Isso aconteceu há quatro dias. Ontem, finalmente, eles resolveram tomar uma atitude. Quando digo “eles”, na verdade, não sei a quem me refiro: minha mãe, Miguel, Ronaldo, Cristiana, o porteiro, o coelhinho da Páscoa... ou melhor, acredito que cada um desses filhos-da-puta teve sua parcela de contribuição no veredicto final. À minha revelia, fui julgado e condenado.
Que porra de democracia é essa onde o sujeito não pode enlouquecer e definhar em paz, sem que venha uma caralhada de gente fazer o que supostamente seria certo para o bem-estar dele?
Depois de eu ter expulsado o Miguel daqui de casa, é bem provável que ele tenha feito um relato bem clínico - e cínico - do estado em que eu me encontrava. Eu devo ter sido objeto de uma acalorada discussão entre ele, minha mãe e minha cunhada. O Komintern Fontes. Eles são chegados numa reunião de cúpula, é a idéia deles de democracia.
Eu cheguei a mencionar a especialidade do meu irmão? Não, ele não é psiquiatra. Viria a calhar um pouco demais. Mas ele é neurologista; ou seja: seus melhores amigos são psiquiatras. Dá no mesmo quando se trata de descolar um tratamento para o pobre irmão mais velho.
Ontem eles vieram. Não os homens de preto, mas os de branco. Tocaram a campainha algumas poucas vezes, como se já estivessem convencidos de que eu não iria atender. Acho que facilita no diagnóstico. Assim como o cara que resiste à prisão, deve ter um artigo qualquer no manual dos psiquiatras que trata a resistência à internação como um motivo extra para consumá-la.
Arrombaram a porta. Simples assim. Após chegar à conclusão de que minhas chances de evasão eram inexistentes, não resisti. Além do mais, um faniquito numa hora daquelas só serviria para tornar minha arrancada do mundo dos sãos mais patética. Pelo contrário. Fiz um tipo. Eles me encontraram bem blasé, tomando meu vinhozinho.
E cá estou. Não me meteram numa camisa-de-força, nem muito menos me amarraram à cama. Nada tão dramático. Não estamos mais na era do eletrochoque tampouco. As drogas agora são muito mais modernas; não deixam vestígios que possam comprometer o bom nome da psiquiatria.
O quartinho é simpático, pintado em cores pastéis. Particular. Coisa fina. Tem até um sofazinho para as visitas. Uma reprodução dos girassóis de Van Gogh completa a decoração. Tudo de ótimo gosto. É claro que não há quaisquer objetos pontiagudos e minhas refeições vêm acompanhadas de talheres de plástico. Mas, fora isso e as grades na única janela, os aposentos parecem os de um hotelzinho de boa categoria.
E sabem da maior? Já estou aqui há vinte e quatro horas e nenhuma daquelas pessoas que pareciam tão preocupadas com minha sanidade se dignou a me visitar. Que beleza, hein? Me internaram por controle remoto!
Um médico de aspecto bonachão me explicou que eu tenho um grau leve de esquizofrenia. E, por ser uma manifestação branda da doença, passou despercebida por toda a minha vida. Disse também que a doença, com o tempo, me causaria surtos mais graves. Só faltou dizer que minha estadia ali era um presente.
Mas o que ele queria mesmo investigar era o que poderia ter desencadeado a crise. Gargalhei na cara dele. Ele estranhou, mas o que ele não sabe é que estranharia mais ainda a verdade. Lembrei daquele filme em que o Jack Nicholson berra num tribunal: You want the truth? You can’t handle the truth!
Quem suportaria uma verdade dessas, quando eu mesmo não consigo? Por onde começar? Eu, que estava mais do que envolvido na questão, não teria acreditado se não tivesse presenciado o assassinato. E, mesmo assim, ela precisou quase morder minha jugular para que eu aceitasse.
Sim, eu posso dizer que pirei a partir do sumiço de Alicia. Talvez eu esteja, nesse sentido, surtado de fato. Muitas vezes, me perguntei se meu desespero provinha da falta que sentia dela ou de não saber o que fazer da minha vida depois de ter passado por aquilo. Certas experiências nos levam a níveis irreversíveis da existência.
