida com a sua conhecida e habitual competência profissional.

Ele ainda tentou esboçar um sorriso - forçadíssimo -, mas travou no meio e resolveu me estender sua mão decorada com o ostensivo anel de grau. Caralho! Quanta cafonice... Fiz sinal com a cabeça para que entrasse.

- Marcelo, como está você?

- Porra, Miguel. Sem esse papo social. Desembucha. O que, caralhos, você veio fazer no meu pardieiro?

Ele me olhou em dúvida, tentando calcular as chances daquilo ser uma brincadeira e, em poucos segundos, eu abrir um sorriso e lhe dar um tapinha nas costas. Mas deve ter baixado à Terra, porque a expressão indecisa deu lugar à arrogante que era tão mais sua característica.

- Eu sei que nós tivemos nossas diferenças e...

- Miguel, corta a enrolação! Você não consegue ir direto ao que te trouxe aqui?

Pronto. Ele chegou ao limite. Abandonou a cordialidade forçada e praticamente rosnou na minha cara:

- Não pense que eu estava morrendo de vontade de vir aqui ser destratado por um vagabundo como você. A mamãe pediu!

- Isso! Esse é o Miguel que eu conheço. Já viu que eu estou vivo?

- ...

- Já viu?

- Já!

- Então, fora!

Antes que ele falasse qualquer coisa, coloquei-o para fora aos empurrões e bati a porta. Ele ainda falava alguma coisa no corredor, mas eu me recusei a continuar ouvindo seus relinchos e fui lá pra dentro. Num destempero só, liguei a televisão no volume máximo. Corri para o banheiro, jogando minhas roupas pelo meio do caminho. Tomei um banho bem quente, daqueles de embaçar o espelho do banheiro. Bom. Devo ter ficado uma meia hora debaixo do chuveiro. Sentei no chão do box, pouco me lixando para as bactérias que estava adquirindo, e deixei a água morna cair sobre mim como uma cachoeira que purificaria meus males.

Quando voltei para a sala, estava tudo quieto novamente. Melhor assim. Não pretendia perder meu frágil e recém-adquirido bem-estar. Consultei o olho mágico e, felizmente, nem sinal do Miguel.

O visor vermelho da secretária eletrônica piscava o número sete. Conta de mentiroso, não é o que dizem? Cheio de satisfação, apertei a tecla “apagar tudo”. Depois pensei melhor e, num único puxão, arranquei os fios do telefone e da porra da máquina intrometida.

- Fodam-se!

O resto é silêncio.

***
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