Eu certamente estava numa sinuca de bico, embora soubesse que poderia, a qualquer momento, começar a me comportar do jeito que se espera de alguém são. Eu tinha inteligência suficiente para dar a eles o que eles queriam. Podia simular uma crise existencial, dizer que pirei por conta da ansiedade com o romance, donde eles acabariam por concluir que eu era apenas mais um intelectual estafado diante dum sistema que pouco valoriza a arte - todo escritor tem fama de louco mesmo! - e, portanto, oferecia pouco perigo à sociedade. Blá, blá, blá... e não dava uma semana para estar em casa novamente, munido de pílulas que seriam indispensáveis à minha plena recuperação.
Mas meu medo tinha raízes mais profundas. Mesmo que me dessem por “curado”, sempre pairaria sobre mim a ameaça velada de ser mandado de volta. Ou pior, o medo de me entregar obsessivamente a uma fantasia diferente. Sabe-se lá como seria a próxima. Começava a me achar um perigo para mim mesmo. A quebra da convicção que até então tinha a respeito da minha sanidade abre todo um leque de opções. E todas apavorantes. Lugar nenhum do mundo é seguro para um louco, já que o horror está dentro da sua cabeça.
Sim, eu podia ajeitar as coisas. Mas não queria. Para quê? O que me esperava de tão sensacional fora destes muros? Aqui dentro, lá fora, é tudo a mesma merda! Não. Basta. Era hora de tomar uma decisão definitiva. A história chegou a um fim. Para quem está esperando um desfecho sensacional, tipo uma fuga da clínica seguida por meu encontro com Alicia e nós dois juntinhos eternidade afora, um aviso: pode parar de ler aqui mesmo. Não vai rolar final feliz. Como poderia? Isso aqui é a vida real. Tá certo que meu exemplo de vida não é dos melhores, mas quantos caras por aí realmente beijam a mocinha no final?
Acho que não importa mais investigar se as coisas aconteceram desse modo. Na minha mente, foi exatamente assim. Que proveito teria para minha vida desgraçada apurar a verdade? Verdade para quem? A guerra do Iraque provou com que facilidade se constroem verdades absolutas e convenientes.
De certo modo, tenho que ser grato ao Miguel. Essa clínica me permite possibilidades que um local mais rústico não permitiria. Sendo um intelectual, ninguém achou nada demais quando eu pedi alguns jornais e revistas. Nem se tocaram de remover o plástico que cobre algumas publicações.
Como são bobos, os profissionais de saúde. Acham que as únicas armas de autodestruição são coisas óbvias como facas e giletes. A verdade é que, a despeito das mais rigorosas precauções, ninguém consegue evitar que alguém se mate. As possibilidades são infinitas para qualquer um que tenha um mínimo de imaginação. O que me leva a concluir que o suicida sobrevivente é outra esparrela, já que provavelmente nunca quis levar a cabo seu intento. Quem leva a sério o objetivo de morrer não faz avant-première.
Vão elaborar mil teorias sobre meus motivos. O bom é que eu tô pouco me fudendo pra tudo isso. Se eu acreditasse em Deus poderia temer uma punição post mortem qualquer. Mas um suposto purgatório não me assusta. Estou cansado e ferido demais para obedecer a dogmas que nunca me convenceram.
A asfixia provoca desespero. É grande a tentação de me acovardar e continuar vivendo. Mas pensar no que me espera me faz seguir em frente. Viver dói mais. Tenho certeza de que meu livro vai vender horrores a partir de hoje. |