E havia, é claro, um certo sentimento de culpa. Afinal de contas, eu me sentia cúmplice dos crimes. Longe do magnetismo de Alicia, todas as justificativas e desculpas esfarrapadas perdiam o sentido.
É difícil conjugar tantas emoções. E vem um carinha num jaleco branco achando que sabe o que eu tenho e como me curar! Não, ele não suportaria a verdade e, ao não saber lidar com sua descrença, me diagnosticaria como um caso irrecuperável. Como é que eu vou simplesmente olhar para a cara do sujeito e dizer que o estopim da minha crise foi ter sido abandonado por uma vampira com a qual eu estava tendo um relacionamento amoroso?
Ele interpretou minhas evasivas como resistência ao tratamento e amarrou a cara. Que mudança brusca. Ainda há pouco havia me acenado com miragens de um habeas corpus, desde que eu colaborasse. Achei que a cena se parecia incrivelmente com uma daquelas que se passam em delegacias de polícia, com o policial esperto tentando pegar o peixão fazendo um acordo com a arraia-miúda. Só que não havia nenhum peixe grande a ser delatado que livrasse minha cara. Gargalhei de novo na cara do médico.
Ele simplesmente meneou a cabeça e foi embora.
O Ronaldo esteve aqui hoje. Adivinha? Meu livro é um sucesso de vendas. Para espanto dos executivos da editora, foi o mais bem-sucedido da série. Pelo que eu entendi, o Ronaldo ainda não contou a eles sobre a minha atual situação. Ele tem sinceras esperanças de que eu fique milagrosamente bom e possa retomar minha posição atrás do teclado e, assim, deixá-lo rico. Só rindo mesmo.
Hilário mesmo foi o modo evasivo como o Ronaldo conversava comigo. Falamos sobre a vendagem do livro, sobre direitos autorais, porcentagem. E ele fazendo um esforço ridículo para evitar qualquer menção ao fato de eu estar temporariamente hospedado num hospício de luxo.
Logo que sua boa educação permitiu, Ronaldo se despediu com um neutro “melhoras” e saiu apressadamente. De dentro do quarto, ouvi seu suspiro de alívio no corredor. Que patético.
O médico bonachão entrou em seguida. Estava novamente com a máscara da compreensão. Resolvi não provocar e fiquei calado. Me explicou que entendia perfeitamente a fase pela qual eu estava passando, que no princípio é normal negar que se tenha algum distúrbio. Repetiu os sintomas e o diagnóstico. Parecia disposto a me vencer pelo cansaço. Uma espécie de reeducação neurológica. Concluiu dizendo que, quanto mais rápido eu deixasse a fase da negação e passasse à da aceitação, mais breve seria minha estadia lá. Continuei calado e simulei um ar compenetrado. Pela sua visível empolgação, creio que interpretei o papel corretamente. Ele se despediu satisfeito, anunciando da porta que sentia que havíamos feito progresso. Então tá.
Embora minha atitude até então tivesse sido a mais cínica possível, a fé na minha saúde mental andava abalada. Poderiam estar todos certos? Que provas tenho eu de que as coisas aconteceram do jeito que eu acredito? Não dizem por aí que o esquizofrênico vive episódios que só acontecem na mente dele? Que enxerga pessoas que não existem?
Tá bom, não era para tanto. Eu tinha provas da existência de Alicia, mas não do que ela chamava “sua condição”. Caso eu seja realmente esquizofrênico, quem garante que eu não tenha imaginado todo o nosso relacionamento? Como provar a mim mesmo que nosso tórrido romance foi real, já que não há um vestígio sequer da passagem dela pela minha vida? Se ao menos eu tivesse sido menos covarde e levado ela comigo no lançamento! Na época, estava convencido de que a escondia para sua própria proteção. Um argumento bem conveniente.
Naquela noite fatídica, tive um ataque de ódio e rasguei a carta que ela me deixou em pedacinhos que atirei pela janela. É nisso que insiste minha memória. Mas será que eu rasguei a carta? Pode ser que nunca tenha havido uma. Eu precisava de uma musa... Não deixa de ser significativo que ela tenha me abandonado justamente no dia do lançamento do livro.
Mas eu não ia ficar o resto da vida olhando passivamente as paredes cor de salmão.